Arón estava nervoso, isso era visível. Se não fosse por Abner ser tão apegado aos humanos nada daquilo teria acontecido. Mary ainda estaria viva. Maya tentava alcançar o amigo, mas sempre que chegava perto, ele aumentava a velocidade.
Ao chegarem no quarto, Arón chamou por Abner. Os que estavam ali eram Astrid, uma garota de pele escura e olhos verdes, e Donny, o irmão gêmeo de Maya. Todos olharam para ele, o rapaz tinha lágrimas nos olhos.
- Arón?- Abner perguntou.- O que aconteceu?
Arón entrou no quarto. Teve que se segurar para não acabar fazendo besteira.
- Mary...
Apesar de tentar, as palavras tinham dificuldades para saírem. Maya colocou a mão em seu ombro. Arón a agradeceu com o olhar.
- Sua decisão de ficar fez com que Mary fosse... Morta- Arón respondeu.
A última palavra atingiu em cheio os corações de quem estava ali. Abner se sentiu culpado. Arón tinha razão, se tivesse escolhido sair, talvez Mary ainda estaria viva.
- Morta?- Ele perguntou.
Maya assentiu.
- E, ainda, quase que Arón e eu fomos mortos também- ela disse.
Donny se aproximou. Maya e Arón estavam sendo um pouco rudes, em sua visão.
Maya narrou o que tinha acabado de acontecer, contou até sobre a mensagem. Arón ainda estava nervoso e se aproximou do líder.
- Se não é mais capaz de decidir corretamente- disse-, acho que não está mais apto a nos liderar.
Aquilo foi recebido como um tiro. Abner o encarou. Tinha errado, mas isso não dava o direito a ele lhe tratar daquele jeito.
- Escute uma coisa- Abner começou a dizer-, não era minha intenção que Mary, ou qualquer um de vocês, morresse.
Arón riu com sarcasmo.
- Ai se fosse- disse.
Maya o puxou para trás.
- Arón, acalme-se- disse.- Não foi culpa de Abner.
Maya segurava seu braço, mas ele se soltou. Não deixaria aquilo barato. Pegou o pingente de seu dom e se preparou para usá-lo, quando Donny se intrometeu:
- Se querem brigar- disse-, vão lá para trás do campus.
- Donny!- Maya protestou.- Arón, por favor, vamos embora.
Abner também pegou seu pingente.
- Não, Maya- disse Arón.- Eu vou mostrar para ele.
Maya estava com medo. Abner era seu líder, e Arón, seu melhor amigo. Não queria que eles começassem a brigar. Por sorte ou não, Abner voltou a guardar o pingente.
Aquilo fez com que Arón se acalmasse um pouco.
- Lutar não é o que eu quero- Abner disse.
- E o que você quer?- Arón perguntou.
Abner ia em direção à porta.
- Se não está contente vá embora- disse o líder.- Nada lhe prende aqui.
Arón o encarou. O coração de Maya começou a bater mais rápido. Estavam juntos há muitos, muitos anos, ver alguém partindo lhe machucaria ainda mais a alma que ver alguém morrendo.
- Acho que é melhor assim- Arón disse.
Aquelas palavras arderam como fogo no coração da menina. Lágrimas se formaram em seus olhos.
- Faça como quiser- Abner falou indiferentemente.- É livre para tomar suas decisões. E para mim pouco importa.
Dizendo isso, Abner foi para seu quarto, seguido por Gil.
Arón fez o mesmo, e Maya o seguiu. Assim que chegou em seu quarto, Maya o surpreendeu com um abraço.
- Maya...
Ela chorava.
- Por favor- Maya pediu.- Por favor, Arón, não vá.
O rapaz suspirou.
- Ora, Maya- disse-, não precisa fazer tudo isso por mim.
A garota sentiu as mãos do rapaz segurando seus braços. Devagar, Arón desfez seu abraço. Eles se olhavam nos olhos.
- Não importa mais- disse Arón.- Eu e Abner já não podemos mais ficarmos juntos.
- Mas... Mas...
Ela não podia conter as lágrimas. Gostava dele mais do que de seu próprio gêmeo. Vê-lo partir seria como morrer.
Arón pareceu sentir os sentimentos de Maya. A envolveu em outro abraço e sussurrou:
- Obrigado por tudo, Maya. De tudo o que vivi, estar ao seu lado será a melhor experiência.
Ele se soltou.
Maya não pôde falar nada, enquanto Arón saía do quarto. Deitou na cama e se permitiu que chorasse.
Do lado de fora, Arón não estava melhor. A única pessoa de quem se despediu foi de Maya. Antes de pôr o pé para fora, olhou para trás. Deixava no passado tudo o que tinha sido: um simples serviçal de Abner. Mas agora estava livre, e, tinha se decidido, iria reescrever o tempo perdido. A animação foi substituída pela tristeza quando olhou a árvore onde ele e Maya passavam a maior parte do tempo estudando. Ela era uma grande amiga e, por essa mesma razão, não desistiria fácil dela.
Voltaremos a nos encontrar, Maya, ele pensou.
Mas se por um lado deixava para trás uma verdadeira amizade, por outro estava livre realmente. Arón se assegurou de que não havia nenhum humano por perto e abriu suas asas.
Vê-las abertas era confortavelmente estranho. Fazia muito tempo desde que as abriu pela última vez, mas não perdeu o jeito da coisa.
Levantou-as e voou, libertando-se da terra. Libertando-se do passado.
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Caminhando
RandomDurante anos, era dever deles proteger os humanos e manter o equilíbrio do mundo. Tanto da escuridão quanto da luz, os pilares eram necessários para o mundo. Com o equilíbrio entre os dois grupos, era certa a harmonia. Se as histórias antigas são o...
