8. Sodan

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O jantar estava servido no grande salão, um enorme e retangular cômodo, extenso demais para as poucas pessoas que o ocupavam. Já havia sido repleto de mesas e convidados, falatórios e gritarias, mas isso antes da doença do Rei. Desde então os jantares se tornaram mais intimistas e a única mesa no salão era a mesa real, toda de madeira escura trabalhada, com dezesseis cadeiras dispostas oito de cada lado, além da cadeira real em uma das pontas. Mesmo com as acomodações tão reduzidas, nem todas as cadeiras estavam ocupadas, e somente o príncipe, sua mãe e Marya jantavam naquela noite. As anteriores pouco tiveram de diferente daquela, em algumas a velha ama Wanda sentava com eles, como se fosse da família, para ajudar a cuidar da sua irmã Siele, mas mesmo assim não eram jantares como quando seu avô estava entre eles, com seus irmãos de guerra, contando sobre as batalhas que tinham vencido juntos com orgulho e glória.

A história que Sodan mais gostava era a da quinta invasão de selvagens ao Portão das Aves. Não saberia contar quantas vezes a tinha ouvido, detalhe por detalhe da boca do próprio Rei, mas Solidor nunca se cansava de dizer a todos que quisessem ouvir sobre a primeira batalha da sua vida, a que também o transformou no Cavaleiro Negro. Mais que um príncipe e também mais que o futuro Rei, naquele dia ele tinha se tornado um verdadeiro herói e uma lenda viva. Homens crescidos e velhos se emocionavam com as lembranças, em honra aos que tinham perdido suas vidas e em memória aos dias de glória e vitórias em nome do Rei. Ver o salão tão escuro e sem vida era um contraste triste demais, mesmo para uma criança. Toda aquela felicidade tinha sumido e os jantares eram quietos e sem histórias. Até o bardo, Bango Tonto, que tocava e cantava sem parar a música do Cavaleiro Negro com sua voz horrível agora fazia falta ao príncipe. Não via-o há semanas a fio, nem sabia se vivo estava, e a melancolia e o som metálico dos talheres de prata eram sem graça e irritantes para o garoto em comparação aos instrumentos musicais.

Ele mal tinha fome. De braços cruzados debaixo da mesa, Sodan sequer tocou em comida alguma. Os servos lhe deram pratos e mais pratos com tudo que os cozinheiros tinham feito no dia: três tipos de carne, de pato assado na brasa com cebola e mel; javali assado com batatas e azeite; e cabra recheada de milho. Mesmo na penumbra da iluminação de velas, as carnes brilhavam e escorriam de suculência no prato e nas enormes bandejas de comida espalhadas pela mesa. A comida estava deliciosa, com toda certeza, e algumas pessoas dariam tudo por uma refeição como aquela. O príncipe, entretanto, se recusava a comer. Estava bravo com elas, a mãe e Marya, pelo castigo de ter passado o dia todo preso no quarto da mãe com a irmã. Mesmo com alguns livros da biblioteca consigo para ler e passar o tempo, o sol demorou pra cair e as horas se arrastaram cruelmente lentas para uma criança como ele. Foi como uma tortura. Nada podia fazer além de ouvir a seca voz da velha-ama, com suas lendas tediosas sobre tempos passados e o agudo choro de fome da sua irmã.

Já Marya não tinha problemas em comer. Ela desfrutava de um delicioso pão de sal, o qual encharcou com o gorduroso suco que escorria do seu pedaço de carne de cabra. Além de verduras e outros tantos legumes cozidos e assados, a mesa tinha pães dos mais variados grãos e cozimentos. De sal ao leite, de trigo e aveia, com mel e açúcares até pães com iguarias e temperos do outro continente. Enquanto comia, a lady disfarçava bem, mas o príncipe sabia que ela o observava pelo canto do olho o tempo todo. Sua mãe também comia, mas essa o olhava descaradamente. Ela deu uma garfada no pato assado quando Sodan a olhou nos olhos. Isandra parecia brava e triste ao mesmo tempo, culpada e preocupada, mas o garoto não conseguiu sustentar aquele peso. Precisava se lembrar que estava bravo com ela, mas se pegou questionando o que ela pensava com aqueles olhos úmidos e enigmáticos. Tinha medo da bronca, receio da razão de sua mãe, mas era decidido a permanecer de cara fechada.

Foi o tintilar dos talheres de prata batidos contra a louça que fez o menino erguer os olhos de volta. Isandra limpava delicadamente seus lábios com um guardanapo bordado em ouro e depois o colocou em cima da mesa, encerrando sua refeição. Os servos se entenderam depressa e saíram os dois da escuridão que era a porta que levava para a cozinha para recolher os pratos em silêncio. Nada se podia ouvir senão os passos deles, que ecoavam pelas paredes de pedra, enquanto o menino se encolhia na cadeira, sabendo a conversa que estava por vir.

O Rei dos ReisHistórias para pegar e não largar. Descubra agora