Capítulo 2

3.1K 202 41
                                        

— Hariel.

— Eu tenho uma amiga que adoraria te conhecer, Hariel — solto — Na verdade eu conheci ela hoje, mas sei que ela iria amar.

— E o seu nome? — ele para e me olha sem entender — Como veio parar aqui? 

— Me chamo Madelyn Miller. Eu tenho uma amiga de infância que mantive contato — explico — Somos melhores amigas.

— E você está morando com ela?

— Temporariamente.

— E por que voltou para São Paulo? — ele se senta na calçada de um banca de jornal que está fechada — Não faz sentido.

— Meus pais biológicos... — me junto a ele.

Que fita... sinto muito.

Forço um sorriso e olho para a grande avenida.

— Por que estava gritando no estacionamento com aquele homem?

— É complicado — ele me olha com os olhos cansados — Assessoria.

— O que tem?

— Vim dar uma força para um amigo no acústico, mas estou três dias virado, show atrás de shows. Tá foda já, estão socando shows sem parar, mesmo eu estando com uns problemas.

Que fita... — a sua gargalhada é de imediato quando percebe que o imitei — Sinto muito.

— Tá tranquilo — ele respira fundo — Só mais uma noite.

— Se quiser eu falo com eles o quanto isso afeta a sua saúde física e mental.

— É médica? — ele brinca.

— Comecei a minha graduação vai fazer dois anos — respondo.

Mais uma vez, indiferença. Dessa vez, com um toque de susto.

— Por que você me olha assim? — pergunto.

— Assim como? — ele franze o cenho.

— Indiferença. Como se eu não merecesse a sua atenção ou algo assim.

— Sei lá, você tem uma postura superior... — ele leva os braços para frente do peito e arruma a postura, tentando me imitar.

— Você é famoso. — retruco.

— Só que eu nasci na favela, moro desde pivete. Isso aqui eu conquistei, saca— ele me olha gesticulando com a mão — É um bagulho meu.

Balanço a cabeça, concordando.

— Acho que o seu Uber já chegou — ele me avisa se levantando.

Me levanto junto e vejo no celular se é o meu.

— É ele mesmo — confirmo.

— Então é isso — ele se vira para mim.

— Obrigada — sorrio.

Tamo junto — ele abre a porta de trás do carro.

Confirmo com o motorista os dados e entro no carro. Hariel fecha a porta e me lança um sorriso, se abaixando em seguida.

— Amanhã á noite eu tenho um evento para ir — ele me entrega um cartão-convite com sorriso nos lábios — Se quiser me acompanhar, vou estar te esperando.

— Não sei se consigo... — leio o convite.

— Tenta. Vou te esperar — ele fala com um grande sorriso na boca.

Antes que eu possa confirmar, ele se distancia do carro e anda desengonçado de volta.
         

EVENTO DE INAUGURAÇÃO KANWY - HARIEL.                                  
Sábado, 20h - Black Look.                                     

No caminho para o apartamento de Helena, percebi que eu não consegui parar de sorrir. Era inevitável. 

O Ap. não é grande, mas é aconchegante. Fecho a porta e me sento, tiro o salto e em seguida o sobretudo. 

Pego o meu celular e antes mesmo de pensar se devo, pesquiso o nome do rapaz no Instagram. Me assusto assim que vejo várias contas de seus fãs e o seu perfil com o sinal de verificado... 

O que mais me chama atenção é como ele divulga apenas os shows e músicas, poucas fotos e poucos Stories

Desligo o celular e jogo a cabeça para trás. 

Me levanto e caminho até a cozinha, pego uma taça e coloco um pouco de um vinho que já estava pela metade. Levo a taça até os meus lábios e me pego mais uma vez lembrando da cena de quarenta minutos atrás.

Hariel é um rapaz normal. Havia muitos rapazes onde eu morava, mas nem todos me chamaram a atenção. Talvez porque eu os normalizei?

Será que todos os rapazes em São Paulo chamarão a minha atenção?
Que tipo de famoso ele deve ser...

Ligo o pequeno som que tem na bancada para afastar alguns pensamentos e dou mais um gole do meu vinho.

A música começa com um som gostoso e o cantor parece calmo, mas eu não entendo nada do que ele diz. Em segundos a sua voz explode tão alto que eu me assusto na mesma hora. 

"Alemão, bota a cara pra morrer! Meu charuto é um verde na blunt, chapadão, memória de elefante, firme e forte jogando nas onze, quem é ouro nunca vai ser..."

Corro para abaixar antes que os vizinhos reclamem pelo horário. Gargalho assim que percebo a letra e o meu desespero para desligar.

Deixo a taça na bancada e vou até o meu novo quarto.

Abro uma pequena caixa e pego algumas fotos com a minha família e amigos, olho para o quarto pequeno e as espalho na escrivaninha e no pequeno móvel perto da minha cama.

Pego a minha mala, a qual estou cansada demais para guardar as roupas, escolho uma roupa leve e vou até o banheiro para tomar um banho e dormir, finalmente.

HIPNOSEOnde histórias criam vida. Descubra agora