Capitulo Nove

1.4K 108 471
                                        

Millie

A casa estava em silêncio.

Silêncio de fim de semana — aquele que pesa quando a gente sabe que vai passar mais dois dias sozinha.

Meus pais costumavam voltar nas sextas, mas dessa vez não vieram. A mãe mandou mensagem dizendo que o voo do pai atrasou em Nova York e que eles iam aproveitar pra resolver "umas pendências de trabalho".

Pendências. Era sempre assim que ela chamava o fato de passarem mais tempo fora do que aqui.

Eu já estava acostumada. Cresci em internato, e quando finalmente comecei a estudar só de dia, achei que as coisas iam mudar. Não mudaram. Agora, só moro sozinha de segunda a sexta — e às vezes, de sábado a domingo também.

Acordei tarde. O relógio marcava duas da tarde. O quarto ainda tinha o cheiro dele.
O lençol bagunçado e o travesseiro de Jacob caído no canto da cama. Mas ele já tinha ido embora.

Peguei o celular, esperando ver uma mensagem dele — "bom dia, meu amor", talvez. Nada. Jacob nunca ficava tanto tempo sem falar comigo.

Mandei um oi.
Esperei.
Nada.

Mandei outro.
"Tá tudo bem?"
Visualizado. Sem resposta.

O incômodo começou no estômago, aquela sensação que a gente tenta fingir que não sente. Parte de mim queria acreditar que ele só estava ocupado, mas outra parte... a parte que conhece o silêncio dele, sabia que tinha alguma coisa errada.

Fui pra cozinha. Preparei um café e deixei a TV ligada em qualquer série. Tentei distrair a cabeça, mas tudo parecia arrastar — o som da colher batendo na caneca, o relógio, o vento lá fora. Era como se o tempo tivesse parado de propósito.

Quando a campainha tocou, eu levei um susto.

Abri a porta ainda de pijama, e Sadie já entrou falando alto:

— Acorda, Mortícia! A gente veio pra garantir que você não vai ter desculpa pra não ir!

Atrás dela, Lilia e Maddie apareceram carregando bolsas, maquiagem, roupas e uma energia que parecia saída de outro planeta.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei, surpresa.

— Te salvando — Maddie respondeu, como se fosse óbvio.

— Da solidão — completou Lilia, abrindo as cortinas. — E do tédio mortal dessa casa.

— Gente, eu não... — comecei, mas Sadie me interrompeu, jogando uma sacola em cima da cama.

— Nem tenta. A gente veio pra te arrastar. Festa da Íris, hoje, você não perdia uma quando tinha 15 anos, não é agora que vai perder né?

Fiquei quieta por um instante.

Sadie, Lilia, Maddie... todas com aquele brilho no olhar que eu já conhecia. Era inútil tentar discutir.

— Eu não tinha nem pensado em ir — murmurei.

— Ótimo, a gente pensou por você — Maddie respondeu.

Elas começaram a espalhar roupas, maquiagens, glitter. O quarto virou um campo de guerra e, por um momento, foi impossível não rir.

— Qual o look? — perguntei.

— "Noite dos Mortos-Vivos" — Sadie falou, abrindo um zíper com um sorriso travesso. — E adivinha o que trouxemos pra você?

Tirou um vestido branco manchado de azul gasto e um véu com coroa de flores desbotadas.

— Noiva Cadáver, edição limitada.

Ri, sem saber se era de nervoso ou empolgação. Peguei o vestido nas mãos, e só então percebi o decote.

— Jacob me mata se ver isso... — murmurei rindo, quase sem pensar.

As três se entreolharam, Sadie ergueu uma sobrancelha.

— Você tá ouvindo o que acabou de dizer, Mills?

— Que isso, gente? É brincadeira. Ele não liga — tentei disfarçar, mexendo na barra do vestido. — É só que ele... sei lá, ele é mais reservado. Não gosta de festa, não gosta dessas coisas. Ele só quer me proteger, eu acho.

Elas ficaram em silêncio por um segundo, Lilia foi a primeira a quebrar.

— Mills... — começou, com a voz suave. — Proteger é uma coisa. Controlar é outra.

— Ele não me controla — falei rápido demais. — É só o jeito dele. Ele cuida de mim. Ele é... bom comigo.

As três se olharam de novo, e dessa vez ninguém disse nada. Mas eu vi nos olhos delas o julgamento.

Sadie tentou aliviar o clima:

— Relaxa, o Jacob nem vai saber. E você vai se divertir, prometo.

Deixei escapar um sorriso fraco.

— Eu tô começando a achar que vocês não vão sair daqui sem mim.

— Agora você entendeu — Maddie respondeu, abrindo a garrafa de espumante.

Enquanto elas riam e se arrumavam, eu olhei pro espelho. Meu reflexo me devolveu um olhar que eu quase não reconheci. Tinha algo diferente ali — talvez curiosidade, talvez vontade de ser outra versão de mim mesma. Uma que não pensasse tanto, que só... vivesse. O vestido era lindo, e eu amava esse filme. Pela primeira vez em semanas, senti vontade de me divertir.

Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhum "bom dia", nenhum "te amo".
Suspirei. E fui me arrumar.

O vestido branco tingido caía bem no meu corpo, justo na cintura e fluido na barra, com uma fenda que deixava parte da perna à mostra. A maquiagem azulada realçava meus olhos e, por impulso, eu peguei o spray colorido que Lilia trouxe e pintei algumas mechas do cabelo de azul.
O cheiro químico invadiu o quarto, e eu ri sozinha. Era exagerado, meio infantil — mas me senti linda. Talvez bonita de um jeito que eu não me via há muito tempo.

Sadie estava de fada — asas transparentes, vestido esvoaçante e glitter por todo o corpo. Lilia escolheu uma fantasia de arlequina moderna, com shorts de couro e maquiagem borrada de propósito. Maddie era uma cowgirl estilizada, com botas brancas, chapéu rosa e uma camisa amarrada na cintura.

Elas abriram uma garrafa de vinho barato e começaram a rir de qualquer coisa. A tarde foi derretendo, e quando percebi, já estávamos rindo alto, meio bêbadas, a casa tomada pelo cheiro doce de maquiagem e spray de cabelo.

Noah chegou buzinando, com Gaten no banco do carona. Noah vestia uma fantasia de vampiro cafona, com dentes de plástico e uma capa vermelha; Gaten veio de astronauta, com um capacete enorme que mal deixava ele enxergar.

— Vamos logo, atrasadas! — gritou Noah pela janela. — O Caleb e o Finn já tão lá!

Sadie pegou minha mão.

— É hoje, Millie. Esquece o Jacob um pouco, por favor.

Olhei pra ela, pro brilho no olhar das meninas, pra pista cheia de gente dançando sem pensar em nada. Respirei fundo, tentando convencer meu coração de que era só uma festa, só uma noite.

Talvez eu realmente precisasse disso: uma pausa pra lembrar quem eu era antes de tudo.

Como tudo deu errado - Fillie Onde histórias criam vida. Descubra agora