O menino acordou batendo a cabeça no chão de madeira. Se sentia cansado como se não tivesse dormido nada e suas articulações doíam porque estava deitado com os braços e pernas encolhidos não sabia por quanto tempo. Por mais que abrisse bem os olhos e o estado de sonolência já tivesse sido superado, não conseguia enxergar muito além já que estava em uma espécie de gaiola de madeira feita para galinhas, a considerar o desagradavel cheiro e as fezes espalhadas, que era coberta por um tecido tão longo e grosso que o impedia de ver onde estavam. O balançar que sentia o fez lembrar-se da carruagem onde estava seguro com Marya, mas sabia que corria perigo. Em desespero, o menino tremia no escuro. Sodan era levado para algum lugar, logo se deu conta, e nervoso para escapar tentou se levantar e lutar contra a gaiola. O espaço era pequeno demais para isso. Ele tropeçou em algo e caiu em cima de outra coisa, e foi só depois de acostumado a ver na escuridão que identificou Bolo Fofo e Vassoura, ambos na mesma prisão, mas caídos no chão em meio a sujeira em um sono profundo que nem mesmo reagiram depois das turbulências.
Com o tempo e a calma de quem se lembrou como era raciocinar, o príncipe conseguiu enxergar mais coisas no breu do que seus dois amigos dormindo. Através do tecido que cobria a gaiola, o menino viu pontos de luz que depois percebeu serem fogueiras acesas e pessoas em forma de vultos que andavam de um lado para o outro. Pensou em gritar por socorro, mas ouviu também suas conversas, e eram quase todas suspeitas e estranhas. Jurou ter ouvido um homem dizer como havia estuprado uma mulher que se recusou a pagar-lhe a taxa e um outro que contava em uma roda de humorados companheiros sobre um estúpido garoto que o desafiou na fronteira com o Reino da Terra Média e seu trágico desfecho. Não conseguia captar todos os detalhes de nenhuma delas porque a carroça, ou seja lá o que o transportasse, andava rápida por vários pequenos acampamentos e suas fogueiras. Eram muitas vozes, risadas, gritos e brigas, todas se sobrepondo umas às outras conforme o menino balançava dentro da gaiola.
Viu mais coisas além. Outros vultos, com formas distintas e sem vozes, coisas que não foi capaz de reconhecer. Estava mais preocupada em respirar e continuar vivo naquele espaço que parecia cada vez menor e já quase chorava de terror quando sentiu os balanços acabarem. Alguns homens conversavam por perto, mas ficaram mudos quando a carroça finalmente parou de andar, estacionando na frente deles. O príncipe ouviu barulho vindo de cima da carroça, o homem que a guiava pela estrada descendo de seu posto, e depois suas botas pesadas contra terra firme enquanto andava ao lado da gaiola. De perto, contra a luz forte de uma fogueira muito próxima, Sodan não tinha dúvidas de que o homem era Jack Esticado. Estava com as mesmas roupas simples e o mesmo cabelo curto, mas parecia inquieto, seus movimentos e sua tremedeira perceptíveis até mesmo encobertos pelo véu que sufocava o menino. Parecia ter quase tanto medo quanto o próprio príncipe.
"Quem é e o que quer aqui?", uma voz rude perguntou.
"Sou Jack. Trago a taxa. Quero falar com Hogthar", ele respondeu.
Houve algum reconhecimento da outra parte, porque o homem pareceu se levantar quando antes estava acomodado junto ao calor do fogo. "Irei chamar o capitão. Espere aqui. Se fizer qualquer gracinha eu vou fatiá-lo como porco e mandarei servirem os pedaços no ensopado da manhã."
A ameaça foi clara o suficiente para que Jack respeitasse a ordem de não se mover. O outro homem partiu para a tenda do capitão, mas não demorou muito para que ele voltasse acompanhado. Hogthar tinha a voz rouca e grossa, profunda como um trovão, e esbravejou de alegria quando chegou perto o suficiente da carroça para ver quem o visitava.
"Meu querido Jack! Estava quase sem tempo, seu bastardo! Isso seria terrível, mas estou surpreso de vê-lo trabalhando tão duro para me trazer a taxa a essa hora da madrugada", o homem o saudou com alegria e companheirismo, indo até Jack para envolvê-lo em um abraço. Não houve tempo para o príncipe ver nenhum detalhe do capitão pelo tecido, porque logo ele se soltou do abraço para continuar a falar. "E feliz também. Uma invasão ao Cruzamento não seria qualquer coisa."
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O Rei dos Reis
FantasíaEm uma terra onde as bruxas foram caçadas até o seu fim e a governança dos homens foi concretizada, os mistérios estão apenas começando. No centro desses segredos estão as famílias Heiral e Ronso, a águia e o urso, dois dos mais antigos clãs do povo...
