3. Reencontro [revisado]

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Jughead

Elizabeth Cooper está me fuzilando com os olhos.

Me sinto estranho, afinal é sempre assim que Betty me faz sentir, mas com o passar dos anos, eu quase havia me esquecido da sensação. Diante dos olhos dela, me sinto distraído e focado ao mesmo tempo. Agitado, relaxado, irritado... Zonzo. Perdi o costume de passar por picos emocionais e isso me faz entrar em desacordo comigo mesmo. Algo nesse sentimento faz com que eu me afaste de Cole e abra caminho para ela, que corre até o menino, com Verônica logo atrás. 

Então ela e Verônica ainda eram amigas?

— O que aconteceu? O que você fez com ele? — Betty vocifera, me lançando um olhar acusatório e no mesmo segundo me sinto ofendido. 

— O que te faz pensar que eu fiz alguma coisa com ele? — pergunto, com estranheza — Sou o novo pediatra da escola. Cole teve um acidente no recreio e eu apenas fiz um curativo na sua testa.

Betty faz uma careta, não gostando de ser contrariada, e me dá as costas, enquanto confere se Cole não tem mais nenhum machucado.

— Como você se sente, querido? — ela o questiona e vejo Cole sorrir, enquanto passa a língua pelo pirulito de frutas.

— Estou bem. O Doutor Jones é legal e cuidou de mim. Ele me deu esse pirulito de frutas, e você bem podia comprar alguns desse, mamãe. E fique tranquila, não é traumatismo craniano.

Betty arregala os olhos ao ouvir Cole dizer "traumatismo craniano" e imediatamente me lança um olhar raivoso.

— Você falou pra um menino de seis anos de idade que ele poderia ter um traumatismo craniano? — seu tom de voz é baixo, mas duro e acusatório. Sei que se ela não estivesse na frente do filho, talvez estivesse gritando. 

Eu lanço um olhar para Cole e o vejo arregalar os olhos. Ele comentou algo a respeito de não querer que a mãe soubesse de suas pesquisas científicas no Google. Algo no seu olhar assustado me fez querer acobertá-lo, mesmo que isso despertasse um demônio dentro de Elizabeth Cooper.

— Não exagere, Elizabeth — respondo a ela, dando de ombros — O garoto está ótimo. É duro na queda, não é amigão? — digo a ele, lançando-lhe uma piscadinha, e Cole sorri abertamente, afirmando com a cabeça que sim.

— O Doutor Jones é o primeiro amigo que faço hoje. — Cole responde orgulhosamente e no instante seguinte, vejo Betty querer me assassinar com os olhos, enquanto Verônica gaguejava e tentava encontrar uma saída pra aquela situação que já ultrapassava o desconforto total. 

— Cole, querido, eu estava com saudades de você. — Verônica diz, de repente, aproximando-se do garoto e o pegando no colo, desajeitada — Que tal irmos pro carro e escolher uma sorveteria bem legal pra gente ir?

— Não quero sorvete, Dinda V. Quero adotar um filhote. Um filhote abandonado. — ele responde, com uma determinação de se admirar, me fazendo sorrir.

— Bom... Vamos demorar para convencer sua mãe disso. — Verônica suspirou, dando as costas para nós e saindo com Cole pela porta.

Eu e Elizabeth ficamos sozinhos, enquanto um silencio constrangedor paira entre nós. Eu me engasguei com algo que se acumulava em meu peito. Eu sentia falta dela. Meu deus, como eu sentia falta dela. E agora, quase oito anos depois, tudo que tínhamos vividos juntos repassavam na minha mente sem parar.

— Então você voltou pra Riverdale... — digo, pigarreando e puxando assunto, enquanto observo o impasse de Elizabeth em me responder. Ela está ainda mais bonita do que antes. Talvez mais magra e com uma aparência cansada, de alguém que assim como eu, trabalhava demais e dava duro para ser mãe e mulher. Seus olhos verdes hipnotizantes estão temerosos e vejo que ela não quer me encarar.

— Você também voltou. — ela me responde, com um suspiro.

— Irônico, não acha? — digo a ela — Eu diria que é destino.

— Eu não costumo chamar coisas ruins de destino. — ela responde, com dureza em suas palavras, e solto um suspiro.

— Você tem um filho agora. — eu afirmo, sem saber onde quero chegar com esse assunto, mas sei que quero chegar em algum lugar.

— Eu tenho.

— Eu não pude deixar de me fazer algumas perguntas...

— O que? — ela me interrompe, se aproximando como uma felina pronta para o ataque — Você quer saber se tem algo a ver com a paternidade de Cole? — a voz de Elizabeth era sarcástica e trêmula — Pois saiba que eu utilizei os mil dólares que você me deu para um aborto na última vez que nos vimos da melhor maneira que pude. Se você ver a ficha do Cole, vai perceber que ele nasceu alguns anos depois, então...

Fico em silêncio e me sinto um idiota.

Da última vez que nos vimos, ela estava de partida para outra cidade e fazia apenas uma semana desde que descobrimos a respeito da gravidez. Eu me sentia um fracasso por ter terminado a faculdade de Língua Inglesa e ter não conseguido o emprego dos meus sonhos, enquanto Elizabeth ainda precisava terminar a faculdade de jornalismo. Tudo estava errado. Na última vez que nos vimos, eu deveria ter lhe oferecido apoio. Ao invés disso, lhe ofereci dinheiro e a ideia do aborto. E agora ela estava ali, criando sozinha o filho de outro. 

— Tudo bem, foi precipitado da minha parte sugerir que eu poderia ser o... — começo a falar, mas minhas palavras se perdem no silêncio. Elizabeth ainda me encara com um olhar dolorido e acusatório. Consigo ver que ela não espera nada bom de mim.

— Não gosto disso. Não gosto do fato de você estar aqui e eu também estar aqui. Não gosto de você perto do meu filho. Não gosto dessa sua mania de perseguição onde acaba sempre dando um jeito de entrar na minha vida. Eu demorei muito tempo pra te esquecer e me tornar quem eu sou agora, então... Por favor... Se afaste. E não se aproxime do Cole novamente a não ser que seja estritamente necessário.

Elizabeth não me dá chance de resposta.

Ela é tão linda.

E me odeia.

Sei que Betty tem muita coisa boa dentro dela. E muita dor também. Sobre o passado e sobre mim. Sei disso porque também carrego essas dores, mas consigo imaginar que as dela são piores que as minhas. Ela acha que estraguei tudo. E bom, foi realmente isso o que eu fiz.

Daddy's little love [Bughead]Onde histórias criam vida. Descubra agora