𝐉𝐎𝐕𝐄𝐍𝐒 𝐍𝐀̃𝐎 deveriam entrar em relacionamentos, sempre fui muito pé no chão em relação à isso. Mas o que acontece, quando alguém que pensa dessa forma se apaixona? E pior ainda... O que acontece quando alguém como eu se apaixona pela namora...
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NARRADORA
Jane Ives segurava o volante com firmeza, os olhos fixos na estrada que cortava as montanhas do Colorado. O ar úmido de Denver infiltrava-se pela janela entreaberta, trazendo um alívio momentâneo ao peso que carregava no peito. Aos 25 anos, ela não era mais a garota ingênua que deixara essa cidade sete anos atrás, mas voltar ainda parecia um teste de resistência. San Francisco, com seu ritmo frenético e promessas de futuro, ficara para trás temporariamente. Denver, com suas memórias e fofoqueiros de cidade pequena, a aguardava.
O salário de 15 mil reais como médica residente em Stanford havia garantido uma vida confortável na Califórnia, mas a transferência para um hospital em Denver significava um corte para 8 mil. Menos dinheiro, menos horas de plantão, mais tempo para o que realmente importava: sua mãe, Terry. Fazia cinco meses que Jim Hopper, seu padrasto e segundo pai, morrera. A notícia a devastara à distância, e Jane, temendo enfrentar o luto cara a cara, se isolara em San Francisco. Seus amigos, Jacob e Chloe, ofereceram apoio, mas a dor permanecia crua, um vazio que nem o tempo amenizava.
Terry, no entanto, precisava dela. Sete anos sem se verem pessoalmente – apenas chamadas de vídeo e conversas diárias – deixaram uma culpa que Jane não podia mais ignorar. Jim e Terry, mesmo divorciados, mantinham uma amizade profunda. Sua morte abalara a ambos, e Jane se recriminava por deixar a mãe enfrentar o luto sozinha. Agora, seu plano era claro: convencer Terry a se mudar para a Califórnia e reconstruir o vínculo que o tempo e a distância haviam fragilizado. Nada a desviaria disso – nem as memórias de Sara, nem as cicatrizes deixadas por Max Mayfield.
Jane consultou o endereço anotado e virou à direita. A casa de Terry apareceu à frente, familiar pelas fotos enviadas ao longo dos anos: uma fachada acolhedora, com luzes externas suaves e um jardim meticulosamente cuidado. Era a cara dela. O coração de Jane aqueceu, mas também acelerou. Ela estacionou, desceu do carro e respirou fundo antes de tocar a campainha.
A porta se abriu, e Terry surgiu, os olhos marejados. Jane não resistiu: jogou-se nos braços da mãe, sentindo o calor que nenhuma chamada de vídeo poderia substituir.
— Mamãe... — murmurou, a voz embargada.
— Minha menina... — Terry a apertou, fungando contra seu ombro. — Senti tanto sua falta.
Jane sorriu, afastando-se para enxugar uma lágrima teimosa. — Sua menina tem 25 anos e já não é mais uma menina — brincou, tentando aliviar a emoção.
Terry riu, o som reconfortante como um cobertor em noite fria. — Vamos pegar suas malas?
[...]
A noite caiu suave em Denver, e Jane, após um banho quente, sentia-se em casa. Ela e Terry jantavam na sala, a lareira crepitando ao fundo, enquanto conversavam sobre a viagem e relembravam histórias de Jim. Jane optara por dormir no sofá – respeitando a privacidade da mãe – e alugara uma casa temporária na cidade. As conversas diárias mantinham Terry atualizada sobre a vida de Jane na Califórnia, mas estar ali, cara a cara, era como recuperar um pedaço perdido de si mesma.
Sentadas no sofá, cobertas por um manta, riam de memórias antigas.
— Lembra quando o Jim quase bateu no poste porque a Sara disse, no meio da viagem, que gostava de meninas e meninos? — Terry gargalhou, e Jane a acompanhou, o coração aquecido.
O nome de Sara, porém, trouxe um silêncio pesado. Jane cortara contato com a irmã adotiva ao deixar Denver. Terry mencionara, ao longo dos anos, que Sara dera sua filha para adoção, ainda vivia na casa de Jim e, segundo rumores, tinha um novo namorado. Para Jane, Sara era um caos ambulante, alguém que não merecia espaço em sua vida.
— Você falou com ela depois que o papai morreu? — perguntou, hesitante.
Terry suspirou, o olhar carregado de decepção. — Tentei. Na primeira vez, ela disse que não queria conversa e que nunca nos considerou família, nem eu, nem você. Na segunda, o namorado dela me atendeu, dizendo que ela não estava.
Jane apertou o cobertor contra o peito. — Não se frustre, mamãe. Eu não esperaria nada dela. No seu lugar, nem teria ido.
No fundo, Jane sabia que Sara não mudaria. A única conexão que ainda a intrigava era a criança que Sara abandonara. Quem seria ela? E como ela estaria agora? Esses pensamentos, porém, foram afastados quando Terry se levantou, os olhos brilhando com carinho.
— Estou tão feliz que você está aqui, meu amor. — Sorriu. — Durma bem.
Jane retribuiu o sorriso, deitando-se no sofá assim que a mãe subiu para o quarto. Amanhã seria um dia longo – o início de sua missão em Denver. Com os olhos fixos no teto, prometeu a si mesma: focar na mãe, no trabalho e em mais nada. O passado ficaria onde pertencia – atrás dela.
[ autora ]
O capítulo foi curtinho, apenas pra vocês matarem a saudade.