Capítulo 14

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O barulho da campainha me acorda do sono profundo em que estava. Quem deve estar me incomodando a essa hora da manhã? Seja lá quem for, vou vencê-lo pelo cansaço.

Mas a pessoa é insistente. A campainha continua a tocar. Não tem jeito. Me levanto, esfrego os olhos e verifico que horas são no reló­gio do criado mudo. Meio dia! Nossa! Como eu dormi!

Desço as escadas para ver quem é esse chato que importuna o meu sono.

-Já vai!- grito ao chegar à sala.

Quando abro a porta, tenho uma grande surpresa. Ali está minha filha Catherine. Ela continua linda, muito parecida com a mãe. Os mesmos olhos azuis. E os mesmos cabelos castanho-claros caindo sobre os ombros. Fico sem reação diante dela.

-Pai? Tá tudo bem com o senhor?- ela demonstra surpresa

-Cat? O que faz aqui?

-Bob veio visitar os pais dele aqui perto, na Filadélfia, e eu aprovei­tei para visitar o senhor.

-Entre - ela me beija no rosto ao entrar. -Por que você não ligou?

-Te liguei várias vezes, mas o celular estava desligado e o telefone de casa estava dando ocupado. Então decidi vir assim mesmo. -Ela senta-se no sofá e eu na minha poltrona. -Pai, o senhor está horrí­vel! E esse cheiro forte de álcool? O senhor andou bebendo?

-Foi só ontem. Bob sabe que você está aqui? –desconverso -E a Penny?

-Ele sabe sim. E a Penny ficou com ele e com os pais dele em casa. Cheguei num mau momento? Estou atrapalhando alguma coisa?

-Não . Claro que não. Só não esperava que você viesse tão de re­pente.

-Ah! Pai! Marcamos várias vezes e nunca confirmamos nada. E já que estava aqui por perto, pensei, por que não te visitar.

-Quer comer alguma coisa?

-Não. Só água, por favor. - enquanto vou buscar ela se levanta e passeia um pouco pela sala. - Gostei da sua casa. É bem aconche­gante. Já terminou a arrumação?-ela pega o copo da minha mão e senta-se.

-Já sim. - eu sento na poltrona.

-Ficou legal. –ela faz uma pausa após beber a água- Papai, estou preocupada com o senhor. Dá para ver que não está bem. Não quer me contar o que está acontecendo?

-Não está acontecendo nada Cat. Eu só bebi um pouco além da conta ontem e fui dormir tarde. Só isso.

-Eu sei que está sendo difícil para o senhor superar a perda da mamãe. Também está sendo difícil para mim. Mas o senhor tem que superar...

-Cat- eu a interrompo- está tudo bem eu sei me cuidar.

-Não é isso que eu estou vendo.

-Filha, por favor. Eu estou bem.

-Então porque o senhor não nos liga? Pelo menos para saber de sua neta?

-Cat...

-Qual vai ser a sua desculpa dessa vez? Que estava ocupado? Que não teve tempo? De novo, pai?- ela começa a alterar a voz. - Ou é por causa do Bob?

-É. É isso mesmo. Eu não gosto nem um pouco dele. Não quero ficar olhando para aquela cara dele.

-Por que o senhor não gosta dele pai? Hum? O que ele te fez?... –Não tenho resposta para essa pergunta, na verdade não sei o real motivo. - Acho que eu sei por que o senhor não gosta dele. -ela continua- Porque ele é um marido e pai que o senhor nunca foi capaz de ser para mamãe e para mim.

Por alguns segundos fico sem chão.

-Cat... - sou interrompido pela campainha. Suspiro com as mãos no rosto e vou atender a porta.

-Bom dia senhor Whitman- Heidi entra direto e continua falando. Ela não parece que bebeu tanto na noite anterior. Veste uma ca­misa da banda King Crimson. – eu precisava falar com o senhor... -ela para quando vê minha filha. É um momento meio embaraçoso.

Cat se aproxima. Me coloco entre as duas.

-Cat. Essa é Heidi Zeigers... Ela é... Uma amiga. Heidi, essa é minha filha Catherine.

-Como vai Heidi?- Cat estende a mão.

-Bem. –elas apertam as mãos- O senhor Whitman me falou sobre você.

-Aconteceu alguma coisa, Heidi?- eu as interrompo.

-Estou esperando uma correspondência muito importante e que­ria saber se veio parar aqui. Se o senhor a recebeu.

-Ah sim! Chegaram umas cartas. Estão na cozinha. – eu acompa­nho Heidi. Separo as cartas e as entrego. – Aqui estão.

Cat se aproxima de mim:

-Quem é ela?- sussurra ao meu ouvido enquanto Heidi verifica as cartas.

-É minha vizinha daqui do lado.

-Desculpe o incômodo senhor Whitman. –diz Heidi. -Já falei com o carteiro para ele não errar mais. Era só isso. Já estou indo.

-Sem problemas. E você está bem?

-Sim estou. – ela diz isso olhando diretamente para mim. -Então estou indo. Tchau, Catherine.

Eu a acompanho até a porta. Minha filha se chega até mim

-Pai, o que foi isso?

-Isso o quê?

-O senhor está namorando uma adolescente?

-Não!- gesticulo- não estou namorando esta jovem! Ela é apenas minha vizinha.

-Ah pai! Não sou idiota. Eu vi o jeito como vocês se olharam.

-Não é isso. Você entendeu errado. Ela é apenas uma amiga.

-Pai, realmente não estou entendendo nada. Chego aqui e encon­tro o senhor estranho, com cheiro forte de bebida, a barba por fazer, magro, e ainda por cima "amigo" de uma menina mais nova do que eu...

-Filha, você está exagerando.

-De onde ela é? Quanto anos ela tem?

-Amsterdã. E ela tem 18.

-Ela vive aqui sozinha?

-Não. Ela tem um namorado. Bom, -mudo de assunto- estou com fome. Você quer comer alguma coisa?

-Não. Estou bem. Onde é o banheiro?

Eu a conduzo até lá. Enquanto ela está lá dentro procuro na Não tem nada pronto.

Cat me encontra vasculhando a geladeira e os armários da cozinha em busca de algo para comer.

-Ainda bem que você não está com fome. Porque não tem nada pronto.

-Se o senhor quiser, posso preparar alguma coisa.

-Não precisa.

-Não. Tudo bem. Pode deixar que eu preparo. Sente-se aí.

Sento-me à bancada. Enquanto ela prepara ovos mexidos com torradas e bacon, eu a observo atentamente.


A EstrangeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora