Capítulo Quatro - Stalker

176 21 2
                                        

  Assim que chegamos ao terraço, ela para de andar de repente. O vento sopra mais forte ali em cima, frio demais para o começo da tarde. Na Bi se vira para mim com os braços cruzados, como se já tivesse ensaiado aquela cena inúmeras vezes.

  — O que você quer? — pergunto, tentando manter a voz firme, mesmo com o estômago se revirando.

  Ela dá uma risada curta, sem humor, e se aproxima um passo.

  — Quero que você suma — diz, com desprezo. — Já que é tão rica, pode ir para qualquer lugar. Então vá. E fique por lá.

  Engulo em seco. O silêncio pesa entre nós. Sei exatamente o motivo daquela raiva — Ji Soo — e isso torna tudo ainda mais sufocante.

  — Apenas suma dessa escola, Yoo Nah! — ela explode de repente, avançando e segurando meus ombros com força. Sinto suas unhas atravessarem o tecido do uniforme e cravarem na minha pele. — Ninguém precisa de você aqui! Ji Soo oppa não precisa de você!

  A dor arde, mas é o que ela diz que machuca de verdade. Respiro fundo, reúno o pouco de coragem que me resta e me solto com um puxão brusco.

  — Mas eu preciso dele! — grito, a voz falhando no final.

  O tapa vem rápido demais para que eu reaja. O estalo ecoa no terraço vazio e minha cabeça vira para o lado. A ardência se espalha pelo rosto, quente, humilhante.

  Agacho instintivamente, tentando recuperar o equilíbrio, mas ela não me dá tempo. Sou empurrada com violência e caio no chão áspero, sentindo o impacto nos joelhos e nas mãos. Antes que eu consiga me afastar, Na Bi puxa meu cabelo, me obrigando a encará-la.

  — Se você não sumir por conta própria — rosna, tão perto que sinto sua respiração — eu vou fazer da sua vida um inferno.

  Um riso amargo ameaça escapar. Não sei como isso seria diferente do que ela já faz todos os dias.

  O sinal toca, estridente, quebrando o momento. Na Bi me solta bruscamente, fazendo eu cair de volta contra o chão. Sem olhar para trás, ela vai embora, como se nada tivesse acontecido.

  Fico ali por alguns segundos, imóvel. Depois me viro de costas, encarando o céu aberto acima de mim. Ele está absurdamente bonito, azul demais para um dia tão comum.

  Respiro fundo, tentando ignorar a dor no rosto, nos ombros, no couro cabeludo. Mesmo assim, as lágrimas transbordam. Não luto contra elas. Deixo que caiam, silenciosas, enquanto o vento seca meu rosto. Há algo estranhamente reconfortante nisso — chorar diante de uma vista tão bela.

  Quando meu pai sumiu, eu não conseguia reparar em nada ao meu redor. O mesmo aconteceu depois do acidente de carro: sobreviver ocupava todo o espaço, não sobrava energia para sentir o resto.

  Talvez seja por isso que agora eu sorrio diante de situações assim. Não porque não doam, mas porque, comparadas àquilo que já perdi, parecem pequenas. Bobas. Quase insignificantes.

  * * *

  Entro na sala de cabeça baixa e já sinto os murmúrios ao meu redor. Finjo não perceber, como se o estado do meu rosto não chamasse atenção, e vou direto para o meu lugar. Espero, a qualquer momento, uma repreensão por ter perdido metade da aula, mas ela não vem. Só quando levanto os olhos percebo que estamos na aula de inglês e que o novo professor me encara, a expressão difícil de decifrar.

  Tento me concentrar no caderno, abaixando o olhar, mas é impossível manter a postura por muito tempo.

  — Kang Yoo Nah?

PARADOXOOnde histórias criam vida. Descubra agora