Millie
As semanas estavam passando tranquilas demais.
Tão tranquilas que às vezes eu esquecia que ainda tinha coisa pendurada entre a gente.
Os dias pós aula voltaram a ser na casa do Noah, com pizza, filmes velhos e piadas idiotas do Gaten. Sadie falava alto, Maddie ria de tudo, Lilia sempre aparecia com histórias absurdas.
Era quase como antes. Quase.
Agora eu namorava, e as coisas pareciam diferentes — eu tinha um compromisso, um "nós" que me afastava um pouco deles. Meus finais de semana eram do Jacob, e, por mais que eu fingisse não perceber, o grupo sentia essa distância tanto quanto eu.
Mas, eu já devia saber que paz demais nunca dura.
A primeira fissura apareceu numa manhã qualquer, na aula de Ensino Religioso.
A Irmã Raquel era nova no colégio. Jovem demais pra ser freira, curiosa demais pra estar ali. Ela sempre puxava papo, ria das respostas erradas, parecia mais uma tia animada do que uma professora.
Mas naquele dia, o tom da aula foi outro.
— Hoje a gente vai falar sobre pecado e justiça, — disse ela, apoiando-se na mesa. — Duas palavras que caminham juntas. Alguém sabe por quê?
Os alunos responderam qualquer coisa.
Ela ouviu, sorrindo, até soltar o que parecia ser só uma observação inofensiva:
— Tem um caso que me vem muito à cabeça quando penso nisso... — disse, como quem conta um segredo. — O caso do menino Logan Foster.
Silêncio.
O tipo de silêncio que ninguém planeja, mas todos respeitam.
— Imagino que vocês já tenham ouvido falar — continuou. — Afinal, aconteceu aqui, na nossa escola. E é um dos casos mais tristes que eu já estudei.
Alguns alunos se ajeitaram nas carteiras, interessados. Outros sussurraram o nome de Logan, lembrando das matérias, das fotos antigas, dos vídeos que rodaram na internet. A Irmã Raquel parecia gostar da atenção.
— Eu sei que não devia falar sobre isso, a direção proíbe... mas eu sempre fui curiosa. Pesquisei muito, li tudo que encontrei. É um hobby, sabem? Casos sem explicação sempre me chamaram atenção. — Ela deu uma risadinha quase tímida. — Mas esse... esse me tira o sono.
O ar ficou mais pesado.
Eu senti o corpo gelar antes mesmo de entender o porquê.
— Dizem que a morte foi acidental, mas há tantos detalhes estranhos, não acham? — continuou ela, caminhando entre as carteiras. — Aquela festa, por exemplo. Uma festa escondida, sem autorização, na piscina... um lugar onde o pecado se acumulava, e ninguém via.
O coração batia tão alto que eu mal conseguia ouvir.
— E foi justo naquela noite, — a voz dela se tornava mais lenta, quase encantada. — Que o garoto foi assassinado. Escondido. Como se alguém tivesse premeditado o que aconteceu.
Um dos meninos do fundo levantou a mão, curioso.
— A senhora acha que foi de propósito?
Ela fez um leve aceno com a cabeça.
— Eu não afirmo nada. Só digo que as coincidências... elas dizem muito.
Um burburinho percorreu a sala. Alguns riam, outros se inclinavam nas carteiras, curiosos. A verdade é que tragédias sempre despertam interesse e, pela primeira vez, aquela turma parecia realmente animada, como se o sofrimento alheio fosse um tipo de espetáculo.
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Como tudo deu errado - Fillie
Teen FictionUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
