O rádio do carro sussurrava uma música qualquer, mas eu mal ouvia. Meus dedos tremiam no volante. O Internato Crossfield — agora apenas Colégio Crossfield — surgia diante de mim, reformado, com novas placas, novas cores, como se uma demão de tinta fosse capaz de apagar o sangue que um dia escorreu pelos corredores.
Meu coração batia tão rápido que parecia querer fugir antes de mim.
Parei o carro no estacionamento. Tirei a chave da ignição e respirei fundo, tentando convencer a mim mesma de que era só uma escola, só um prédio... mas o cheiro do pátio molhado, o som do portão se fechando atrás de mim — tudo me trouxe de volta àquela noite.
Um passo de cada vez, Millie. Só entra.
Fui até a secretaria, peguei a chave do armário, pendurei o crachá novo no pescoço e me forcei a entrar na rotina que todo mundo fingia: apertos de mão, sorrisos, freira repetindo frases sobre "recomeços".
As aulas correram com normalidade: matemática com o professor que falava demais; literatura com olhares que eu não reconhecia; história onde o tempo parecia um filme que eu já tinha visto. Fui anotando, respondendo, fingindo que o coração não batia na garganta a cada corredor, a cada rosto. Esperava, em algum momento, topar com um deles no corredor — um olhar, um aceno. Mas por enquanto nada.
Quando o sinal tocou para o intervalo fui direto para a estufa. Sempre foi o meu refúgio; antes de tudo, o único lugar onde eu sentia que podia escutar meus próprios pensamentos sem que o mundo os interrompesse. Subi os degraus e me surpreendi: a estufa tinha sido reformada. O vidro reluzia limpo, as estruturas de metal pintadas de um verde suave. Havia bancadas novas, vasos alinhados, mais luz, um cheiro doce de terra molhada e semente nascendo. Alguém havia decidido transformar aquele recanto esquecido do fundo do internato num espaço de aulas práticas — jardinagem, botânica, talvez um clube extracurricular. A novidade me deu uma pontada de felicidade.
Fiquei encostada numa bancada, encostando a ponta dos dedos numa folha, quando ouvi vozes do lado de fora, abafadas, como se conversassem num cômodo ao lado.
A porta rangeu e se abriu devagar. A luz cortou meu rosto e, por um segundo, pareceu que o mundo tomou fôlego. Quando eu ergui o olhar, vi duas silhuetas no vão da porta.
— Tá brincando, né? Eu juro que ele me mandou mensagem DO NADA, tipo "saudades, Lilia"! — disse a loira, gesticulando.
— Aposto que foi o mesmo cara que te ignorou no verão inteiro — respondeu Maddie, o tom debochado de sempre.
Meu corpo travou. As duas me viram ao mesmo tempo. O sorriso delas desmanchou e a risada morreu no ar.
— Millie? — a voz de Lilia saiu quase num sussurro.
Por um segundo, ninguém se mexeu. Eu não sabia se devia ir até elas, ou fingir que não era comigo. Mas Lilia largou a mochila no chão e deu um passo à frente.
— Uau... — ela murmurou, cruzando os braços. — Então é verdade. Você voltou.
Maddie ficou ao lado dela, observando-me com um misto de surpresa e algo mais... ressentimento, talvez.
— A gente achou que você não apareceria mais — Maddie disse, sem disfarçar o tom. — Fomos bloqueadas, né?
Engoli em seco.
— Eu... eu precisei sumir um tempo. Era muita coisa acontecendo.
Lilia soltou uma risadinha curta, quase irônica.
— A gente também passou por muita coisa, sabia? Mas não sumimos.
A tensão pairou como uma nuvem espessa. E foi nesse exato momento que a porta da estufa se abriu de novo.
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Como tudo deu errado - Fillie
Fiksi RemajaUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
