Betty
Quando o sol tomou seu lugar e o dia amanheceu, Jughead demorou mais do que o normal para passar a visita de Cole. Verônica tinha coisas importantes para resolver no jornal e no escritório do Inferninho, enquanto Cole e eu (que havíamos começado o dia bem cedo) terminávamos uma partida de jogo da memória. Obviamente, eu perdi a maioria.
Por volta de dez da manhã, ouvi alguém bater na porta e e então ele apareceu, vestindo o jaleco azul de sempre. Meu coração bateu mais forte, agora recordando do beijo da noite anterior, e quando seus olhos encontraram os mesmos, tive certeza de que ele pensou o mesmo. Tantos anos passaram desde que tínhamos nos tocado pela última vez, e eu lutava diariamente para recuperar a parte original de mim mesma que deixei de lado por ele. Jughead não era a única coisa da qual eu tinha desistido, mas era a mais importante.
E agora ele está aqui. De novo. Depois de um beijo avassalador comigo pelada em seus braços. Por que só de olhar pra ele, meu coração já disparava?
Porque ele era perfeito; tanto que chegava a ser injusto. Só por isso.
Balancei a cabeça para espantá-lo dos meus pensamentos. Ao vê-lo, Cole se levantou correndo da cama e foi até ele, lhe dando um abraço.
— Wow, tem alguém mais disposto aqui — ele diz, com um sorriso, retribuindo o abraço de Cole — E isso é um excelente sinal. Parece que a transfusão deu certo. — ele diz, pegando Cole no colo e o levando de volta pra cama — Dormiu bem, amigão?
— Dormi, mas eu e minha mãe acordamos cedo e ficamos jogando jogo da memória e conversando sobre a vida.
Solto um risinho e Jughead faz o mesmo, atravessando a cama e vindo parar ao meu lado. Nossos corpos emitem um tipo de radiação e magnetismo que nos puxam pra perto e isso me deixa um pouco atordoada. Céus, eu precisava de café.
— Os resultados dos exames saíram — ele diz, num suspiro. — Quer falar sobre isso na frente dele? — Agora ele está sussurrando e eu nego com a cabeça. Vou até o controle da TV e coloco um desenho animado, enquanto puxo Jones pelo jaleco até os fundos do quarto. Nos sentamos lado a lado no sofá, enquanto ele abria o prontuário do Cole para mim.
— E então, o que é?
— Até ontem uma das minhas suspeitas era de Talassemia, então fizemos exames laboratoriais para anemia microcítica e hemolítica, e exames quantitativos da hemoglobina. Nas Talassemias Alfas, muitas vezes o percentual de hemoglobina está normal, o que não é o caso do Cole. Já na Talassemia Beta Maior, falamos de uma anemia muito é grave, em geral com taxa de hemoglobina entorno da que ele está. O exame de esfregaço sanguíneo mostrou vários tipos celulares alterados... Os eritrócitos pequenos e pálidos sinalizam a falta da hemoglobina.
— Ok, Jones. Você fez medicina, não eu. O que isso significa? É perigoso? — Jughead solta um suspiro, não de impaciência, mas de lamento, e isso faz minha boca secar.
— É uma doença rara, estou surpreso dele só ter dado sinais agora. E sendo sincero, a expectativa de vida é mais baixa para as pessoas com Talassemia Beta Maior, principalmente por causa das complicações das transfusões regulares. Cole precisou da primeira transfusão ontem, e é possível que em menos de três semanas já precise de uma segunda. O que me leva para a parte mais delicada do assunto...
Sei que meus olhos estão marejados e que estou atenta a tudo que Jughead diz, mas mesmo assim não consigo formular frases de resposta. Ele segura uma das minhas mãos, e num momento diferente eu provavelmente o afastaria, mas agora, sei que preciso dele.
— Não tem uma cura? Só tratamentos? — eu pergunto, antes que ele tenha a chance de falar.
— Eu entrei em contato com um hematologista amigo meu, de Boston. Pedi uma consulta ele e virá pra cá amanhã para ajudar no acompanhamento do Cole. O tratamento frequentemente é a transfusão de hemácias, então demos o primeiro passo, agora quanto às opções de cura, só temos o transplante de células tronco, mas antes de que isso seja uma opção, prefiro esperar a chegada do doutor Hailey. Ele é um especialista na área, então... Eu mesmo estou vendo esse caso pela primeira vez.
Pisco os olhos, atônita, mal acreditando que tudo isso está acontecendo. Em que momento eu perdi os detalhes? Em que momento não vi meu filho desenvolver uma doença rara? Vejo Jughead tentando decifrar a minha reação, mas não consigo dizer nada. Estou encarando a palma das minhas mãos e formular frases me parece muito difícil.
— Você precisa de um tempo para digerir isso tudo?
— Na verdade, é exatamente o que eu preciso. — murmuro em resposta, ainda sem conseguir olha-lo nos olhos.
— Vou terminar de passar as visitas. Volto aqui antes do almoço, certo?
— Uhum.
Ele se aproxima, sem jeito, segurando uma de minhas mãos e a apertando, em apoio. Tento sorrir como resposta, mas não consigo. Meus olhos se perderam na direção de Cole e seu aspecto frágil. Vou até ele e me deito na cama, ao seu lado, puxando seu pequeno corpo para os meus braços e beijando o topo da sua cabeça.
Depois eu me afundaria em pesquisas. Depois eu me permitiria desesperar. Depois eu criaria meu próprio martírio. Mas agora, nesse instante, estar aqui, deitada com meu filho no colo, é o mais importante.
(...)
— Hm... Eu conversei com Jughead. O encontrei no corredor. — Verônica diz, num suspiro — Lamento muito, querida.
— Que bom que ele me poupou de te explicar todas aquelas palavras difíceis — respondo, bebericando do café quentíssimo que ela acabara de trazer. Estamos sentadas no refeitório do hospital. Cole tinha sido levado para mais um exame que duraria pelo menos uma hora. — Como foi a reunião com a Cheryl?
— Tudo ótimo! Ela aceitou nossos termos e vai assumir a coluna. Também concordou e escrever um artigo de boas vindas e vai nos mandar até sexta, assim o cara chato da gráfica não vai criar problemas.
— Excelente.
— Mas não é isso que importa agora — ela diz, me lançando um olhar receoso, seus olhos amendoados mais intensos do que nunca — Pedi para que um amigo de uma empresa de heli-transporte buscasse o médico que vai atender o Cole. Ele estará aqui amanhã de manhã. Me desculpe se me intrometi demais...
— De forma alguma. Não tenho como te agradecer por tudo isso. Se eu tivesse que pagar todas essas despesas, estaria falida.
— Ainda bem que temos uma a outra então, não é? — ela sorri — A única coisa que importa agora é que o Cole fique saudável o mais rápido. E... Pelo que Jughead me falou, existe a forte possibilidade dele precisar de um transplante. Já pensou como vai fazer a respeito disso?
— Bom, se formos compatíveis, obviamente que vou doar a medula para ele.
— Mas e se não forem? — sua pergunta é incisiva, cirúrgica.
— Se não formos compatíveis, quer dizer que existe grande possibilidade de que Jughead seja compatível, então... Isso também quer dizer que vou ter que contar a verdade, de uma forma, ou de outra. Estou com tanta vergonha...
— Vergonha? — Verônica estreita os olhos, segurando uma das minhas mãos — Querida, você criou esse menino sozinha, sem a ajuda de ninguém. Você fez uma escolha valiosa e não precisa sentir vergonha disso. Todo mundo tem alguma coisa que gostaria de mudar no passado, Betty. Eu também. Até parece que minha vida foi perfeita!
Paro para pensar a respeito. Realmente, a vida de Verônica não tinha sido uma vida fácil. Claro que o fato dela ser herdeira de milhões descomplicavam as coisas, mas o fardo de ser uma Lodge talvez não compensasse todo aquele dinheiro sujo e a violência da vida de seus pais.
— E então é isso? Chegou o momento? — ela chama minha atenção, soltando um suspiro pesado e me lançando um olhar cheio de expectativas.
— É, parece que Jughead vai descobrir que é papai em algum momento de um futuro breve.
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Daddy's little love [Bughead]
Fan-FictionApós oito anos morando em Chicago, Betty se encontra sem saída e decide voltar para sua antiga cidade, Riverdale, disposta a reabrir o velho jornal da família e conseguir estabilidade para ela e para o pequeno e neurótico Cole, seu filho de seis ano...
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