Apesar de tudo isso, com a mesma intensidade que esse beijo veio, ele se foi. Gerard se separou de mim com um certo nervosismo, como se quisesse cortar todo o sentimento de uma vez, me encarando ao nos separar. Ali eu pude ver o seu desespero. E só então a minha ficha caiu, Gerard estava arrependido do beijo. A minha ansiedade que já era alta por toda a situação e aumentou ao ponto que eu sabia que poderia vomitar de nervosismo ali mesmo. Por mais que eu estivesse um pouco confuso com tudo que estava acontecendo, eu tive uma epifania. Afinal de contas, aquele era Gerard Way, eu conhecia esse homem há praticamente 20 anos, eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Ele estava me usando novamente. Mais uma vez, Gerard usava de carinho e sexo para tentar resolver as coisas após grandes brigas e eu, como se fosse o seu animal de estimação, sempre caí nessa armadilha. Mas não mais. Eu não tinha mais 20 e poucos anos. Eu tenho quase 40. Eu tenho uma esposa e filhos me esperando em casa. Eu não posso me deixar esse homem me iludir novamente, ainda mais depois de tudo que eu passei nos últimos anos, nas noites em claro pensando nele e ele nem se quer me permitiu algum contato. Eu estava mais exausto do que nunca dos joguinhos dele. Eu cansei de aceitar todas as suas merdas.
O único problema é que ele estava ali, a gente tinha acabado de se beijar, ele estava me olhando confuso e aparentemente a minha expressão mudou, porque a confusão no olhar dele logo se tornou medo. E ele começou a gaguejar e se aproximar novamente.
— Frank! F-f-frank, me desculpa! Eu não devia ter feito isso! Me desculpa! Eu não sei onde eu estava com a cabeça! Me desculpa, Frank!
— Ah, mas é claro que você não sabia onde estava com a cabeça, não é, Gerard? Você nunca sabe. Eu que lute pra lidar com os seus problemas!
— Frank, calma! Deixa eu te explicar, eu tô tão confuso! E estou com tanta saudade! Você não precisa me desculpar, só me escuta, por favor!
— Não, Gerard. Já chega. Eu passei anos querendo te ouvir e você nunca se deu ao trabalho nem de me permitir tentar falar com você! Foi você quem escolheu isso! Você quem quis desse jeito! Agora tudo vai voltar pro jeito que estava! Não olha na minha cara no ensaio amanhã!
Enquanto eu falava, pude ver os seus olhos se enchendo de lágrimas, o que fez com que os meus ficassem cheios de lágrimas também, mas eu ignorei completamente esse fato e entrei quase correndo dentro do hotel, sem olhar pra trás. Eu até consegui ouvir ele me chamando mais algumas vezes, mas segui ignorando e fui pro meu quarto.
O meu quarto de hotel era um quarto de hotel padrão, razoavelmente grande e confortável. Ele só tinha um defeito, não tinha mais ninguém comigo lá. Quando você vive em uma casa grande com sua esposa, 3 filhos e um cachorro, você se acostuma com pessoas o tempo todo. Você nunca está sozinho. E eu gosto disso, gosto de estar com eles, era exatamente por isso que eu odiava aquele quarto de hotel. Era tudo tão silencioso, tão arrumado. Eu queria poder ligar pra Jamia, mas já estava muito tarde, ela e as crianças com certeza já estavam dormindo. Eu deitei na cama, abracei um travesseiro e me permiti chorar. Era um choro de raiva. Raiva com a audácia do Gerard em me beijar e achar que tudo seria como antes, raiva por ter permitido que aquilo acontecesse, raiva por ter deixado a minha família para vê-lo, raiva de mim, raiva dele... Tudo que eu sentia era raiva. Depois de muito tempo deitado chorando, as lágrimas secaram. Eu achei que iria acabar dormindo lá, mas eu não tinha um pingo de sono. Levantei, lavei o meu rosto e desci pra fumar um cigarro. Eu queria fumar ali mesmo, mas não iria correr o risco de ativar o alarme de incêndio, tudo que eu não queria agora era chamar atenção.
O hotel tinha uma área externa muito bonita com piscina, árvores e cadeiras confortáveis. Me sentei em uma delas e acendi um cigarro. Tentei pensar em outras coisas, como o último jogo do Liverpool, mas eu simplesmente não conseguia pensar em nada mais. Eu fechava os olhos e tudo que eu lembrava era daquele maldito beijo. Como é possível que ele ainda tenha esse poder sobre mim? Como é possível que ele consiga me deixar desse jeito? Eu passei duas horas perto dele e já parecia que a minha vida nunca mais seria a mesma depois daquele jantar. Acendi mais um cigarro e comecei a rir. Era uma risada quase que descontralada porque eu lembrei de Lindsey. Ela surtava com qualquer interação entre nós, qualquer toque, qualquer olhar, tudo era motivo para surtos. Perdi as contas de quantas vocês ela quebrou celulares do Gerard em surtos de fúria por minha causa. É óbvio que o Gee nunca me contava, quem me contava era o Mikey. Se Gerard perdeu um iphone 5 porque eu perguntei porque ele estava atrasado pro ensaio, imagina o que um beijo daqueles custaria... Balancei a minha cabeça como se fosse possível esquecer tudo aquilo de uma vez e dei mais um trago no cigarro. Até que ouvi uma voz.
— Eu sabia que te encontraria aqui! - era o Ray.
— É o único lugar pra fumar... - dei de ombros.
— Como você tá? - Ray já sabia. Eu não acredito que o Gerard contou pra ele!
— Bem, ué. Por que a pergunta? - tentei disfarçar.
— O Gee foi no meu quarto falar comigo....
— EU NÃO ACREDITO QUE ELE TE ENVOLVEU NISSO!!! - Eu me levantei da cadeira, cheio de fúria.
— Eu sou amigo dele também, lembra? E ele não me envolveu, ele só quis desabafar. Eu que me preocupei com você! - Ele disse dando um passo pra trás.
— Eu estou ótimo. Ou você acha que um simples beijo do Gerard Way vai me abalar? Eu já fiz coisa muito pior com ele e continuo vivo. Ele só foi um vampiro na era Revenge, agora os beijos são inofensivos. - Me virei e continuei fumando.
— Frank, eu te conheço! Para de fazer piada, fala sério! - Ray deu um passo na minha direção.
— Ray, é sério, não precisa se preocupar comigo! - falei sem olhar pra ele, concentrado no meu cigarro.
— Mas vocês precisam conversar! Eu já estive em uma banda onde vocês não conversavam e apesar de vocês sempre se resolverem depois, eu passava por momentos horríveis achando que a banda acabaria por causa de vocês. Eu não quis voltar pra isso. - Eu podia sentir a tristeza da lembrança em sua voz.
— Mas a banda não acabou por nossa causa... - Me virei olhar pra ele.
— Eu sei, Frank, mas eu não quero que acabe de novo e eu sei exatamente onde as brigas de vocês podem levar. Eu sou capaz de trancar vocês num quarto pra obrigar vocês a conversarem! - Nesse momento eu sentia a tristeza se tornando raiva.
— Pode não adiantar porque o Gerard sempre foi do tipo "pouco papo e mais ação" quando estávamos num quarto.... - Fiz uma careta com a ideia.
— Frank, se você fizer mais alguma piada sobre transar com o Gerard, eu juro que eu meto a mão na sua cara! - A raiva continuava em sua voz, obviamente.
— Desculpa! Eu prometo que vou me comportar no ensaio amanhã! - Tentei amenizar.
— Promete pra mim que vocês vão conversar depois? - Ele parecia mais calmo.
— Isso não depende só de mim... - Olhei pra baixo e dei mais um trago no cigarro.
— Ele tá mal, Frank, ele foi dormir com o Mikey pra não ficar sozinho porque estava triste.
— Que bom que o Mikey tá aqui. - Disse mais pra mim mesmo do que pra ele.
— É, mas nem eu e nem o Mikey iríamos estar passando por isso se vocês conversassem, pelo amor de Deus! Eu estou exausto de ser o pai de vocês, sabia? - A raiva voltou.
— Desculpa, Ray, a gente nunca quis envolver vocês nisso. - Eu disse olhando nos olhos dele.
— É, mas a banda é uma família, não tinha como evitar.
— Eu sei, eu sei. Me desculpa? - Continuei olhando ele nos olhos, o meu pedido era sincero.
— Só se você me der um abraço, baixinho. - Ele disse abrindo um sorriso.
— EU JURO QUE VOU BATER EM VOCÊ E NO MIKEY!!!! - Eu fui em sua direção fingindo que iria lhe dar um soco.
Ele me abraçou enquanto eu ainda estava reclamando e nós dois rimos. Eu não sabia que precisava de um abraço do meu amigo até ele acontecer. Falar com o Ray me fez muito bem, ele realmente tem superpoderes. Voltamos pros nossos quartos e os meus olhos estavam ardendo. O sono não era natural, era aquele sono de puro cansaço por ter enfrentado uma viagem de manhã e uma briga com o meu ex a noite. Sou grato ao cansaço por ter me feito dormir.
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Broken Clock [FRERARD]
FanfictionDepois de muito doer, Frank superou o fim de sua banda mundialmente famosa (e de seu relacionamento conturbado com o vocalista). Vive uma vida tranquila com a sua família, em paz, mas tudo pode mudar quando Ray Toro decide criar um grupo de Whatsapp...
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