- Chegamos. - Diz Harry desligando o carro.
Abro a porta do carro e olho ao redor. Estamos em um parque, não sei exatamente em que lugar de Londres.
- Por que me trouxe aqui? - Pergunto curiosa enquanto caminhamos para dentro do parque.
- Gosto de vir aqui quando preciso pensar. É um dos poucos lugares que me faz sentir como eu mesmo. Nada de flashs, nada de câmeras, só eu e a natureza.
Cruzo os braços tentando conter o frio, mas Harry percebe quando começo a tremer.
- Eu te disse que você ia acabar sentindo frio. - Ele começa a tirar a jaqueta.
- Não precisa, eu vou ficar bem.
- Bem mal né? Toma. - Ele coloca a jaqueta sobre os meus ombros e eu me enrosco nela.
- Obrigada. - Murmuro.
Olho para as grandes árvores ao nosso redor.
- Então esse é o seu esconderijo secreto? Sua válvula de escape do mundo real?
- Pode se dizer que sim. - Ele sorri. - E você, Katherine Miller? Também tem um esconderijo secreto?
Rio.
- Com certeza. Só que o meu esconderijo não é tão secreto assim.
Ele ergue uma sobrancelha para mim.
- É que o meu esconderijo secreto é uma casa na árvore. No quintal da minha casa.
- Bem discreto esse esconderijo. - Ele ri.
- Pois é, mas já que eu não tenho irmãos, eu tenho uma espécie de privacidade lá em cima.
- Sorte a sua. A vida de irmão não é fácil. É divertido, mas não fácil.
- Eu perdi a conta de quantas vezes desejei ter um irmão ou uma irmã. Ser filha única tem vantagens incríveis: ninguém para brigar pelo controle remoto, os mimos dos pais são só para você, você é a preferida dos tios. Mas ser filha única também tem desvantagens terríveis. Uma delas é a terrível solidão que você sente quando está brincando no seu quintal vazio.
"Quando você é criança, você não percebe isso, mas quando cresce, a constatação é inevitável. E a pior de todas, que me fez chorar muito quando vi meus primos gêmeos nascerem: Eu nunca vou ser tia de verdade. Quando eu casar, se o meu marido tiver irmãos, vou ser tia dos sobrinhos deles, mas nunca de sangue, apenas a mulher do tio, a tia de mentira, nunca a de verdade."
Harry faz silêncio por um tempo, como se pesasse minhas palavras.
- Em termos específicos, o que você está falando é a mais pura verdade. Mas olhe para a sua família, para os seus tios. Você discrimina quem é seu parente de verdade ou quem só se casou com um deles?
- Bem, não, mas...
- Então. Sendo seus sobrinhos de verdade ou não, eles não vão te discriminar por isso. Eles vão te chamar de tia mesmo que você não tenha o mesmo tipo sanguíneo ou a mesma mancha de nascença que seus pais. Eles vão te amar somente por ser quem você é.
- É fácil para você falar, vai ser tio de qualquer jeito.
- Não se minha irmã não puder ter filhos. Ou se ela não quiser tê-los. Posso escolher se quero ou não ser pai, mas não posso escolher se vou ser tio. Isso simplesmente acontece. Mesmo se eu não tivesse irmã, eu amaria os sobrinhos da minha esposa assim como amaria os meus, talvez até mais pelo simples motivo de não os ter.
- Você disse que pode escolher se quer ou não ter filhos. Você quer?
- Mas é claro! Qual seria a beleza da vida se eu não perpetuasse a minha espécie?
- Quantos quer ter?
- Um menino e uma menina. Quero ter a experiência completa. De preferência ao mesmo tempo, com gêmeos.
- Tadinha da sua esposa. Vai ter que parir duas crianças de uma vez só.
- Ela vai aguentar.
- Como sabe?
- Porque eu vou estar o tempo todo ao lado dela.
Fico em silêncio contemplando suas palavras.
- E você? - Pergunta ele. - Quantos filhos pretende ter?
Olho dentro dos olhos dele. Mesmo na escuridão do parque, ainda consigo ver seus olhos verdes brilhando.
- Dois. Um menino e uma menina. Gêmeos.
Sorrimos juntos e eu desvio o olhar.
- O que acha de pararmos ali para descansar? - Diz Harry apontando uma árvore logo a frente.
- Por mim tudo bem. Esses saltos estão me matando.
Paramos bem embaixo da árvore, eu com as costas contra o tronco e Harry a minha frente. Cruzo os braços.
- Ainda com frio? - Pergunta ele.
- Sim. - Digo sorrindo.
Ele se inclina para frente, o braço direito apoiado na árvore, nossos narizes quase se tocando.
- Então deixa eu te esquentar.
Ele cobre todo o espaço que há entre nós e me beija. Um beijo terno e suave. Sua mão esquerda apertando minha cintura, minhas mãos acariciando seu rosto. Teríamos continuado ali a noite toda, se Harry não tivesse me acordado do meu delírio.
- Katherine? - Chama ele. - Você está bem?
- Estou. - Digo passando as mãos em meus cabelos. - Por quê?
- Você estava viajando aí, com os olhos cravados em mim e o pensamento em outro lugar.
- Me desculpe. Eu estava pensando em umas coisas.
- Que tipo de coisas, posso saber?
- Não. - Digo desafiadora. - Vamos, está ficando tarde, é melhor a gente ir para casa.
- Se você prefere assim... - Ele diz tirando o braço do tronco da árvore e me estendendo a mão.
Caminhamos juntos até o carro, meu braço enroscado no dele.
***
Chegamos à minha casa um tempo depois. Harry abre a porta do carro para mim.
- Está entregue, senhorita Miller.
- Muito obrigada, Mr. Styles.
Viro-me para abrir a porta, mas ele me puxa pela mão.
- Boa noite, Katherine. - Diz ele beijando minha bochecha. O cantinho dos seus lábios quentes toca o cantinho dos meus, frios.
Ele sorri.
- Boa noite, Harry.
Ele vai embora, me deixando ali com uma amostra dos seus lábios. Entro em casa e percebo algo um pouco tarde demais.
Ainda estou usando sua jaqueta de couro.
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Spaces Between Us
RomanceObrigada por sua mãe, Katherine Miller se vê a caminho de Londres para a casa de sua tia para passar as últimas férias antes da faculdade com ela. O que ela não imaginava, é que encontraria pelo caminho um dos garotos de sua banda favorita. No que i...
