Capítulo 14

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O dia já havia chegado ao fim, mas os olhos da cor de jabuticaba ainda se mantinham na estrada. As três garotas que dormiam na parte de trás foram para lá em um momento onde a chuva havia cessado. Apesar do breu, no céu ainda se podia notar as nuvens carregadas e graças ao farol aceso se notava os grossos pingos de chuva caindo.

— Já que você não fala comigo, será que poderia me emprestar seu livro? —Soraya comentou, sendo a primeira a falar em horas.

— Não!

— Eu estou no tédio, Simone. Você não fala, não quer a rádio e nem a TV ligada agora, não deixa eu ler o seu livro. Poxa, isso é chato! — Ela disse e bufou cruzando os braços.

— Se você tivesse pegado carona com um mudo que tem um caminhão velho sem TV ou rádio e que não gosta de ler teria dado na mesma. Então não reclame.

— Chata! — Soraya vociferou e para sua surpresa Simone riu baixinho.

— Se não fosse esse aniversário eu não teria parado e meu humor estaria bem melhor — Simone falou, fazendo Soraya se virar para lhe fitar de frente.

— Eu disse que não precisava de nada daquilo. Vocês conversando comigo bastaria! — Soraya disse docemente e então o rubor tomou conta de suas bochechas pelo que ela diria a seguir. — Sabe, foi o primeiro aniversário em anos que eu passei me divertindo, tendo alguém conversando comigo sem me xingar ou...

— Meu pai costumava comemorar os aniversários como se fossem uma benção dos céus. Eu só quis honrar a tradição, mas isso acabou me custando várias horas, graças a uma viajante sem rumo que encontramos na estrada — a morena riu friamente, fazendo a garota realmente perder a paciência.

— Você que quis seguir a tradição do seu pai, então não me culpe! Eu jamais pedi por aquilo, jamais pedi por nada daquilo. Eu deixei claro que estava tudo bem do jeito que estava — Soraya falou sentindo seu peito inflar de raiva, mas respirou fundo em busca de autocontrole.

— Vamos parar por hoje — Simone parou o caminhão e se virou bruscamente para Soraya. — Vejamos, você chegou aqui com a sua gata, com aquele jeitinho doce e fofo, com o sorriso calmo e roubou o resto de paz que me sobrava — ela alegou com veemência. — Tocou na porcaria da rádio quando eu disse para não mexer, ficou usando aquele tom fodido e sensual quando eu disse que sexo era algo sério para mim, me constrangeu com o assunto do DVD e ainda quer invadir a minha privacidade ao ler o meu livro — falou, vendo a loira abrir a boca e sua expressão beirar à fúria. — Além de te ceder o meu lugar de dormir você ainda quer o que mais?

— Por que continuou me dando carona se eu te incomodo tanto, então?

— Eu não deixaria você no meio do nada. Não sou tão ruim assim.

— Mas é uma idiota. Uma grande idiota! — A menor proferiu.

— Por quê? Só porque ainda não transei com você? — Simone perguntou irritada. — Costuma sempre se oferecer para desconhecidos?

O silêncio a seguir veio da parte de ambas. Soraya negou a cabeça incrédula e abriu a porta do caminhão, saindo na chuva sem se importar com o frio.

— Soraya! O que está fazendo? — Simone gritou, vendo a garota bater a porta de seu caminhão com força. — Pare de birra, volte já aqui — seus olhos acompanharam a garota seguir o caminho a pé, sem olhar para trás.

"Ela vai voltar quando ver que eu não vou atrás."  Simone pensou, mas o tempo foi passando e a figura de Soraya quase sumia de sua vista.

Simone bufou irritada e voltou a andar com o caminhão, alcançando Soraya e parando o caminhão. Ela correu para a janela do passageiro e a abriu.

Estrada Da Vida - AdaptaçãoOnde histórias criam vida. Descubra agora