Capitulo Dezessete

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O carro andava devagar, como se ninguém quisesse aceitar que a noite tinha acabado.

O céu já estava claro, daquele azul sem graça que não é manhã nem madrugada. A rua ainda dormia. Eu seria a primeira a ser deixada em casa e isso, por algum motivo, não me tranquilizava.

— Acho que ninguém vai pra aula hoje, né? — Gaten murmurou do banco de trás, meio dormindo.

— Nem fodendo. Só quero minha cama pelas próximas oito horas — Maddie respondeu, a voz arrastada.

Sadie dormia com a cabeça jogada pra trás. Lília encostada na janela. Noah mexia no celular sem foco nenhum. Finn estava quieto, olhando pra frente. Caleb dirigia agora, uma mão no volante, a outra relaxada demais pra alguém que tinha acabado de tocar num palco horas antes.

Meu celular estava descarregado. Tinha acabado antes mesmo da gente entrar no bar, e eu nem me preocupei em carregar. No fundo, eu sabia. Sabia exatamente o que me esperava do outro lado da porta.

— Chegamos — Caleb avisou baixo.

Olhei pra minha casa como quem encara o inferno. As luzes da sala estavam acesas. Meu estômago afundou.

— Boa sorte — Noah disse, abrindo um sorriso torto. — Se você desaparecer, a gente já sabe o porquê.

— Não me arrependo de nada — respondi, tentando rir.

Abri a porta do carro e o frio voltou a me lembrar de tudo. O paletó ainda estava sobre meus ombros. Peguei a garrafa de cerveja que Frank tinha me dado e olhei para trás uma última vez, me despedindo dos meus amigos. Finn me encarou e eu sorri pra ele. Recebi um meio sorriso de volta, carregado de algo que parecia pena.

Antes que eu conseguisse me levantar do carro, a porta da frente se abriu.

Minha mãe apareceu de robe, o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto bravo que eu conhecia bem, com cara de quem não dormiu. Olhou primeiro pra mim. Depois pro carro. Depois voltou pra mim, avaliando cada detalhe, como se estivesse contando erros visíveis.

— Desce do carro. Agora. — Ela não levantou a voz.

— Mãe, por favor—

Ela me pegou pelo braço antes mesmo de eu terminar a frase. Os dedos apertaram forte, sorrateiros, calculados. A preocupação dela não era comigo. Era com quem podia estar vendo. Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém da vizinhança assistia à cena, e então se inclinou na direção do carro.

— Vocês acham isso aceitável? — ela falou. — A Millie ainda é menor de idade. Se algo tivesse acontecido, quem de vocês iria se responsabilizar? Por acaso seria você?

Ela encarou Caleb no banco do motorista com desprezo.

— Me responde, moleque!

— Senhora Brown, a Millie estava em segurança, a gente só—

— Eu não quero filha minha andando com gente da sua laia — ela disse entre dentes.

— Kelly, chega — eu interrompi.

— Cala a boca! — apontou o dedo na minha cara.

Ela se abaixou para analisar quem estava dentro do carro mais uma vez, até parar em Sadie.

— Fiquem longe da minha filha. — fez uma pausa. — E você, Sadie Sink, pode ter certeza de que vou ter uma conversa com seus pais e informar com quem a filha deles anda.

— Vamos embora, Caleb — Noah interrompeu, revirando os olhos.

— Você. — Ela apontou direto pra Noah. — Especialmente você. Fique longe da minha filha, viadinho.

Como tudo deu errado - Fillie Onde histórias criam vida. Descubra agora