16. Lauro

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Apesar do calor inesperado para o sul naquele dia, o delicioso toque quente do sol não era o suficiente para iluminar o rosto obscurecido do príncipe pelo dever a qual havia sido imposto. Quando acordou naquela manhã, preocupava-se com a saúde da irmã preferida; com as consequências do seu sumiço na abertura do torneio; ou em como se comportaria diante dos convidados do norte e suas excentricidades; não em casar-se e ser ele próprio o senhor das recém proclamadas Terras da Fronteira.

Toda a ideia por si só parecia uma loucura. O jovem príncipe era de seu modo estudioso, e sabia das leis e regras do Tratado, mas não havia quebra de regras que lhe fosse mais atormentador do que sua incapacidade. Não era o medo da guerra ou da represália que lhe consumia por dentro, mas o sentimento de que estava atado de repente em um futuro que se distanciava do que havia imaginado antes.

Haveria de se casar um dia, um pensamento que rondava sua mente desde que Adel e Celes tinham sido prometidos para sulistas antes do acordo selado entre os reinos. Era esperado, como o príncipe que não herdaria o trono, que um dia se tornaria senhor de algum castelo das grandes famílias do sul ao desposar para selar acordos, mas nunca se imaginou que aquele fardo o tiraria da Terra Baixa. Não escolheria aquilo, pois amava o reino como qualquer filho do inverno, mas se havia alguém que podia decidir que caminho o príncipe viria a trilhar, mesmo contra a sua vontade, aquele homem era o Rei.

Seu próprio pai.

Muito se passava em sua cabeça distraída que o caminho que percorreram pelo Vigília após a reunião com o pequeno conselho pouco lhe era lembrado. Absorto naqueles novos pensamentos, o príncipe se viu até mesmo refletindo sobre a conversa que havia tido com sor Thoronyn no dia em que a comitiva da Terra Média chegou ao sul com suas carruagens coloridas. Na ocasião, além de suposições vergonhosas, o cavaleiro falou sobre sua vida e o controle que seu Rei tinha sobre ela, como se não passasse de mais um no tabuleiro da realeza. Um reles peão à servir o Rei, como no fim todos eram, fosse o herdeiro ou o mais pobre dos empregados.

Naquela manhã foi a primeira vez que Lauro pensou que talvez fosse mesmo parecido com o guarda-real, como ele tinha dito. Somos dois aleijados, incapazes de andar com as próprias pernas, erguendo espadas e cumprindo deveres em nome do Rei. Mesmo quando não queremos Nisso temos algo em comum, refletiu o príncipe. Perceber a semelhança não foi um reconforto para ele, mas um alerta. O cavaleiro era entregue ao seu destino, uma coisa que o príncipe não queria para ele. Ainda assim, inegavelmente, foi em Thoronyn que Lauro pensou em conversar sobre a sua inusitada conquista

Talvez se entendessem melhor, afinal, porque com Adel o diálogo não era dos mais sinceros. Por mais que seu irmão mais velho tentasse. Ele era o herdeiro, o primeiro filho homem Ronso a nascer, e teria para ele um dia o controle que nenhum outro homem do sul jamais alcançaria.

"De que serve essa cara amarga?", Adel perguntou ao jovem assim que saíram finalmente do castelo, quando encontraram o dia, os lordes e todos aqueles que se aglomeravam em volta do Vigília para acompanhar o torneio. Na frente seguia o pai, o Rei Eddiemund, escoltado pelo capitão da sua guarda-real, e atrás os demais membros do conselho, todos eles com distância o suficiente para que os irmãos conversassem.

"De que te serve saber?", replicou Lauro, pouco paciente.

"Não vai querer que te vejam como te vejo agora. Parece que caiu dentro de uma latrina cheia. E de boca aberta", debochou o irmão, a esbanjar sorrisos quando os primeiros lordes começaram a aparecer para recepcionar o Rei e os príncipes até a arquibancada real mais uma vez.

Sabendo que o outro dizia a verdade, porque sentia-se afundado em seus decrépitos pensamentos e que eles refletiam suas expressões, o príncipe pintou em seus finos lábios uma simpatia tão falsa quanto convicta para receber dos homens seus cumprimentos. Lauro era bom em esconder seus pensamentos com um encantador sorriso.

O Rei dos ReisHistórias para pegar e não largar. Descubra agora