Jughead
Sirvo dois copos de whisky com gelo e ofereço um deles ao ruivo sentado na minha poltrona. O jogo dos Yankees está passando na televisão pequena e ouço as vozes agitadas do estágio ecoar entre as paredes do motel. Estou vivendo aqui há quase duas semanas, mas tenho planos de em breve adquirir minha própria casa. Um homem descente não pode morar num motel pra sempre.
— Então, você sabia que ela tinha um filho? — pergunto para Archie, que nega com a cabeça, dando uma boa golada no seu whisky.
— Estou tão surpreso quanto você. Quem me contou foi meu pai... Disse ter visto ela sair de casa com o menino. Você consegue acreditar que ela escondeu um filho por seis anos?
— Eu sei. Também é inacreditável pra mim. A Verônica... Ela estava com a Betty mais cedo. O que ela sabe?
— Provavelmente muito mais do que teve coragem de me contar até hoje — Archie solta um suspiro, pesado, balançando a cabeça — Quero dizer, as duas sempre tiveram essa irmandade estranha e essa conexão psíquica. Como aquele filme do ET, sabe? Se o ET fica doente, o menino fica doente. Se o ET está bêbado, o menino fica bêbado. Com as duas é da mesma maneira. E nós dois somos aqueles caras do governo que tentam entender alguma coisa e no final acabam não entendendo nada.
— Você não o viu, não é? — pergunto a Archie, sem conseguir me concentrar em suas divagações e apenas perdendo o olhar pela chuva que caindo através da janela e atingindo a auto-pista.
— Não. Por que?
— Não sei... O menino tem alguma coisa... Algo familiar.
Archie não me responde a princípio, apenas avalia minhas expressões por alguns segundos até ter coragem de expor sua opinião. Algo me diz que não vou gostar do que ele tem pra me dizer.
— Você se sente culpado por ter falado pra Betty fazer um aborto há anos atrás e agora quer projetar esse arrependimento no fato dela ser uma mãe solteira, mas eu já fiz os cálculos, cara. O menino tem seis anos. E a não ser que você tenha ido pessoalmente até Chicago para engravidá-la, esse filho não é seu.
— Bobagem — respondo a ele, bebericando o whisky e sentindo o líquido descer trilhando um caminho quente pelo meu esôfago.
— Pare com essa mania de criar teorias conspiratórias.
— Você não o viu ainda. Ele é tão... Inteligente. Elizabeth o cria bem, aparentemente.
— E você gostou do garoto. — Archie diz, com um sorriso.
— É, eu gostei.
Meu melhor amigo mais uma vez não diz nada. Ele sabe que é uma coincidência tremenda eu e Cooper voltarmos para Riverdale quase que simultaneamente. Assim como eu sei que o amor era difícil, assim como a vida. Sofria reviravoltas impossíveis de ser previstas ou mesmo entendidas, e deixava um longo rastro de arrependimento pelo caminho. E, quase sempre, esse arrependimento levava a perguntas do tipo "E se..." que nunca poderiam ser respondidas.
O arrependimento suga a vida de qualquer pessoa.
(...)
Três dias depois
A OMS deixa bem claro sobre os danos do cigarro a saúde, mas como o belo hipócrita que sou, apago a guimba na parede dos fundos da enfermaria e jogo a ponta na lixeira. Agora sou um pediatra, não é correto fumar, mas antes de tudo, sou um escritor.
Faço uma varredura do pátio com os olhos. É a hora do intervalo da manhã e vejo as crianças correrem agitadas entre os brinquedos, o gramado e os poços de areia. Observo com mais atenção e vejo uma pequena, frágil e peculiar figura imersa na sua própria bolha de pensamentos, ou solidão. Cole Cooper mordisca um sanduíche enquanto observa os colegas brincando de pique. Ele não me parece enturmado, ao mesmo passo que aparenta conforto com o fato de estar sozinho. De certa forma, eu o entendo.
A curiosidade me faz querer sair de onde estou e ir até ele. Penso uma vez antes de agir. Elizabeth praticamente ordenara para que eu ficasse longe do menino, mas que mal tinha? Eu só queria... Conhecê-lo.
Rumo até ele em passos inseguros. Ao ver minha aproximação, Cole abre um sorriso que eu não esperava.
— Olá, Doutor Jones. Como vai?
— Oi, amigão! — digo a ele, sentando-me ao seu lado no pequeno banco — Vejo que aquele corte na sua testa já está melhorando.
— Claro que está. Minha mãe cuida muito bem de mim. — ele diz, cheio de orgulho.
— Não tenho dúvidas.. — respondo a ele, ainda surpreso com seu tom de convencimento na resposta anterior, enquanto tento encontrar algum assunto com uma criança peculiar de seis anos — E então, por que não está brincando com seus amiguinhos?
— Eles não são meus amigos. Acho que eles nem gostam de mim. — Cole solta um suspiro pesado, mas acaba dando de ombros — Meus únicos amigos são a mamãe, a dinda Verônica e agora você.
— Sem dúvidas eu sou seu amigo.
Ficamos em silêncio mais um instante. Verônica era madrinha do garoto, é claro. E pra mim isso significava que ela já sabia da existência dele há muito mais tempo do que Archie poderia imaginar. Vejo Cole retirar pedacinhos de cenouras da sua merendeira e mordiscar como se fosse a coisa mais gostosa do mundo. Acabo soltando um risinho sem querer. Isso é tão a cara de Elizabeth Cooper: criar filhos inteligentes, saudáveis e veganos.
— Acho que tenho transtorno ciclotímico. — ele diz, de repente, e eu arregalo os olhos — Fico olhando para as crianças correndo e acho chato. Não consigo sentir nada.
— Você... — eu gaguejo — Você sabe o que é isso? Transtorno ciclotímico?
— Sim. — ele dá de ombros mais uma vez, agora pescando uvas dentro do pote — Transtorno ciclotímico significa instabilidade emocional, hiperatividade, perda de interesse ou prazer, e falta de desejo sexual.
Um ruído abafado saiu pelos meus lábios. Estou incrédulo e impressionado.
— Cole, como você...?
— Eu aprendi em um site de medicina — ele dá de ombros, suspirando — Mas mamãe bloqueou todos eles porque disse que vou virar hipocondríaco.
Não tenho respostas. Não sei se estou conversando com uma criança, ou com um estudante de medicina com dezenove anos. Além do fato de eu estar abismado com sua facilidade de reter informações e saber seus significados.
Cole era, definitivamente, muito inteligente para sua idade.
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Daddy's little love [Bughead]
Fiksi PenggemarApós oito anos morando em Chicago, Betty se encontra sem saída e decide voltar para sua antiga cidade, Riverdale, disposta a reabrir o velho jornal da família e conseguir estabilidade para ela e para o pequeno e neurótico Cole, seu filho de seis ano...
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