Capitulo Vinte e Cinco

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— Jacob... — disse, e minha voz não vacilou. Era a voz de alguém prestes a pular de um penhasco. — Preciso te contar uma coisa.

Mas as palavras não chegaram a sair. Antes que eu pudesse continuar, ele se fechou contra mim. Suas mãos me agarraram pelos ombros, não com violência, mas com uma força assustadora, e seus lábios encontraram os meus. Não era um beijo de amor, ou de saudade. Era um beijo de pânico. Áspero, apressado, quase um selo para calar o que quer que eu fosse dizer.

Ele se afastou um centímetro, a respiração ofegante, os olhos escuros e dilatados.

— Perdão... — ele sussurrou, entre um beijo e outro, a respiração descompassada. — Pelo jogo. Eu sei que prometi, Millie, eu sei. Foi uma emergência, uma reunião com um dos sócios do meu pai do Japão, não pude cancelar, ele não entende... Não aguento ficar brigado com você. Não aguento. Eu te amo, você precisa entender, eu te amo.

O desespero nele era palpável, mas havia algo estranho na cadência das palavras, uma velocidade artificial. Fiquei paralisada, mais assustada com a reação dele do que qualquer tristeza residual pelo jogo perdido. Eu me afastei, rompendo o contato.

— Jacob, para. Você não precisa se desculpar por isso... — tentei dizer, mas ele já estava falando de novo, cobrindo minha voz.

— Preciso! Eu não posso... não posso te perder, ter você me ignorando, não agora...

Ele soava frio no calor do desespero. Um paradoxo que gelou meu sangue. Seus olhos vasculhavam o meu rosto, mas pareciam não ver. Percebi então os pequenos detalhes: a levíssima tremor nas mãos, a suadeira na têmpora, a intensidade quase febril. Uma pergunta horrível surgiu em minha mente: ele usou algo? Tava cheirado?

O instinto de sobrevivência, mais forte que a culpa, falou mais alto. Eu precisava acalmar a situação. Pensar. Respirar.

— Está bem! — disse, baixando a voz, tentando impor uma calma que não sentia. — Está bem, me escuta. Eu... eu também peço desculpas. Por não ter respondido suas mensagens. Eu não tava só com raiva. Aconteceu algo no jogo. Uma briga, uma confusão...

Hesitei, então afastei o cabelo da frente do rosto, revelando o pequeno corte no canto da boca, que eu havia escondido com maquiagem.

— Me machuquei... A menina me pegou de jeito... — tentei sorrir.

Ele olhou para o corte e algo pareceu se partir dentro dele.

— Meu Deus, amor... — ele se aproximou de novo, e antes que eu pudesse recuar, seus lábios tocaram a pele machucada, um beijo leve, quase devoto, mas seu corpo todo tremia.

Trouxe o beijo para minha boca e me beijou de novo, dessa vez mais firme, uma intensidade quase doentia, como se aquilo fosse dele, como se a dor fosse um convite.

— Jacob. Para. Você precisa se acalmar. Por favor. — eu o afastei de novo, o coração disparado. — Você não tá bem... Você usou alguma coisa?

Ele recuou como se não esperasse que eu fosse perceber. A mão que passava pelo rosto congelou no ar. Por uma fração de segundo, vi o pânico cru em seus olhos, seguido por uma vergonha rápida e avassaladora. Então, num movimento quase imperceptível mas gritante para mim, que agora observava cada detalhe, ele levou a mão ao nariz e coçou a asa direita, rápido, nervoso. Um tique. Um clichê horrível e inconfundível. Óbvio que ele havia usado algo.

Meu estômago embrulhou. Era verdade. O desespero acelerado, a fala atropelada, a suadeira fria. Tudo se encaixou com um clique.

— Fiquei muito mal quando você me ignorou — ele disse, a voz subitamente mais baixa, mas carregada de uma lamúria infantil e distorcida. Os olhos não paravam nos meus, vagando pelo jardim de inverno como se procurasse algo. — Você não me deu escolha. A pressão... tudo... ficou impossível de aguentar sozinho...

Como tudo deu errado - Fillie Onde histórias criam vida. Descubra agora