Capítulo 19

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— É aqui? — os olhos de Hariel se fixam no lugar. 

— Bom, é o endereço que está aqui. — Respondo. 

— Ok — ele continua dirigindo. — Vou procurar um estacionamento e saímos para procurar a casa. 

Eu não respondo, só concordo com a cabeça. Os meus olhos estão presos nas várias casas juntas em um só lugar, nas crianças correndo e brincando, carros em cima das calçadas e vários comércios pequenos. 

Olho para Hariel que não tira os olhos de mim, provavelmente tentando descobrir o que está passando na minha cabeça. 

Helena me explicou em muitas palavras como as coisas funcionam. Como as pessoas vivem e sobrevivem com o mínimo... Aqui, durante todos esses meses, eu entendi como é a real desigualdade, com os olhos diferentes da Flórida. E isso não é só aqui, em todo lugar existe, mas preferimos fechar os olhos e ver só o que queremos ou o que a mídia realmente mostra. 

É claro que isso é sempre falado, mas ver de perto é uma realidade muito diferente. 

— Eu nasci numa favela igual a essa — Hariel fala quando abre a porta para mim. — Eu chutava bola igual eles. 

O seu sorriso me alegra mais. Saber que estou perto da minha família me alegra

— Vamos? — sorrio. 

— Vamos. — Ele coloca o braço ao redor do meu ombro, me puxando. 

Quanto mais andamos, mais as pessoas nos olham reconhecendo Hariel, o abraçam e tiram fotos. Eu sei que é perigoso para ele, mas ele não parece ligar. 

Andamos por vários lugares, subimos uma longa rua e entramos em outra mais estreita. 

— É aqui. — Ele para em frente a uma casa bege. 

Eu o olho, encolhendo os ombros. O meu coração bate mais forte quando observo a casa, a minha barriga fica gelada e eu tremo de ansiedade. 

Hariel pega na minha mão e com a outra bate no portão que tem. Uma, duas, três vezes e nada. 

— A Renata não está não, moço. — Um senhor responde se aproximando de nós. — Ela está trabalhando. 

— Renata? — Hariel me olha, mas volta a olhar o senhor. — Sabe que horas ela chega? 

— Ah... Ela chega tarde. Ela faz faculdade de manhã e trabalha a tarde, chega bem de noite. Quer deixar recado? 

Hariel me olha, em dúvida. 

— Se quiser podemos esperar ou vir mais tarde... — Ele me propõe. 

A felicidade morre dentro de mim só em pensar em deixar para depois. 

— O senhor sabe a onde ela trabalha? — pergunto. 

— Olha moça, eu não tenho certeza, mas se quiser eu posso perguntar para a minha esposa. 

— Eu seria imensamente grata. — Sorrio gentil. 

Ele entra para dentro de sua casa, que fica ao lado, e depois de alguns minutos sai para fora com um papel na mão. 

— Olha — ele mostra. — É um hospital grande, fica no centro. Aqui está o endereço e o número dela também, se a mocinha quiser se informar antes. 

— Obrigada! — agradeço o abraçando, mas paro assim que percebo o quão estranho foi. — Muito obrigada, mesmo. 

Ele sorri e se despede. 

Hariel não solta a minha mão por nada durante todo o caminho. 

— Será que é uma irmã, tia... ou sei lá, prima? — pergunto. 

— Ou uma pessoa qualquer que se mudou para lá — ele responde sincero com os olhos na estrada. — Não se iluda, Made.

Eu concordo com a cabeça. Eu sei disso, mas quero me agarrar a esperança. 

Ele entra no hospital que tem a placa escrito "Hospital de São Paulo" e estaciona no meio de vários outros carros. 

Hariel desliga o carro e fica em silencio por um tempo.

— Vamos? 

— Made. — Ele segura a minha mão.

— Sim? — tento encontrar os seus olhos que estão olhando para frente, no estacionamento. — Ei. O que foi? Eu estou bem. Posso me decepcionar, mas vou ficar bem. 

Cara... — Ele tira o boné e passa a mão na cabeça. Me olhando em seguida, ele diz:  — Eu te amo. 

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