Era como se estivesse se afogando para sempre.
O Rio de Fogo seguia arduamente seu caminho sentido ao extremo sul e o corpo da menina era minúsculo perto da força das águas. Como uma tronco de árvore apodrecido, a princesa nada podia fazer senão entregar-se ao escaldante calor que sentia e ao rumo que tomava a correnteza.
Haveria de estar assim por horas, ou dias, quem sabe estações inteiras. Agyne não sabia, essa era a verdade, e não tinha ideia de quanto tempo estava à deriva. Sequer sabia com certeza se aquilo tudo não passava de um pesadelo terrível ou se era a terrível verdade. Não via nada além do nada, do seu próprio fim, e tampouco sentia alguma coisa além da pele queimada e da falta de ar. Se fosse verdade o que sentia, que boiava sobre o rio, não teria como sobreviver. Todos sabiam dos perigos da água escaldante que irrigava o Reino da Terra Baixa, mesmo uma garota como ela, que passara presa no seu quarto quase todos os seus anos de vida. Uma vida simples, curta e sem grandes emoções.
Quando sua mente se lembrava que mesmo afogada ainda conseguia pensar, as imagens se formavam como turbilhões diante dos seus olhos nublados involuntariamente. Seu inconsciente fazia aquilo. Queria lembrar-se de tudo e agarrar-se às memórias que restavam e viu cenas vívidas de seus mais importantes momentos: os irmãos dourados, Adel e Celes, dois que amava e se inspirava - Celes menos, verdade, mas mesmo na dama perfeita havia o que se admirar -; o pai também, um homem enorme e corajoso, forte para protegê-la; e viu o seu irmão preferido, Lauro, e sua mãe, Roselin, um do lado do outro, ambos de cabelos escuros como ela. Neles pensou com dor de saudade.
Infelizmente não só as boas lembranças vieram à tona. Sua tristeza pela saudade trouxe-lhe outros sentimentos parecidos que nutria em seu coração. Sua solidão apareceu, sua inveja e suas mesquinharias mais íntimas. E medo. Medo da mãe, medo do pai, medo de ser castigada e presa para sempre, e em algum momento desse tormento todo o medo da princesa tomou forma física e se materializou diante dela. Era um homem alto todo vestido da noite, com uma armadura escura como um véu do crepúsculo, com estrelas a destoar brilhantes, e seu rosto e olhos eram o mais sombrio momento da madrugada. Ele a encarava sem expressão, mas com algum propósito. Sua imagem mortífera a causou muito mais medo.
Mesmo que tentasse pensar em outra coisa, e como tentou várias vezes, nada foi capaz de tirar aquele homem de sua cabeça. A princesa não sabia seu nome ou quem era, não se lembrou, mas sentia que era uma sombra perigosa. Sabia que a coisa era a culpada por ter caído nas águas, que fora por ela sentenciada à morte, e que era impossível escapar das suas garras. A menina fez o que pôde para resistir à escuridão daquela figura aterrorizante, lutou ferozmente contra ela dentro de si mesma, mas eventualmente a criança se cansou de nadar e da pressão que sentia pela correnteza. Quando cedeu depois do quanto aguentou, seu corpo foi puxado por um par de mãos asquerosas e fortes, e o Rio de Fogo a engoliu inteira.
A menina se debateu na água, a se afogar de novo e de novo. Tentou escapar das mãos que a aprisionavam, chutou e socou o breu como forma de defesa, mas quanto mais lutava, mais cansada ficava, e mais fortes se tornavam os braços que a empurravam para o fundo. Parecia uma grande tortura, e como se não bastasse, surgiram do rio vozes. Eram as vozes daqueles que a agrediram.
"Conte-me o que ouviu!", bradou uma voz furiosa do fundo das águas. Era dura e agressiva, como a própria morte se aproximando, e não havia o colo da sua mãe ou qualquer outro que fosse para se refugiar.
"Não ouvi nada!", a princesa quis gritar em resposta, mas não tinha voz alta o suficiente.
"Crianças mentem", outra voz a acusou, sem piedade alguma.
"Juro pelos deuses!", ela clamou misericórdia, mas mais uma vez foi em vão. Debaixo do rio ninguém a ouvia.
Também porque carregavam a verdade. Estavam certas as vozes. A princesa mentira, sabia que era culpada, mas qual era a mentira afinal? Não se lembrava do que tinha ouvido. Quis lembrar, mas a cabeça doeu forte de súbito, e todos aqueles pensamentos foram lavados pela água e pela terceira voz que ressoou em sua cabeça.
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O Rei dos Reis
FantasiaEm uma terra onde as bruxas foram caçadas até o seu fim e a governança dos homens foi concretizada, os mistérios estão apenas começando. No centro desses segredos estão as famílias Heiral e Ronso, a águia e o urso, dois dos mais antigos clãs do povo...
