14. Roselin

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Naquela noite foi impossível pregar os olhos.

Apesar do corpo cansado e da cabeça exausta, durante toda a madrugada que se estendeu e pela manhã que nasceu como um novo dia qualquer, por nenhum momento sequer a rainha deixou de clamar aos deuses pela vida de Agyne desde que encontraram-na afogada na beira do Rio de Fogo. Ainda assim, os pesadelos vieram atormentar a mulher enquanto acordada na forma de pensamentos nebulosos, relembrando-a de todas as suas culpas, medos e falhas, mas principalmente da imagem do corpo da sua filha protegida queimado pelas águas quentes que fertilizavam a cidade real.

Mesmo depois de todas as horas que passara sozinha para viver sua dor, Roselin ainda tinha lágrimas para dar sempre que contemplava a princesa desacordada. A menina repousava na cama no quarto dado por lorde Reer e os Wattchers, no Vigilia, com peles que cobriam-lhe o corpo para aquecer do frio, logo ao lado da cadeira onde a mulher se sentava para velar seu sono. Grande parte dos ferimentos causados pelo acidente se escondiam da vista pela coberta, mas no rosto infantil desconfigurado pelos rastros das consequências a situação crítica era nítida e insuportável para a mãe.

Da cabeça da princesa grandes mechas de cabelo haviam caído e o couro estava fervido por debaixo do que tinha restado dos fios. Na parte de trás um grande corte tinha sido aberto, provavelmente enquanto era arrastada pela correnteza, e mesmo depois de costurado pelo maege a ferida ainda era grotesca e rubra de sangue coagulado. Os danos continuavam, porque no rosto as pequenas manchas que tinha de nascença na pele se misturavam até quase sumirem na grande vermelhidão e bolhas de queimaduras que brotavam da cabeça e desciam até as pernas, com machucados a se alastrar por todo o corpo pequeno.

Era sorte que ainda estivesse viva, disseram-lhe, e Roselin se agarrou àquilo. Com fé nos deuses verdadeiros, a mulher se dedicou para a Matriarca, a mãe dos deuses, pedindo em seus mais íntimos desejos que fizesse o que fosse preciso para salvar a vida de sua filha. Me leve em seu lugar. Mate-me para que ela viva. É uma mãe, como eu, e sabe que eu faria isso e muito mais, chegou a propor em seus piores devaneios, porque estava desesperada por alguma esperança. Os deuses verdadeiros, porém, eram deuses silenciosos com seus feitos. Mesmo depois de tantas preces, nenhum som lhe fez companhia por horas senão o de suas próprias lágrimas caindo.

Cogitava por vezes que talvez a deusa anil a ignorasse porque ela era uma mulher amaldiçoada pela própria irmã. Toda aquela desgraça, aquele sofrimento e angústia havia começado depois das palavras malditas de Sabine, a rainha tinha convicção. A lady lhe dissera da morte do Rei Bernabas; garantiu-lhe que ela seria rainha depois disso; e mais as tantas outras coisas horríveis que disse depois que ainda tiravam-lhe a paz durante o sono todas as noites, como a ruína profetizada causada por Agyne.

Em algum momento a mãe chegou a pensar que talvez aquele acidente tenha sido, no fim, uma libertação do destino da família Ronso profetizado. Se a princesa tocada pela neve partisse do mundo dos homens poderia existir uma fé de que o futuro seria diferente. Aquilo a devorou por dentro, deixando-a horrorizada, e só a fez se sentir ainda mais previsível em seu desespero, como se sua história estivesse prontamente escrita e não pudesse fazer nada para mudar. E escrita por outra pessoa.

Uma que ela costumava amar, mas de quem recebeu apenas promessas maldosas. Palavras que a perseguiam.

Poderia também apenas estar definhando em loucura, como o seu marido às vezes fazia parecer quando ignorava aquela verdade, como se tudo aquilo que ela acreditava fosse apenas um monstro consumindo sua sanidade como provavelmente havia feito com a de Sabine Sowhart. Quando a rainha começava a pensar nisso, comovida de que estava perdida, suas lembranças provavam o contrário, vívidas e escondidas em seu consciente a recordar de tudo aquilo como uma ferida de lâmina que arde aberta impossível de se ignorar, porque se lembrava das coisas que só ela tinha ouvido em seus detalhes mais sórdidos.

O Rei dos ReisHistórias para pegar e não largar. Descubra agora