Capítulo 3

19 2 0
                                    




Elizabetth

Olhando de longe, era como se ainda pudesse sentir o impacto das ondas sobre as rochas do penhasco , era como se ainda pudesse sentir o impacto da água fria sob sua pele, congelando cada parte sua sem com que se importasse com aquilo. Mas aquilo cessou quando ela se afastou da janela, se serviu de um copo de vinho, caminhou calmamente até se encostar no pilar que sustentava a lareira de seu escritório e encarar Christopher, que permanecera de pé, encarando-a cautelosamente.

Ele já havia tomado duas taças de vinho e se recusara a se alimentar, alegando que o assunto era urgente.

E agora ela processava a informação vomitada diante de seus pés.

-Bom, isso não é um erro meu para concertar. -gesticulei indiferente e ele suspirou.

-Vim pedir a sua ajuda. -grunhiu o general de seus grandes exércitos e ela ergueu uma sobrancelha.

-Não pensou nisso quando desafiou o nobre conselho a me tirar do trono. -roçou os dedos na borda de sua taça, encarando o general astutamente. -isso me parece um grande problema, e um problema que você deve arcar.

-E até quando acha que devo ficar sendo sua marionete apaziguando o povo que acredita que sua rainha os abandonou? -retrucou o general, o que me fez engolir em seco.

-Talvez a rebelião seja tudo de que precisem -arriscou andando pela sala despreocupadamente. -será a distração perfeita para que o deixem em paz.

-Onde está a Elizabetth que eu conheço? -parei onde estava e olhei por sob  o ombro, processando suas palavras.

-Acho que não está mais aqui. -determinei rispidamente, antes de sair do aposento e caminhar apressadamente para o lado de fora do palácio, descendo as escadas rapidamente, com o general em meu encalço.

O vento ricocheteou contra nós assim que saímos porta afora.

-O povo precisa de você Eliza. -suplicou – eles não querem alguém como eu apaziguando as coisas, querem que a ordem seja estabelecida. -Me virei abruptamente para ele, que estancou onde estava quando andei a passadas largas em sua direção, meu sangue fervilhando mais do que deveria naquele instante quando meu dedo chocou-se com força contra seu peito.

-E por um acaso o povo já parou para se perguntar, que se eu retornar, tudo pode ser diferente do que um dia já fora? -indaguei semicerrando os olhos para o general que sequer piscara. -Já se perguntou, que talvez se eu retornasse, a ordem pode ser estabelecida de outra forma? -trinquei os dentes, e então me afastei, sentindo meus nervos se acalmarem quando a compreensão brilhara nos olhos do general.

Ele sabia o que acontecera mais do que qualquer outro, assim como presenciara o que aquele novo poder parecia ser capaz de fazer.

Também sabia o real motivo de me afastar de tudo e todos.

E isso era porque eu não fazia ideia do que poderia fazer se ficasse mais um instante dentro daquele palácio, com sede de sangue, de morte e guerra. Uma sede estranha e avassaladora que se instalava cada dia mais forte em mim, de um modo que me fazia não querer permanecer por muito tempo em um mesmo lugar, apenas pelo fato de desejar ver sangue novamente, e de matar todos aqueles que eram considerados maus. Meus inimigos.

O único problema de tudo aquilo, era que eu me tornara muito pior do que aqueles que eram considerados maus.

-Talvez você esteja equivocada. -engoliu em seco, como se lesse meus pensamentos ocultos. -Um ano se passara, e talvez a sua própria solidão transforma você naquela que teme ser -deu de ombros, seus olhos apaziguadores me encarando a procura de qualquer resquício, um resquício que eu já não tinha muita certeza se ainda estava lá. Mas eu não me explicaria novamente, não tentaria convencê-lo de que retornar seja a pior coisa possível a se fazer no momento.

Mas eu senti seu coração, senti as batidas frenéticas e sua respiração oscilar nervosamente. Inclinei a cabeça e o encarei firmemente.

-O que ainda não me contou general? -trinquei os dentes e ele engoliu em seco.

-Digamos que eu tenha sugerido que o encontro dos reis de Ferryan fossem em Crossfire ou White Kingdom. -concluiu -o que significa que se não estiver lá, vão tirá-la do trono.

Naquele momento meus olhos se arregalaram, sentindo o impacto daquelas informações. Engoli em seco e me afastei por um instante me sentindo tonta, me virei e comecei a caminhar pela campina, cambaleante e incapaz de assimilar o que acabara de ouvir.

-E minhas fontes confirmaram que eles cogitam entregar Crossfire ao Norte quando isso acontecer.

Mais uma vez, senti minhas pernas falharem no meio do caminho, minha garganta se fechar instantaneamente e o ar começar a faltar de meus pulmões, como se o chão sob meus próprios pés houvesse desabado.

Não podia de forma alguma entregar meu reino nas mãos dos Lancaster. Apesar de todo o passado, no presente eles ainda permaneciam como meus inimigos mortais, aqueles que se uniram a Ian Roosevelt para acabar com a linhagem de minha família, para possuir o poder.

Eu ainda não conhecera o seu rei pessoalmente, mas sabia que quando isso acontecesse, eu não me responsabilizaria pelos meus atos.

Pois em todos aqueles últimos anos, tudo o que o Norte queria era tomar Crossfire, e me matar.

Me abaixei silenciosamente e minhas mãos tocaram a grama rala, meu organismo sentindo a natureza me saudar com um toque de sua brisa, leve e aconchegante, como se me incentivasse de alguma forma a tomar uma decisão. Alguns segundos se passaram em silencio antes que eu me levantasse e me virasse para encarar o meu general seriamente, um plano já sendo maquinado em minha mente.

Ele compreendeu.

___________________________________

A luz bruxuleante de um dos castiçais iluminava parcialmente a cozinha mais tarde naquela noite enquanto jantávamos, e conversávamos sobre os acontecimentos dos últimos meses, de ambas as partes.

-Talvez devêssemos redobrar os cuidados agora com as pedras, afinal Jason ou quem quer que tenha mandado ele roubá-la poderá estar por perto. Procurando pela pedra que roubamos dele.

-Bom -conclui entre uma garfada e outra do assado da sra Mishigan que  até então eu descobrira ser uma excepcional cozinheira. E me peguei pensando por um tempo como ela se sairia em meio ao caos diário que eram as grandes cozinhas de Crossfire. -eles não tem nenhuma chance. -dei de ombros.  -Vão se frustrar ou serão mortos no meio do caminho.

Christopher enrijeceu, mas permaneceu comendo em silêncio.

-Quantos dias temos? -sussurrou baixinho e ele a encarou de esguelha, engolindo a bebida antes de falar.

-Quatro dias. Como conseguiu me detectar desse lado? -desviou o assunto e eu dei de ombros.

-Meus sentidos ficaram mais aguçados no  último ano, devo confessar. -mordeu o lábio inferior.

-Sugiro que não tenha sido você quem deixou rastros pela costa? Haviam homens relatando sobre um massacre a três semanas envolvendo dois ladrões e rebeldes estupradores. -eu me virei para encará-lo com uma careta.

-Sabe que não deixo rastros. -sibilei.

-Então quem poderia ser? Acha que talvez possa ser alguém tentando chamar sua atenção? -franzi o cenho para Chrsitopher.

-Então ele se lamentará quando souber que não estou disponível. -ironizei, arrancando um sorriso sombrio do general.

-Senti sua falta. -disse quando terminou de comer e se virou para mim. Um meio sorriso surgiu em meus lábios por um instante antes que nos levantássemos e nos abraçássemos. Seu cheiro, amadeirado, chamuscado de eucalipto, forte, destemido inundou meus sentidos e eu suspirei, absorvendo o prazer que era estar em sua presença novamente.

-Acho que não nos livraremos um do outro tão facilmente, general. -sorri mais ainda quando nos afastamos.

___________________________________

O Rei e a Rainha das Sombras - livro 4 Onde histórias criam vida. Descubra agora