Millie
Acordei com a cabeça latejando, o quarto escuro e o som da chuva batendo na janela.
Por um segundo, não soube se ainda era noite. O ar estava pesado, cheirando a perfume barato e vinho derramado. A lembrança da festa veio aos poucos, como uma maré cinza: as luzes, o sangue, o disparo. O corpo.
Sentei na cama, os cabelos grudados na testa. A dor de cabeça parecia castigo. Me olhei no espelho e vi uma versão minha que eu mal reconhecia — olhos fundos, lábios partidos, culpa.
Abri o celular com as mãos trêmulas. Os stories da festa ainda estavam lá: gargalhadas, copos se chocando, músicas explodindo.
Ninguém parecia saber de nada.
Nenhum rumor, nenhuma notícia.
Por um instante, uma fagulha de esperança acendeu dentro de mim. Talvez tivéssemos conseguido esconder. Talvez o mundo continuasse girando, mesmo com o Logan debaixo da arquibancada.
Desci as escadas tentando parecer normal.
Minha mãe estava sentada à mesa, de robe de seda, folheando uma revista enquanto o café esfriava na xícara. Falava ao telefone com alguma amiga, voz animada e artificial.
— Sim, querida, depois eu te retorno... — Ela riu.
Me servi de café, tentando não fazer barulho.
Ela desligou, olhou pra mim de relance e depois pra TV.
— Um absurdo o que aconteceu naquela escola — disse, casual, mexendo o açúcar na xícara. — A gente paga uma fortuna e deixam uma festa passar despercebida. Espero que você não esteja no meio dessa bagunça, Millie.
Olhei pra tela confusa.
O repórter estava em frente ao portão do internato, com a fita amarela balançando ao vento. As palavras dele soaram como uma sentença:
"...e agora atualizações sobre o caso que chocou a cidade: o corpo de Logan Foster, de 18 anos, aluno do Internato Crossfield, foi encontrado nesta manhã embaixo da arquibancada do campo principal da escola."
O chão pareceu sumir sob meus pés. A colher escapou da minha mão e caiu no chão, o som metálico cortando o silêncio da sala.
— Millie? — minha mãe arqueou uma sobrancelha. — Você tá bem?
Assenti, engolindo seco.
— Tô... só um pouco tonta.
"...segundo informações preliminares da perícia, o jovem apresentava ferimento por arma de fogo na cabeça. A arma não foi localizada no local.
A polícia investiga a possibilidade de homicídio.
Fontes internas afirmam que os seguranças responsáveis pela ronda noturna estavam trancados dentro da sala de monitoramento durante toda a madrugada, e não conseguiram se comunicar com a direção ou com as autoridades porque os rádios e celulares haviam sido deixados do lado de fora.
Um dos funcionários relatou que, foram trancados dentro da sala de câmeras no dia anterior e, por volta das três da manhã, alguém abriu a porta da sala, mas eles não conseguiram ver quem era. Acredita-se que o suspeito tenha aproveitado esse momento para sair do prédio sem ser visto.
A diretora da instituição, que estava fora do campus, declarou em nota que está 'profundamente abalada com o ocorrido' e.."
Subi as escadas antes que eu vomitasse ali mesmo. No grupo, as mensagens já estavam explodindo.
[Noah]: precisamos conversar
[Caleb]: no lugar de sempre, 11h. sem atrasos
A chuva engrossava. Saí de casa com o coração batendo no pescoço.
A garagem da casa de Noah era fria, o eco das gotas batendo no telhado parecia um relógio marcando o fim. Estavam todos lá, calados. O rosto de cada um era um espelho do que eu sentia: medo, confusão e o tipo de cansaço que envelhece por dentro.
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Como tudo deu errado - Fillie
Teen FictionUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
