2. O filho de Elizabeth Cooper [revisado]

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Horas mais tarde

Jughead

— Doutor Jones, um aluno sofreu acidente no parquinho. Estão trazendo ele pra cá.

Afirmo com a cabeça positivamente enquanto observo Janna, a enfermeira que trabalhava comigo, apontar próxima a próxima. Três vezes na semana faço um plantão de seis horas na enfermaria da Escola Primária de Riverdale, ou pelo menos, esse era o plano, já que estou de volta a cidade à pouco menos de trinta dias. Não foi difícil arrumar um emprego como médico aqui. A vaga no hospital já estava garantida e a opção da escola fora um plano B que acabara dando bastante certo. Para um homem solteiro e sem muita ambição de vida emocional, era coerente para mim me afundar em trabalho. E crianças.

Calço as luvas e ajeito minha postura próximo a maca, enquanto ouço um choro baixinho vir do corredor. Olho em direção a porta e vejo Janna se aproximar de mãos dadas com um menino magricela e com rosto arredondado, em formato de coração. Ele tem um olhar dócil e choroso, e as maçãs da face estão extremamente avermelhadas. Ele me lembra algo de alguém, mas não consigo identificar o que é.

— Oi, amigão! — o cumprimento, levantando-me da cadeira e segurando sua mãozinha. Tem um corte na sua testa que faz escorrer um fio de sangue na sua têmpora, e isso me deixa levemente alarmado. — Por que você não se senta aqui para eu dar uma olhadinha nesse corte? — sugiro para ele, que balança a cabeça que sim.

— Dr. Jones, vou deixar a ficha dele sobre a mesa. Já ligamos pra mãe, ela está a caminho.

— Obrigado, Janna. — pisco para ela, em agradecimento, e a vejo se afastar, fechando a porta atrás de si.  

Volto minha atenção para o menino a minha frente e decido me apresentar.

— Eu sou o Doutor Jughead Jones. Qual o seu nome?

— Cole. Cole Cooper. — ele responde às pressas, me fazendo recuar um passo e ajeitar a postura, mas antes que eu tenha tempo de reagir ao seu sobrenome, Cole dispara: — Não é traumatismo craniano, é? Não desmaiei, nem estou com dor de cabeça, sonolência ou dificuldade de falar.

Arregalo os olhos, piscando de modo atônito, antes de soltar um riso.

— Você sabe o que é um traumatismo craniano? Quantos anos você tem? — pergunto, não escondendo minha surpresa. 

— Tenho seis anos. Mamãe diz que sou muito inteligente pra minha idade, sabe? Na outra escola a professora queria que eu estudasse com a turma mais avançada. Ah, e eu vi o que era traumatismo craniano no Google, escondido da mamãe. Não conta pra ela, tá?

Abro a boca, evitando rir. Apesar de ser pediatra recém formado, não são muitas as crianças de seis anos de idade que encontro com tanta facilidade de cognição e boa oratória. Não era sempre que eu me deparava com pequenos gênios. Por fim, passo o antisséptico em um cotonete e limpo o sangue que está secando sobre o corte. Aparentemente, não é nada que precise de pontos, mas insisto em fazer um curativo que mantenha o machucado limpo e protegido. Uso a mini-lanterna para fazer um exame rápido do seu reflexo foto-motor e sorrio para Cole de modo tranquilo.

— Você está bem, amigão, mas acho melhor te mandar pra casa. Talvez seja uma boa desculpa para pedir um sorvete para sua mãe, o que acha?

— Ah não! — ele gemeu negando com a cabeça — Mamãe vai ficar preocupada. Hoje é meu primeiro dia na escola.

— Aluno novo? — pergunto pra ele e vejo Cole agitar a cabeça positivamente. 

— Sim, eu e minha mãe viemos de outra cidade, sabe...

Aceno para ele em afirmação e giro com a cadeira até a mesa, onde está depositada a ficha de Cole Cooper. O seu sobrenome me desperta lembranças, mas penso em quantos Coopers já conheci na vida, como se fosse uma desculpa, tentando não me ater demais a isso. Volto minha atenção para a ficha médica do garoto, concentrando-me nas palavras.

Seu nome se resume apenas à Cole Cooper; seu tipo sanguíneo é O- e ele é alérgico a nozes e alguns frutos do mar. Após ver seus dados médicos, percorro os olhos atrás do nome dos pais. Vejo que ele é natural de Chicago e isso faz com que meus poros  Quando olho em direção ao nome da mãe, meu coração dá um salto. Elizabeth Smith Cooper. 

Betty Cooper.

Com as mãos um tanto trêmulas, corro os olhos até o nome do pai, que para minha surpresa, consta em branco, como desconhecido, ou não registrado. Com quase trinta anos e muitos erros na bagagem, se tem uma coisa que aprendi, era que o fato de você não conseguir ver nenhuma outra explicação não significa que ela não exista. Significa apenas que você não consegue enxergá-la. Pensar nisso me deixa mais calmo, mas meus olhos não conseguiram sair mais de cima de Cole.

Então era isso? Elizabeth Cooper estava na cidade e tinha um... Filho? 

Isso me fazia criar teorias.

Voltei o olhar mais uma vez em direção a data de nascimento do garoto. Dia treze de setembro de dois mil e 2014. Quase dois anos depois de Betty ter partido para Chicago. Grávida de mim.

Respiro fundo mais uma vez. Acredito que tenha uma explicação. Tem que ter.

Volto meus olhos para Cole. Ele se distraiu com um pirulito de frutas sem açúcar que lhe dei, e que pelo visto, lhe agradou bastante.

— Gosto desse pirulito. — ele diz, de repente, chamando minha atenção — Não é doce como os outros.

— Você não gosta muito de doces? — pergunto, com estranheza.

— Não. Eu vi no google que pode estragar os dentes e que faz mal.

— Mesmo? E o que sua mamãe acha disso?

— Ela concorda, mas não sempre. Ela esconde o computador de mim pra eu não ficar fazendo pesquisas demais. Diz que preciso fazer coisas de crianças. 

— Você é mesmo muito inteligente pra sua idade. Já sabe ler e escrever direitinho?

— Melhor que os colegas da minha turma. Mamãe me ensinou a ler em casa primeiro. Temos muitos livros, pena que não conseguimos trazer todos pra cá...

Dou um sorriso de lado. Não estou nada surpreso com o fato do filho de Elizabeth Cooper ser um poço de inteligência e desenvoltura. E de repente, me sinto esmagado pelo peso das minhas decisões. Se ela teve esse filho um ano depois de ter ido embora, era sinal de que conheceu outra pessoa. Talvez alguém que a tenha abandonado, não sei. Talvez, quando eu lhe propus o aborto e lhe dei o dinheiro, no fundo ela quisesse um bebê e acabara realizando seu sonho com outra pessoa. Não haveria outra explicação.

Balanço a cabeça.

Levanto-me da cadeira e vou até Cole, disposto a descobrir mais sobre ele. Mas quando me aproximo, minha atenção se esvai em direção a loira selvagem, estonteante e furiosa que atravessa a porta, me encarando com um olhar assassino.

— Se afasta do meu filho! Agora!

Daddy's little love [Bughead]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora