As semanas seguintes não foram vazias. Foram cheias de tentativas que não davam em nada.
Finn e eu passamos a agir como se fosse natural ficarmos mais tempo juntos. Estudar depois da aula, dividir fones no intervalo, ir embora no mesmo horário. Por fora, parecia aproximação. Por dentro, era estratégia, apesar de ser algo que estava me fazendo muito bem.
A gente observava Caleb o tempo todo, como dois Sherlocks de quinta categoria, caçando pistas onde talvez nem existissem. Ainda assim, nunca chegávamos a lugar nenhum. Só voltávamos para o ponto zero, com mais perguntas do que respostas.
Às vezes Finn puxava assunto do nada, perguntava de Logan. Outras vezes era eu, mencionando a festa, a noite da morte, tentando ver se algo escapava no tom, no olhar, no jeito de respirar. Nada. Caleb desviava, ria sem humor, mudava de assunto com uma rapidez impressionante.
Começamos a reparar nos horários dele. Saídas estranhas, desculpas mal explicadas, dias em que sumia sem avisar, coisas que até aconteciam antes, mas agora chamavam nossa atenção até demais. Teve um dia específico em que eu quase acreditei que a gente finalmente tinha encostado em alguma coisa.
Caleb saiu da última aula antes do sinal tocar. Não avisou ninguém, só pegou a mochila e foi. Finn me olhou na mesma hora. Levantei sem pensar e fomos atrás, mantendo uma distância segura.
Ele atravessou o pátio, passou pelos fundos da quadra e seguiu em direção ao estacionamento dos professores. Um lugar onde aluno não tinha motivo nenhum pra estar.
Caleb parou perto de um carro escuro. Olhou pros lados, como se conferisse se estava sendo observado. Meu peito apertou. Eu tinha certeza absoluta de que aquele era o momento. A prova. O erro.
Mas então a porta do carro se abriu.
Era o tio dele.
Reconheci na hora. Já tinha visto algumas vezes, sempre sério. Caleb se aproximou rápido, falou alguma coisa que não conseguimos ouvir e entrou no banco do passageiro. O carro saiu sem pressa, como se não tivesse nada de errado.
Era sempre assim. A gente corria atrás de sombras, montava teorias, criava monstros... e no fim sobrava só o vazio.
O grupo também começou a se meter em situações idiotas. Gaten jurou ter visto alguém parado perto da casa da Maddie e fez todo mundo ir conferir. Era só um vizinho fumando no portão. Sadie implicou com um cara no estacionamento achando que ele estava fotografando a gente. Quase deu confusão. Noah passou a apagar algumas redes sociais, como se estivesse tentando se proteger de algo que nem sabia nomear.
A gente estava ficando paranoico. E, talvez, com razão. O stalker tinha sumido, mas deixado algo pior no lugar: desconfiança. Cada um começou a esconder coisas pequenas. Mentiras inofensivas. Segredos. O grupo ainda existia, mas não era mais inteiro.
Mas a vida não parou para a nossa paranoia.
Ela continuou andando, indiferente, empurrando compromissos, encontros e decisões goela abaixo, como se nada estivesse errado.
Era meio de semana. Eu estava jogada no sofá, o uniforme amassado e o celular vibrando com mensagens que eu trocava com o grupo, quando ouvi a porta da frente abrir.
Não cheguei a reagir antes da voz atravessar a casa.
— Surpresa! — levantei num pulo com a voz ardida da minha mãe.
Meu pai já entrava arrastando malas pelo corredor, enquanto minha mãe tirava os óculos escuros com um gesto ensaiado e largava várias sacolas de compra no chão.
— Não vai cumprimentar sua mãe? — ela abriu os braços.
Fui até ela e a abracei rápido, ainda tentando entender a situação. Kelly me soltou quase de imediato, segurando meus ombros para me analisar como um projeto inacabado.
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Como tudo deu errado - Fillie
Novela JuvenilUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
