Capítulo 23

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Helena

Coloco os sachês de açúcar no copo de café e fico misturando distraída. Que dia longo. Não vejo a hora do meu plantão acabar. Estou exausta, e sei bem a razão: a insônia terrível que tomou conta de mim noite passada. Nem mesmo o aconchego da Aisha foi capaz de desligar minha mente.

Deixo escapar um suspiro, enquanto levo o copo com o café já meio frio aos lábios.

Ouço um pigarro divertido, ergo a cabeça e encontro os olhos sagazes do Benito.

E aí, Heleninha? Dormindo em pé?

Faço uma careta e murmuro:

Que dia longo. Dou mais um gole. — Não vejo a hora de ir embora.

Ele coça a nuca, e parece se divertir quando diz:

— Acho que nunca vi você tão distraída quanto hoje. — Cruza os braços em frente ao peito e seus olhos estão risonhos. — Posso saber o motivo.

— Não dormi bem — explico sucinta.

Ele baixa a cabeça e parece tentar esconder um sorriso.

— Desembucha, Ben.

Olhando-me, inclina a cabeça para o lado e repete:

— Alguma razão especial para a insônia?

Ergo uma sobrancelha e fico em silêncio. Ele balança a cabeça em negativa, sorrindo, se aproxima e coloca a mão no meu ombro.

— Está sentindo falta dele, não está?

— Dele quem? — Me faço de doida. Ele abre mais ainda o sorriso.

— Ah, Heleninha, você disfarça tão mal.

Levo, mais uma vez, o copo aos lábios e tomo o último gole. Sei que o Alex e o Ben se tornaram realmente amigos. Antes de me avisar repentinamente que precisava voltar para o Rio, ele saiu com o Ben para tomar uma bebida. Então, tenho certeza de que o sacana do meu amigo soube antes de mim que ele estava indo embora, e não posso negar que isso me deixou bem chateada.

— E você bem que poderia me avisar das intenções dele, não? — Jogo o copo na lixeira, encarando-o. — Sei que se tornaram amigos, mas achei que eu era sua irmã. — Aponto o dedo para seu peito e retruco: — Você deve ser leal a mim, seu traidor!

Ele me olha e parece um pouco constrangido.

— Que intenção, Heleninha?

Reviro os olhos.

— Que ele iria embora, ué — explico e tenho a impressão de que ele solta o ar aliviado. — Não acha que deveria ter preparado meu espírito, já que foi o senhor — cutuco novamente o peito dele com o dedo — que o trouxe para as nossas vidas?

Ele passa as mãos nos cabelos. Parece um tanto constrangido. Inspira fundo e comenta:

— Mas até onde sei, ele vai voltar, não é?

Deixo o suspiro escapar, e não consigo esconder o medo que sinto dele ter desistido da Aisha. Ela nunca esteve tão tranquila quanto nas últimas semanas; e se for para ser bem sincera, eu também. Sem contar toda a tensão sexual que paira entre nós dois, deixando sempre o clima de expectativas me deixando ansiosa pelo momento de voltar para casa. Para eles.

A lembrança do beijo que ele me deu, antes de ir embora, invade meus pensamentos. E sinto-me ruborizar quando me lembro da forma faminta que retribuí.

Estava decepcionada e furiosa. Ele avisou que partiria no dia seguinte. Assim, de forma intempestiva. Exatamente como chegou. A velha sensação e abandono me dominou, e quando disse a ele, que ele não me devia satisfação não o deixando concluir, ele me puxou para os seus braços e me calou com um beijo faminto. Eu nem mesmo tentei resistir. Quando sua língua pediu passagem, eu deixei entrar. A sensação de beijá-lo depois de tanto tempo foi completamente inebriante. Foi um beijo faminto. Desesperado.

Ofegantes, eu o empurrei. Seus olhos azuis brilhavam com intensidade. Dando as costas, deixei-o na sala e fui para o meu quarto. Não nos falamos mais até a hora de vê-lo se despedindo de Aisha. O amor brilhando nos olhos expressivos era inquestionável. Deveria ter falado com ele, mas fiquei como uma idiota, vendo-o sair do meu apartamento, com um simples aceno de cabeça.

Os dedos do Ben estalando em frente ao meu rosto me trazem de volta à realidade.

— Planeta Terra chamando Heleninha — brinca.

Ergo os braços, e refaço o coque sem olhar em seus olhos Ele suspira e, quando fala, sua voz soa compreensiva:

— Ele vai voltar, Helena. E, quando isso acontecer, espero que você abra os olhos para o que está ao seu alcance. — Ergo o rosto para encará-lo. — Aquele cara está apaixonado por vocês. Não duvide nem por um segundo disso.

Dizendo isso, ele abre a porta, e sai me deixando com o coração — mesmo contra a minha vontade — cheio de esperança e de ansiedade.


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