No salão em que bebiam e comiam os homens da Terra Baixa, tudo era partilhado com os irmãos vindos da Terra Média. Pairavam no ar os cheiros das festanças, do sal do mar das comidas servidas que variavam de lagostas à peixes ao doce da cevada que enchia os canecos dos presentes com a espessa cerveja feita no sul.
Os ânimos estavam altos, como a cabeça dos que se entregavam à luxúria do momento, e não havia um homem sequer que não estivesse embriagado na noite que se estendia. Mesmo Lauro, que costumava sempre ser tão correto e contra a estupidez de se embebedar, estava naquela noite se permitindo divertir-se do que via enquanto bebericava da sua própria bebida.
Diante dele estava Brock Helmfield, o escudeiro de seu irmão Adel, que bebia sua cerveja em um único gole após virar o caneco em sua boca escancarada como um cordeiro faminto por leite. Ele era acompanhado pelo príncipe que vinha do norte, Maverick Guado, motivado por aquilo que haviam decretado como uma competição para ver qual dos dois conseguia beber mais. Ao redor deles, nas cadeiras que se sucediam, os companheiros torciam por aqueles que representavam seus reinos em gritos de estímulo.
Adel torcia por seu amigo, assim como fazia Serge Warson, o outro escudeiro, além dos demais rapazes jovens do sul que ocupavam a mesa dos príncipes. Do lado oposto, onde estavam sentados os jovens do Reino da Terra Média, se gritava o nome do seu príncipe. Como qualquer disputa para homens, aquela começava a inflamar, como se fosse questão de vida ou morte vencer e levar a honra daquela vitória.
"Alguém nos traga mais duas canecas! Essa batalha dura", gritou o príncipe Adel para que fossem servidos.
Foi como pediu, e tão logo os dois que competiam haviam terminado de beber das suas sétimas canecas, partiram para a oitava que os esperavam cheias na mesa.
"Vamos Brock, isso é moleza para você! Mostre para esses garotinhos como um sulista bebe de verdade", instigou Serge, entusiasmado pela disputa como se fosse ele a enfrentá-la.
Àquela altura não só ele estava animado além do esperado, mas todo o salão do Vigília se concentrava no que acontecia entre os mais novos com grande entusiasmo. Do lorde Reer ao próprio pai do garoto, o Rei Eddiemund, e os convidados que se sentavam ao seu lado na mesa que pertencia aos Wattchers, além de Agyne, que participava do seu primeiro grande banquete, eles vibravam. A rainha Patritia e o Rei Thorynt aplaudiam veementemente também, como se fosse aquele o início do torneio que tanto ansiavam desde a chegada.
Estavam todos contagiados pelo clima. Ou quase todos. A mãe de Lauro não, o rapaz notou. Ao lado de seu marido, Roselin sorria, como sempre, mas sorria para ninguém. Seus olhos estavam distantes e perdidos além do que podia ser visto.
Terminada a rodada de cerveja, a derrota de Brock foi decretada quando, em um soluço alto de bebedeira, a cerveja voltou pela sua garganta, encharcando suas roupas e cadeira de vômito com tudo o que ele havia bebido e comido na noite. Serge, que estava ao seu lado na mesa, também recebeu parte do regurgito, ficando visivelmente incomodado e furioso com a derrota do amigo, e por isso ele empurrou-o para longe com repulsa.
O escudeiro estava completamente devastado pelo seu limite e, praticamente desmaiado, caiu no chão como se dormisse instantaneamente. A cena, apesar de vergonhosa para os Helmfield se ali estivessem, foi motivo de riso para muitos, inclusive Lauro, além de comemoração por parte daqueles vindos da Terra Média.
"Meu filho nunca me decepcionou. O homem é um vencedor!", decretou Rei Thorynt com orgulho ao se erguer de sua cadeira, empurrando seu prato cheio com a barriga. "Um brinde em sua honra! Aqueles que ainda conseguem beber", disse mais, erguendo seu caneco junto a um riso embriagado.
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O Rei dos Reis
FantasyEm uma terra onde as bruxas foram caçadas até o seu fim e a governança dos homens foi concretizada, os mistérios estão apenas começando. No centro desses segredos estão as famílias Heiral e Ronso, a águia e o urso, dois dos mais antigos clãs do povo...
