ROMANCES MENSAIS
LIVRO XI – MEMÓRIAS DE NOVEMBRO
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CAPÍTULO XXV - LAR
Não tenho ideia de quanto tempo permaneço deitado em minha cama no completo escuro, mas quando a dor de cabeça finalmente passa, uma onda de emoções me atinge. Todas as minhas memórias haviam retornado a minha mente, mas não nem todas eram agradáveis. Ao contrário do que eu imaginava, a vida como espião estava longe de ser glamourosa. E mesmo estando cercado de pessoas, sendo o CEO de umas maiores empresas de publicidade do país, a solidão era a minha maior companheira.
Tudo mudou quando eu perdi a memória e iniciei minha família de forma nada tradicional. O vazio que eu nem mesmo sabia que tinha em meu peito foi preenchido por amor. Kayla, Alex e Liz trouxeram um novo significado para a minha vida e Peggy se tornou o meu porto seguro.
Levanto-me com dificuldade da cama e, ainda cambaleando um pouco pela fraqueza da recente e dolorosa recuperação das minhas memórias, vou até o closet que divido com Peggy. Vasculho meus casacos e encontro a bússola que tem me acompanhado desde a morte de meus pais. Ligo os abajures do quarto e volto a me sentar na cama, encarando o objeto em minhas mãos com carinho.
Não era de se estranhar que eu tivesse tanto apego a ele. Foi o último presente que ganhei do meu pai, que anteriormente pertenceu ao meu avô, ao meu bisavô, trisavô e antes disso ao meu tataravô. Era uma espécie de amuleto para a minha família. Segundo meu pai, a bússola sempre me guiaria pelo caminho que eu deveria seguir para conquistar a minha felicidade. Sorrio ao ver a foto de Peggy. Ela sempre foi a pessoa que me fazia permanecer com os pés no chão, como a minha âncora, que jamais permitia que eu me esquecesse de quem eu realmente era.
Nunca foi fácil conciliar a vida dupla. Esconder de Peggy quem eu era foi a pior parte. Eu odiava mentir para ela. Odiava ver o olhar de decepção que ela me direcionava todas as vezes que eu aparecia atrasado na empresa com a mesma roupa do dia anterior, porque não tive tempo de passar em casa e me trocar. Doía ver a tristeza em seus olhos todas as vezes que eu precisava desmarcar alguma atividade que combinávamos de fazer junto, porque algum cretino da HYDRA apareceu de repente.
É claro que eu amava e amo ser parte da S.H.I.E.L.D. Foi para isso que eu dediquei tantos anos da minha vida. Para fazer a diferença na vida das pessoas, impedir que mais inocentes se tornem vítimas das armações da organização criminosa, lutar para que nenhuma criança perca seus pais, assim como eu perdi os meus para esses desgraçados.
Ainda assim, ser parte da CIA significava fazer coisas que não me agradavam. Matar pessoas estava no topo da lista. Não importa quanto tempo se passe, eu ainda sinto aquele gosto amargo na boca ao lembrar de todo o sangue que sujou minhas mãos. Obviamente, esse tipo de situação era somente em casos extremos. Sendo um agente mais de observação do que de campo, não era algo recorrente, afinal, eu também era uma figura pública e a agência precisava usar minha influência para conseguir informações de possíveis locais onde a HYDRA poderia atacar.
Mas eu estou há vinte anos trabalhando como um agente da CIA, mesmo que eu só tenha começado a ir para o campo aos dezoito anos. Durante três anos, todo o treinamento que recebi me fez perder toda a minha ingenuidade e passei a ver a maldade do mundo. E quando encaro os olhos de Kayla, eu consigo ver a minha versão em sua mesma idade, descobrindo que as pessoas podem ser cruéis e que nem sempre dá para salvar todos.
Suspiro e volto a encarar a foto de Peggy. O que ela diria se descobrisse as coisas que já fiz? O que ela faria se descobrisse que o Steve que ela conhece na verdade é alguém completamente diferente, que há muitos anos não hesita mais em atirar contra uma pessoa? Durante anos, eu sempre me questionei sobre a reação de Peggy ao conhecer meu eu por completo. Temia ser deixado por ela também e agora que estamos juntos, esse medo se tornou ainda maior.
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Memórias de Novembro
Fiksi PenggemarAs únicas certezas de que Peggy Carter tinha em sua vida era que poderia confiar sempre em seus instintos e que era a única pessoa que sabia todos os segredos de Steve Rogers, afinal eram amigos desde o jardim de infância e esteve ao lado dele em to...