1. Prólogo

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Apesar do terrível pesadelo que a serva teve na noite mal dormida, a jovem garota acordou se sentindo grata pelos deuses por mais aquele dia de vida.

Ela era antes uma simples camponesa, então não entendia o poder profético dos sonhos. Sua ignorância a levou a viver sua manhã como sempre costumava fazer: colhendo laranjas. A manhã estava limpa e gélida como haveria de estar no outono e nos cumes montanhosos da cordilheira que cercava o Templo Laranja e toda a cidade real se viam os primeiros sinais do nascer do sol. Quando Myrella olhou para o céu, viu os desenhos e cores que os feixes de luz faziam no azul profundo de uma noite terrível que já era passado. As terríveis cenas do pesadelo ainda a atormentavam na cabeça, pois havia visto a própria deusa que prometera sua dedicação morta em seu colo, mas pediu em silêncio aos pés de sua cama logo após acordar que ela abolisse aquelas morbidades de seus pensamentos.

Como se ouvisse suas preces, e ela assim acreditava, agora nada mais importava diante da beleza do que seus olhos podiam ver. No fim do jardim, onde havia um desfiladeiro que dava ao mar, crescia um enorme pé de laranja que brilhava dourado quando se banhava da luz do sol das manhãs, e ao fundo o oceano era misterioso, convidativo e infinito como o céu com quem se fundia em uma coisa só no horizonte. Aquela era a cena mais linda que Myrella já havia visto em toda a sua vida, e agora a via todos os dias desde que havia se tornado uma das servas laranjas.

Conforme foi na direção da laranjeira o cheiro dela inundou suas narinas. Já havia se tornado um odor rotineiro no decorrer dos seus dias dentro do templo e agora era o cheiro de sua casa. Agraciada com aquelas sensações, ajeitou a cesta de palha que carregava em seu antebraço para alcançar com a mão livre uma das folhas. Aproximou-a do nariz, e inalando profundamente, fechou os olhos em deleite. O odor a fazia pensar em muitas coisas, mas principalmente em segurança. Como uma serva da deusa laranja, ela seria protegida para sempre. Seus serviços eram insignificantes perto do que aquilo significava para a menina.

O café-da-manhã da profetisa não seria colhido sozinho. Myrella soltou a folha no chão de grama para começar sua primeira tarefa do dia. Pegou a laranja mais próxima dela, fazendo alguma força para separá-la da árvore. Era uma fruta suculenta, maior do que a maioria das outras que já havia visto antes e de cor tão forte quanto o próprio sol nascente. Na mesa da profetisa nunca faltava comida, então colheu tantas quanto pôde colocar na cesta. 

Enquanto percorria o jardim no caminho de volta para o templo, ela finalmente conseguiu ver o sol que começava a se revelar de seu esconderijo no momento, o castelo real de Montanhalta. Acima da maior das montanhas da cordilheira, seguindo pela costa montanhosa, ele se erguia imponente como uma lança apontada para o céu. Era uma obra grandiosa demais para a compreensão de uma camponesa. Antes de se mudar para o templo ela nunca havia visto o castelo tão de perto. Naquela época ele estava distante demais de sua casa, no Passo, mas mesmo hoje tão perto ele continuava intocável. Nunca seria uma princesa porque era somente Myrella, a filha de um camponês e uma serva laranja.

Era uma vida melhor que muitas. Nunca deixaria de agradecer à deusa por aquela benção. Antes de partir ela reverenciou a laranjeira uma última vez.

Deixou o jardim do templo, adentrando-o por uma imensa porta de madeira trabalhada. Os corredores eram quase sempre escuros, sem janelas e com poucos pontos de luz, sempre apenas as velas de cera presas nas paredes. A escuridão aguçava os outros sentidos da profetiza para suas visões, Myrella aprendeu pelas outras servas, como também outras coisas que jamais imaginou.

Todos os sete corredores davam para o grande salão, onde a profetiza rezava todo nascimento do sol. A menina seguiu seu caminho até o fim da escuridão, transpassando a passagem sem porta, e as luzes da manhã voltaram a aquecer seu rosto juvenil. Ali o templo era aberto, permitindo que o dia entrasse e iluminasse a enorme estátua da Mensageira. Agora Myrella poderia reconhecê-la com extrema facilidade pelos seus aspectos. Quase saindo para fora do templo pelo teto, com seus cinco metros de altura, a mulher esculpida na pedra vestia uma longa túnica, o capuz dela nublando seu rosto sem expressões e nas duas mãos unidas ela carregava uma vela de chama feita de pura espessartita, uma pedra cristalina alaranjada.

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