A cidade vizinha parecia menor do que eu lembrava. Ruas mais estreitas, postes antigos, fachadas gastas que davam a sensação de que o tempo tinha parado ali por escolha própria. O carro diminuiu a velocidade até parar em frente a uma portinha discreta no meio das lojas fechadas do centro. Nenhuma placa chamativa. Só uma luz amarelada acima da porta e um homem encostado na parede, braços cruzados, jaqueta de couro, expressão séria.
Nós descemos do carro quase caindo pelo aperto, e só então o frio me acertou de verdade. Talvez fosse o vento da cidade, talvez fosse a sensação estranha daquela rua vazia. Saí do carro ajeitando o vestido instintivamente, tarde demais para fingir que ele não estava rasgado.
O cetim claro tinha cedido na lateral, um rasgo feio, escandaloso o suficiente para deixar parte da minha calcinha à mostra. Ruborizei ao lembrar da cena no jantar, do escândalo, dos olhares. Ri sozinha, imaginando como minha mãe devia estar naquele exato momento.
Olhei em volta. Todos estavam mais agasalhados, jaquetas, jeans, couro. Provavelmente Caleb tinha passado o dress code, porque eles pareciam uma banda de rock ambulante. Eu e Noah éramos os únicos que destoavam, duas versões de nós mesmos que nunca fomos de verdade.
— Millie... — Finn foi o primeiro a perceber.
Ele se aproximou sem fazer alarde, como se não quisesse transformar aquilo em mais um espetáculo. Se ajoelhou na altura da minha cintura, analisando o rasgo com cuidado.
— Dá pra resolver — disse baixo. — Não precisa olhar assim.
Tirei a mão do vestido, sem saber onde colocar os braços.
— Paguei calcinha no meio de um monte de ricasso — murmurei, rindo. — Foi um desastre.
— Fica tranquila — ele tocou meu braço de leve, quente, firme. — A gente concerta.
Finn tirou algo do bolso, uma bandana vermelha que pendia presa à perna. Se aproximou mais do que eu esperava, os dedos atentos, cuidadosos, puxando o tecido do vestido para cobrir melhor minha perna. Passou a mão pela minha cintura para amarrar a bandana por fora, segurando o vestido no lugar e cobrindo ao menos a minha roupa íntima. O toque foi rápido, respeitoso, mas ainda assim fez meu corpo inteiro pulsar.
Prendi a respiração sem perceber.
Ele estava perto demais. Perto o suficiente para eu sentir o cheiro dele, ouvir a respiração calma, concentrada. O mundo pareceu diminuir até virar só aquilo, as mãos dele ajeitando algo quebrado em mim, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Pronto — Finn disse, se levantando. — Não vai rasgar mais. E quase não dá pra ver.
Levantei o rosto. Ele me encarava com uma expressão séria demais para aquele momento. Preocupado. Genuíno.
Meu coração bateu errado.
— Obrigada — falei, mais baixo do que pretendia.
Antes que o silêncio crescesse demais, Noah apareceu ao meu lado, já tirando o paletó sem pedir permissão.
— Nem pensar que você vai entrar assim, congelando — disse, jogando o tecido sobre meus ombros.
— Você acabou de me transformar numa árvore de natal — respondi, rindo sem querer.
— Sempre foi — ele piscou.
Com o paletó cobrindo o frio e a bandana escondendo o rasgo, respirei melhor. Não era bonito, mas com certeza era mais confortável.
— É aqui? — Maddie fez careta.
— É — Caleb respondeu, já caminhando na frente. — Por favor, não julguem um livro pela capa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Como tudo deu errado - Fillie
Novela JuvenilUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
