37 | Cicatrizes de gelo.

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JANE IVES HOPPER

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JANE IVES HOPPER

Esse mundo pode te cortar profundamente, deixando cicatrizes que nunca somem. Coisas desmoronam, mas, como diz Miley Cyrus em Nothing Breaks Like a Heart, nada quebra como um coração. Desde criança, meu coração era mole como gelatina – chorava fácil, me emocionava fácil, me machucava fácil. Para me proteger, nos últimos sete anos, deixei essa gelatina no congelador por tempo demais. Ela virou uma pedra de gelo, dura, fria. Mas esqueci que gelo também racha. E, quando racha, os estilhaços cortam ainda mais.

— Então, doutora, pode me contar mais sobre você? — Eva perguntou, sentando-se à mesa com um sorriso que misturava curiosidade e charme.

Duas semanas haviam passado desde que trouxe Gigi para casa. Além do trabalho no hospital, meu tempo era dela – conhecendo sua espontaneidade, sua risada contagiante, seu jeito extrovertido que, confesso, às vezes era difícil acompanhar. Mas eu já a amava tanto. Com Gigi, a solidão que me perseguia em Denver parecia menor, e a felicidade, maior. Na sexta passada, assistimos *O Rei Leão* juntas, inaugurando nossa tradição de noites de filme. Decidi mantê-la na mesma escola, a quarenta minutos de carro. Não queria que sua vida mudasse drasticamente. Quando não posso levá-la, o ônibus a busca na porta de casa. Ela está se adaptando, e eu também.

Minha espinha gelou quando percebi que Eva me trouxera ao "Blue Space" para o café. Se isso era o destino, ele que se danasse. Como eu poderia dizer "ei, vamos embora, esse é o restaurante da minha ex"? Pareceria que eu não superara Max. E eu superara. Ou pelo menos era o que repetia a mim mesma.

— Não sei o que dizer — respondi, desconfortável, a voz traindo minha tentativa de parecer casual. — Sou médica, formei-me em Stanford, tenho 25 anos. Sou menos interessante do que pareço.

Forcei um sorriso, mas meu estômago revirava. Eva riu, inclinando-se na cadeira, seus olhos azuis brilhando. Antes que pudesse responder, uma garçonete se aproximou. Cabelos pretos, franja borboleta, calça de alfaiataria preta, blusa social branca, gravata borboleta – o uniforme padrão do "Blue Space". Mas o que chamou minha atenção foi o pingente em seu pescoço. Meu pingente. O sanduíche de prata que Max me dera, que joguei fora na estrada ao deixar Denver. Meu coração disparou, um misto de raiva e incredulidade me fazendo franzir o cenho.

— Olá, o que desejam? — ela perguntou, sorrindo.

— Com licença... — pigarreei, tentando soar amigável. — Achei seu colar tão bonito. Onde comprou?

Ela tocou o pingente, o rosto iluminado por uma memória feliz. — Minha namorada me deu. É fofo, né? Não sei onde foi feito, mas achei uma graça.

O mundo parou. Meu estômago embrulhou, e senti a bile subir à garganta. Max não faria isso. Não poderia ter dado meu pingente – o símbolo do que fomos – a outra pessoa. Eu o joguei fora, sim, mas porque ela me destruiu. Porque a aposta com Mike partiu meu coração. Mas e se ela o encontrou? E se guardou porque, de algum jeito, o que sentia por mim era real? A ideia era insuportável.

𝐍𝐎́𝐒 | 𝙀𝙡𝙢𝙖𝙭Onde histórias criam vida. Descubra agora