Acabamos indo para um canto mais afastado, atrás do ginásio antigo, onde quase ninguém passava àquela hora. Um pedaço de grama, sombra de árvore, silêncio interrompido só pelo vento e por vozes distantes da rua.
Caleb sentou no chão, apoiou as costas na árvore e abriu a pasta, espalhando as folhas entre nós com cuidado. Sem cerimônia, enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou um papel de seda já meio amassado, um isqueiro e um pacotinho pequeno.
Abriu com os dedos ágeis, tirando a erva aos poucos, esmigalhando com calma entre o polegar e o indicador. O gesto tinha algo de automático, quase ritualístico, como se aquilo ajudasse ele a organizar os próprios pensamentos.
Colocou a erva no papel, ajeitou com a unha, lambeu a ponta com cuidado e começou a bolar, girando devagar até ficar firme. Deu uma última apertada, bateu a ponta no chão pra assentar tudo e acendeu, puxando a primeira tragada longa.
— Quer? — perguntou, soltando a fumaça devagar. — Só pra relaxar um pouco. A gente vai precisar de paciência mesmo.
Hesitei por meio segundo. Depois aceitei.
— Hoje eu mereço — falei.
Deu mais uma tragada e passou pra mim. Ficamos ali, dividindo o cigarro e as folhas, lendo nomes, datas, justificativas idiotas. "Trabalho de biologia". "Pesquisa". "Aula prática". Tudo parecia banal demais pra esconder alguém capaz de fazer aquilo.
Mas, aos poucos, meu corpo foi desacelerando. Os ombros relaxaram. A cabeça parou de girar tão rápido. As letras começaram a fazer mais sentido.
Eu estava concentrada em uma das folhas quando o celular do Caleb vibrou. Ele deu uma olhada rápida na tela e revirou os olhos antes de atender, se afastando um pouco.
— Caralho, Finn... — disse em voz baixa. — Relaxa, tá tudo bem... Você não tinha visto a mensagem, eu já entendi... Amanhã eu te conto com calma...
Houve uma pausa. Caleb franziu a testa.
— Onde você tava?
Ele escutou por alguns segundos e riu sozinho, o que só me deixou ainda mais curiosa.
— Ah... entendi — disse, pigarreando. — Tá, depois a gente conversa... Eu vim com a Millie mesmo. Pelo menos ela me atende.
Deu um meio sorriso irônico, desligou e voltou a sentar perto de mim.
— O que o Finn queria? — perguntei, a curiosidade escapando fácil demais da minha boca.
— Ele não tinha visto minha mensagem. Eu mandei mais cedo, quando comecei a pensar no rato e percebi que precisava vir pra escola urgente. Se ele tivesse respondido, eu teria vindo com ele.
— Então eu sou a segunda opção? — brinquei, rindo.
— Não é isso, Mills. — Ele balançou a cabeça. — Eu sabia do seu castigo, não queria te colocar em encrenca. Mas como o Finn tava na casa da Íris, ele nem viu a mensagem. Aí eu vim atrás de você.
A informação bateu estranho. Talvez fosse a erva. Talvez fosse só tudo acumulado, meu sorriso murchou na mesma hora.
— Na casa dela? — repeti, sem conseguir esconder o tom. — Tipo... agora?
— É — ele respondeu, claramente se divertindo com a minha reação. — Mills, relaxa.
— Relaxa o caralho — falei, já sem muito filtro. — Então eles tão juntos agora?
Caleb sorriu.
— Você fica engraçada chapada.
— Eu tô falando sério.
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Como tudo deu errado - Fillie
Fiksi RemajaUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
