O toque do meu telemóvel tira-me do sono profundo, ainda às escuras apalpo a mesa de cabeceira com intenção de calar o som. Com um olho aberto olho para o ecrã luminoso e o nome da Ash é visível em grande na tela, atendo a chamada e encosto o telemóvel ao ouvido.
"Sim"
"Então desaparecida?" A voz da Ashey transmite nada mais nada menos que felicidade, algo que me diz que a noite dela foi bem divertida depois de me ter deixado atirada numa festa onde não falava com ninguém. Olho para a janela, os raios de som a quererem entrar pelo meu quarto adentro. Que horas são?
"Desaparecida? Vocês desapareceram toda a noite" olho para o meu relógio que marca duas da tarde. Já? A minha mãe não me acordou para almoçar sequer? Levanto-me da cama e subo as precianas da janela, está um dia limpo e iluminado, as crianças de bicicleta andam na rua ou simplesmente correm umas atrás das outras. Olho-me ao espelho e parece que fui atropelada por um camião.
"Era sobre isso que queria falar contigo... Posso passar por tua casa mais logo?"
"Claro. Alguém tem de me salvar do inferno que esta casa se encontra" desligo a chamada e atiro o telemóvel para cima da cama. A noite de ontem vem à minha cabeça e lembro-me que não tive oportunidade de contar ao Scott as más noticias, pego novamente no telemóvel e envio-lhe uma mensagem para passar cá por casa mais logo.
O instagram notifica-me de um pedido para me seguirem, os meus dedos são rápidos a abrir a notificação e depressa me deparo com o perfil do Dylan, sento-me na cama antes de me atirar para trás. A noite de ontem foi de todo algo que nunca esperei acontecer, não pensei que fosse possível ter uma conversa decente com o Dylan, mas ele foi querido(?) para mim, parecia tão cuidadoso. Esfrego as minhas pálpebras quando me recordo do beijo, não deveria ter acontecido, aliás, toda a noite de ontem não deveria ter acontecido. Começando na notícia de termos de ir morar para o outro lado do mundo, passando por perder os meus amigos e acabando aos beijos com o Dylan... deus, porque é que pedi para ele me trazer a casa? O álcool tomou conta de mim mais do que deveria, perdi o controlo das minhas ações e acabei a noite em cima do colo do Dylan nos bancos de trás do carro dele, se o telemóvel não tivesse tocado não sei o quão longe a noite nos tinha levado.
Aceito o pedido e volto a atirar com o telemóvel. Desço as escadas e encontro o Sang sentado no sofá com o seu computador no colo. As suas feições estão tranquilas, e um grande sorriso aparece na sua cara antes de olhar para mim, ele pousa o computador no sofá e levanta-se em direção a mim.
"Pensámos que não querias que te acordássemos, a tua mãe está no quarto a arrumar umas coisas. Anda, temos que falar" a sua mão pega na minha antes de me levar em direção à cozinha, a mesa ainda está posta para mim e depressa o meu padrasto me serve um prato de carbonara antes de se sentar à minha frente. Levo uma garfada à boca e encho o meu copo com água sem nunca encarar a encará-lo, os seus dedos brincam com o relógio no seu pulso esquerdo, um hábito que ele tem quando está nervoso.
"Primeiro que tudo quero-te pedir desculpa... Nós, eu. Devia ter falado contigo"
Ainda bem que admite. Continuo a comer como se nada fosse comigo e sem o encarar, sinto os meus olhos pesados e por algum motivo também me sinto culpada. O Sang levanta-se e arruma a cadeira antes de dar a volta à mesa e se sentar ao meu lado. Ele pega nas minhas mãos e vira-me para ele.
"Areum desculpa por favor. Eu sei que não te posso pedir que vás, e também sei que a tua mãe não vai sem ti. Mas pensa que pode ser uma nova oportunidade, uma nova vida. Eu lamento mesmo aquilo que fiz. Vou partir dentro de uma semana, podes decidir até lá" ele levanta-se para sair da cozinha, mas eu agarro a sua mão e puxo-a para baixo de modo a fazê-lo sentar de novo. Os meus olhos que ameaçam deixar cair lágrimas a qualquer momento encontram os seus que transparecem claramente a sua tristeza. Eu abraço-o e uma sensação de alívio percorre o meu corpo. A sua mão percorre os meus cabelos e as minhas costas enquanto ele murmura um "desculpa". As minhas lágrimas molham a sua camisola e eu depressa me afasto e enxugo a minha cara.
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Serendipity Pt
Hayran KurguAreum é uma jovem bem resolvida que vê a sua vida dar uma volta de 180º a partir do momento que é obrigada a mudar-se para o outro lado do mundo. Com a nova vida, vem um novo "irmão", a sua relação é uma montanha russa, altos e baixos, discusões e d...
