10. Doutor Jones [revisado]

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Betty

08:58 am

Termino de colocar o colchonete com uma coberta no chão e confiro os aquecedores. Cole passou mal a noite inteira, o que me fez ficar acordada tentando mediar sua febre até quatro e meia da manhã. Quando o dia clareou, não tive coragem de mandá lo para a escola, ao mesmo passo que não poderia deixar de vir no jornal com apenas alguns dias da véspera de lançamento da primeira edição.

Cole está sem febre, mas o remédio o deixou sonolento. São nove da manhã e sei que Verônica vai chegar a qualquer instante, então aproveito a deixa de que ele se agarrou a um urso de pelúcia e a um desenho no tablet, e faço um café. Preciso me manter acordada.

Desde o nascimento de Cole, eu me tornei mãe em tempo integral e, embora tivesse aceitado de bom grado a experiência e de modo geral a adorasse, parte dela nunca deixara de me aborrecer com as limitações que a função impunha. Eu gostaria de ver uma versão de mim que fosse além de uma maternidade, e sei que a presença de um pai seria essencial para isso. O que faz com que eu me sinta culpada, mais uma vez.

Quando decidi largar o emprego de garçonete e voltar para a faculdade de jornalismo, cheguei inclusive a cogitar fazer pós-graduação, pensando em lecionar em alguma das universidades da região, mas então veio meio estágio no escritório da Google, que me rendeu um bom salário e um contrato de três anos, e enquanto todos os meus colegas, jovens e cheios de tempo, investiram no currículo e na carreira, eu dividia meu tempo livre entre os artigos da plataforma e ser mãe. Claro que, no momento de renovarem os contratos e fazerem a avaliação dos currículos mais promissores, eu fiquei para trás, então a vida de alguma forma mudara os planos de novo. Decidi voltar para Riverdale, reabrir o Jornal da minha família e construir minha própria história. E agora, ao pensar nisso, penso que seja uma atitude para além de ser mãe. Não estava fazendo isso só por Cole, também estava fazendo isso por mim.

De alguma forma, sei que mereço isso.

Quando Jughead me mandou embora com um envelope de mil dólares para um aborto, além da raiva e da mágoa, senti orgulho.

Ele fez uma escolha, eu fiz a minha. Meus pais, obviamente, ao descobrirem minha gravidez, romperam com qualquer compromisso que tinham comigo e com meus estudos. Foram embora de Riverdale e abriram o processo de divórcio seis meses depois. E quanto a mim? Bem, foi aí que a história se complicou.

Voltei para meu dormitório na UniPenn com a ajuda de Veronica. Juntei meus pertences, sabendo que não poderia começar o próximo ano letivo, e pensei nas possibilidades. Como Hiram Lodge, o pai de Veronica, tinha uma filial da sua franquia de lanchonetes em Chicago, aquela acabou sendo nossa primeira opção. Eu queria ir para longe, Chicago era longe o suficiente. Eu precisava de um emprego e em Chicago eu teria um. Além do fato de Veronica incluir a mim e ao meu filho que nasceria em meses no plano de saúde da sua empresa.

Minha melhor amiga comprou nossas passagens aéreas e alugou uma kitnet por seis. Trabalhei como garçonete, para então gerente da pequena loja, até que minha barriga quase explodisse, e aos oito meses fui obrigada a pedir licença a maternidade. O meu último mês de gravidez foi um completo inferno. Meu senso de gravidade era o mesmo que de uma vaca, meus pés ficaram terrivelmente inchados e eu me sentia no fundo do poço. A chegada de Veronica, uma semana antes do parto, facilitou as coisas, e não demorou para Cole estar nos nossos braços.

Eu gostaria de saber descrever o que foi dar a luz ao meu filho. A dor era conflitante e me fazia querer desistir, mas a médica olhava em meus olhos a todo momento e repetia: você vai ter um bebê, essa dor é necessária para você ter seu filho nos braços. E ela estava certa. No momento que aquele recém nascido de três quilos e cinquenta e dois centímetros veio parar em meus braços, tive certeza de todas as minhas escolhas e como descobri nos anos seguintes, eu era boa em ser mãe.

Daddy's little love [Bughead]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora