Millie
A bile recuou, mas deixou um gosto amargo na minha boca. Piscando rápido, respirei fundo, tentando não desabar na pista de dança como se o chão tivesse sumido.
Não podia chorar ali. Não ali. Não agora.
A foto queimava dentro do meu sutiã, como se tivesse vida própria, como se fosse brasa contra minha pele. E o celular vibrando na minha mão era uma coleira me puxando de volta para o lugar onde Jacob sempre me deixava.
"Se divertindo, amor?"
As palavras pareciam garras.
Eu limpei o rosto com pressa, mesmo sem ter chorado de verdade, e comecei a andar sem rumo, tentando achar um canto vazio, algum lugar onde eu pudesse respirar.
Mas a casa estava lotada. As luzes piscaram forte, um flash branco que me cegou por um segundo. Pessoas trombavam em mim, riam, gritavam, derrubavam bebida. Tudo tão alto. Tão perto. Tão errado.
Andei em direção aos fundos, sem saber se queria encontrar alguém ou sumir de vez. Meu celular vibrou outra vez na minha mão, e eu apertei com tanta força que meus dedos doeram. Não abri. Não conseguia.
A porta dos fundos apareceu na minha frente, e quando empurrei, o ar frio bateu no meu rosto como um tapa. Respirei fundo, tentando afastar o enjoo, mas era tarde demais.
A bile subiu pela minha garganta de novo, quente, amarga, e eu nem tentei segurar. Caminhei cambaleando até o gramado, me apoiei nos joelhos e vomitei. O gosto de álcool queimou minha boca, meus olhos arderam, e a primeira lágrima caiu sem que eu percebesse. Depois veio a segunda. Depois todas.
Eu chorava pelo susto da máscara, pela foto, pela palavra escrita atrás, pela sensação de que alguém sabia, que alguém tinha visto, que alguém estava rindo do meu medo.
Chorava também por Jacob. Pela mensagem curta, fria, que parecia um tapa, pela culpa por estar aqui. Por ter dançado com Finn. Por ter sentido... alguma coisa.
— Millie?!
A voz de Sadie veio rápido, acompanhada do som apressado dos pés dela correndo pela grama.
Quando ela me encontrou, ainda curvada, seu primeiro suspiro foi aliviado.
— Ah, puta merda, Mills... — ela riu, meio sem graça. — Eu achei que tinha acontecido alguma coisa séria. Só no PT, doida?
Eu tentei responder, mas a voz simplesmente não saiu. Quando ergui o rosto, ela congelou. Porque eu não tava só enjoada. Eu tava chorando como se o mundo fosse acabar hoje.
— Ei... — Sadie se abaixou na minha frente. — Ei, olha pra mim. O que foi? O Jacob falou alguma merda? Finn fez alguma coisa? O que...?
Eu balancei a cabeça, respiração toda descompassada. Levantei a mão trêmula até o decote do vestido e tirei, com dificuldade, o envelope amassado e úmido de onde eu tinha escondido.
Sadie me olhou confusa.
— O que é isso?
Apenas respirei fundo, ou tentei.
— Chama... todo mundo. — minha voz saiu falhada, quase um sussurro. — Por favor, Sadie... chama todo mundo. Agora.
Mesmo confusa, ela não perguntou de novo. Só assentiu, levantou num pulo e saiu correndo pra dentro da casa.
Fiquei ali mais um minuto tentando respirar, limpando a boca com as costas da mão e secando as lágrimas que não paravam de cair. Quando consegui ficar de pé, senti as pernas bambas, mas tentei de recompor.
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Como tudo deu errado - Fillie
Novela JuvenilUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
