Millie
Três semanas viraram quatro meses.
Quatro meses viraram um ano.
Um ano desde a pior noite da minha vida.
Um ano de silêncios que gritam, de noites em claro, de tentativas falhas de seguir em frente. Um ano desde que ajudei a encobrir uma morte.
O caso de Logan Foster, o jovem atleta encontrado morto com um tiro na cabeça embaixo da arquibancada do Internato Crossfield, foi manchete em todo o estado. Nos primeiros meses, era impossível ligar a televisão sem ver o rosto dele na tela — a foto do boletim, o sorriso de bom menino, as palavras "tragédia", "mistério", "suspeitos".
Mas o tempo fez o que sempre faz: apagou.
As investigações foram cheias de furos.
Os seguranças juraram que estavam trancados na sala de câmeras e que alguém destrancou a porta na madrugada, antes da polícia chegar. Nenhuma digital clara foi encontrada, e a arma do crime não foi localizada em lugar nenhum. As câmeras, claro, estavam desligadas. E, entre dezenas de adolescentes ricos, mimados e assustados, ninguém "viu nada".
Os policiais até tentaram interrogar os alunos que estavam na festa, mas a maioria era menor de idade e vinha de famílias que tinham advogados antes mesmo de aprenderem a andar. Logo o caso virou o que sempre acontece quando o dinheiro fala mais alto: um mistério conveniente.
Nos jornais, diziam que "não havia provas suficientes para apontar um culpado".
Mas eu sabia.
Eu vi.
Lembrava de como fizemos tudo com uma precisão desesperada, limpando cada superfície que nossas mãos encostaram, apagando pegadas, recolhendo qualquer objeto que pudesse entregar a gente, e cuidando para não deixar sequer um fiapo de digital naquele porão escondido debaixo da arquibancada. A gente usou o que tinha, álcool, água, panos, o que fosse para fazer a cena desaparecer, e no fim cada um saiu carregando um pedaço da culpa no bolso, inclusive a arma, que o Finn escondeu com ele. A tempestade que despencou naquela noite, a chuva grossa lavando o chão como se o céu estivesse do nosso lado, apagando o rastro que faltava.
Depois do fechamento do internato, meus pais decidiram se mudar de cidade.
Meu pai recebeu uma proposta de trabalho em uma empresa do sul, e minha mãe, como sempre, achou que a mudança seria "ótima pra recomeçar". Eu não discordei. Qualquer distância daquele lugar era bem-vinda.
Na nova cidade, tudo parecia mais limpo, mais silencioso — e completamente sem vida. Passei o segundo ano em uma escola católica pequena, onde ninguém me conhecia, e onde eu podia fingir que não tinha sangue grudado na consciência. Fiz poucos amigos, quase nenhum na verdade, no máximo colegas com quem trocava palavras suficientes pra parecer legal. Mas, no fundo, eu nunca me senti pertencente àquele lugar. Porque, por mais bagunçado que fosse, o meu verdadeiro grupo — as pessoas que me faziam sentir viva — tinha ficado pra trás.
Jacob, o menino com quem eu conversava pela internet desde antes de tudo, continuou falando comigo. Ele ainda morava na cidade antiga, mas me visitava sempre que podia. No começo, eram só conversas longas e mensagens madrugada adentro; depois, veio o primeiro encontro, o primeiro beijo, e sem perceber ele já era parte da minha nova rotina.
Jacob era doce, atencioso, e os meus pais o adoravam — talvez porque, ao lado dele, eu parecesse normal.
O tempo passou rápido demais. As notícias sobre Logan desapareceram das manchetes, o caso engavetou, e as pessoas começaram a fingir que aquilo nunca aconteceu. Mas eu não. Eu ainda sonhava com aquele corpo embaixo da arquibancada, ainda via o sangue nas minhas mãos quando fechava os olhos.
Então, quase um ano depois, uma notícia chegou até mim: o Internato Crossfield seria reaberto.
Ou melhor, o Colégio Crossfield.
Não haveria mais dormitórios, nem alunos dormindo lá. Agora seria uma escola comum, com aulas diurnas e a promessa de um "novo começo". A direção mudou, a estrutura também — mas o nome continuava o mesmo, como uma cicatriz mal curada.
Quando meus pais souberam, decidiram que eu voltaria, até porque a cidade nova era muito longe das grandes oportunidades que meu pai insistia que eu teria no futuro.
"É a melhor escola da região", meu pai disse. "E você já é mais velha, mais madura, pode ficar sozinha durante a semana", completou minha mãe, enquanto planejava mais viagens.
Eles pareciam mais tranquilos com a ideia de me deixarem sozinha, especialmente porque eu "namorava um garoto responsável como Jacob", como minha mãe dizia.
Na cabeça deles, era o retrato da responsabilidade.
Na minha, era só um lembrete de que, mesmo cercada de gente, eu continuava sozinha.
Agora, faltavam poucas semanas para o início das aulas. Eu estava de volta à cidade antiga, morando praticamente sozinha na mesma casa de antes — paredes recém pintadas, móveis trocados, mas o mesmo eco.
Naquela tarde, sentei na cama e abri a gaveta da mesinha de cabeceira como se abrisse meu próprio coração. No fundo, ainda guardava a foto que tirei com o grupo, no último verão antes do caos.
Todos rindo, molhados de piscina, sem imaginar o que viria depois.
Passei o dedo sobre o rosto de cada um.
Sadie, Maddie, Lilia, Gaten, Noah, Caleb, Finn...
Fazia um ano que não via nenhum deles. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Era como se tivéssemos morrido juntos naquela noite e só nossos corpos tivessem seguido vivendo.
Mesmo assim, algo em mim ainda esperava.
Esperava uma chance, um sinal, qualquer coisa que me dissesse que o passado podia, de algum modo, ser consertado.
Mas eu sabia que não podia.
E mesmo assim, eu sentia falta demais.
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Como tudo deu errado - Fillie
Teen FictionUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
