𝐉𝐎𝐕𝐄𝐍𝐒 𝐍𝐀̃𝐎 deveriam entrar em relacionamentos, sempre fui muito pé no chão em relação à isso. Mas o que acontece, quando alguém que pensa dessa forma se apaixona? E pior ainda... O que acontece quando alguém como eu se apaixona pela namora...
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MAXINE MAYFIELD
O sofá da minha sala estava começando a parecer um velho amigo, com suas manchas de café e o tecido gasto nos braços. Eu segurava uma cerveja gelada, o vidro suado molhando meus dedos, enquanto o som abafado de um playlist de rock alternativo saía do alto-falante Bluetooth na estante. Mike Wheeler e Chrissy Cunningham estavam espalhados pelo sofá, cada um com uma garrafa na mão, a luz amarelada da luminária jogando sombras suaves em seus rostos. Era uma noite fria de Denver, o tipo que faz você querer ficar dentro de casa, com boa companhia e algo para aquecer o peito. Mas meu peito estava quente por outro motivo: Jane Ives.
Eu ainda conseguia sentir o peso do olhar dela no banheiro do "Blue Space" hoje à tarde. Aqueles olhos castanhos, tão familiares, tão cortantes, me acertaram como um soco. Fazia duas semanas desde que a vi pela primeira vez desde que ela voltou, no jantar que Will e Bev armaram como uma emboscada. E hoje, com aquele maldito pingente, tudo desmoronou de novo. Eu guardei aquele colar por sete anos, como um pedaço dela que eu não conseguia soltar. E agora, por causa de um erro idiota com Harley, Jane achava que eu o dei para outra. A dor no rosto dela, misturada com raiva e ciúmes, me deixou sem chão.
— Max, você tá aí? — Mike perguntou, inclinando a cabeça, me arrancando dos meus pensamentos.
— Tô, sim — respondi, tomando um gole da cerveja para disfarçar. — Só... pensando.
— Em quem, hein? — Chrissy provocou, com um sorriso de canto. Ela estava mais leve hoje, o cabelo loiro preso em um coque frouxo, vestindo uma blusa preta e jeans.
Eu ri, mas o som saiu meio torto. — Você sabe em quem. — Passei a mão pelo cabelo, o ruivo caindo desleixado sobre os ombros. — Ver a Jane de novo... foi como se os cadeados que tranquei meus sentimentos por ela, sete anos atrás, tivessem se aberto e caído no chão. Todos de uma vez.
Mike engoliu em seco, a garrafa parando a meio caminho da boca. Ele sabia o que aquela aposta – a maldita brincadeira que ele inventou – custou. Não só para Jane, mas para todos nós. Chrissy olhou para o chão, girando a garrafa entre os dedos, como se quisesse evitar o assunto.
— Sério, Max? — Mike perguntou, a voz baixa. — Depois de todo esse tempo?
— Sério — confirmei, encostando-me no sofá, os olhos fixos na garrafa. — Eu achei que tinha superado. Que o "Blue Space", o trabalho, a vida... tinham me feito seguir em frente. Mas aí ela aparece, com aquele vestido vermelho, aquela atitude de quem não precisa de ninguém, e... porra, é como se eu tivesse 18 anos de novo. Como se nada tivesse mudado.
— Mas mudou — Chrissy disse, hesitante, como se escolhesse cada palavra com cuidado. — Vocês mudaram. Ela é médica agora, Max. E você tem o restaurante. Vocês não são mais aquelas garotas de antes.
— Eu sei — murmurei, o coração apertando. — Mas quando ela me olhou hoje, com raiva por causa do colar... tinha algo ali. Ciúmes, talvez. Ou só mágoa. Mas era algo. E isso me dá esperança, mesmo que eu não devesse ter nenhuma.
Mike suspirou, passando a mão pelo cabelo escuro. Ele estava diferente – mais maduro, com uma barba rala que o fazia parecer menos o garoto impulsivo de anos atrás.
— Ela falou com você depois do jantar no "Blue Space"? — perguntei, olhando para Chrissy.
Ela hesitou, brincando com a etiqueta da garrafa. — Falou, sim. Por mensagem. Will mandou um convite pra um reencontro em grupo, e ela... respondeu que talvez apareça. Mas não pareceu muito animada.
— Um reencontro? — Meu estômago deu um salto. — Tipo, com todos nós? Bev, Bill, você, Will... e Jane?
— É — Chrissy confirmou, os olhos desviando para a janela. — Will tá tentando juntar todo mundo, como nos velhos tempos. Acho que ele quer consertar as coisas, sabe? Depois da chácara...
O nome da chácara caiu como uma pedra na sala. Aquele fim de semana, sete anos atrás, foi o estopim para tudo desmoronar. A aposta de Mike, minha burrice em topar, a briga com Sara, a briga com Will e Chrissy – ninguém saiu ileso. Eu perdi Jane. Chrissy perdeu a confiança em Mike, apesar de a cada um ano passarem um mês inteiro se pegando. Will perdeu a si mesmo por um tempo. E Sara... bem, Sara sempre foi um furacão, destruindo tudo ao redor.
— Ele tá tentando, né? — comentei, tentando aliviar o clima. — Desde que todos nós separamos, Will sempre tentou ser o mediador do grupo. Mesmo depois de tudo, ele ainda quer nos juntar.
— Ele tá diferente — Chrissy disse, um sorriso tímido surgindo. — Mais maduro. A clínica de veterinária tá fazendo bem pra ele. Mas ainda sinto ele meio... preso no passado, sabe? Como se quisesse pedir desculpas pra sempre.
— Parece alguém que conheço — brinquei, olhando para Mike. Ele riu, mas havia um peso em seus olhos.
— Falando nisso... — Mike começou, mas parou, tomando um gole da cerveja. — Não, deixa pra lá.
— Fala, Wheeler — insisti, cutucando o braço dele com o pé. — Não vem com essa agora.
Chrissy riu, levantando-se do sofá. — Vou ao banheiro. Não briguem enquanto eu estiver fora, hein? — Ela piscou, deixando a sala com a garrafa na mão.
O silêncio que ficou era pesado, mas familiar. Mike e eu tínhamos passado por muita coisa – desde amigos de infância até cúmplices de uma aposta idiota que mudou tudo. Ele se ajeitou no sofá, olhando para a garrafa como se ela tivesse respostas.
— Max, eu sei que já pedi desculpas antes — ele começou, a voz hesitante. —Tipo, umas dez vezes, talvez. Mas... vou pedir de novo. Me desculpe por aquela brincadeira. Pela aposta. Eu sei que custou o amor da sua vida. Jane era tudo pra você, e eu estraguei isso.
Seus olhos encontraram os meus, cheios de culpa. Eu suspirei, o peso das memórias voltando como uma onda. A aposta – uma ideia estúpida de adolescência, um desafio bobo. – parecia inofensiva na época. Mas destruiu Jane, feriu Chrissy, e me deixou com um buraco que o "Blue Space" nunca conseguiu preencher.
— Mike, já te disse que não precisa se desculpar mais — respondi, a voz mais suave do que eu pretendia. — Tá tudo bem. Quer dizer, não tá, mas... a gente era jovem. Burro. Eu também entrei na brincadeira, sabe? Não foi só você.
— Mas eu comecei — ele insistiu, esfregando a nuca. — E agora, vendo você falar da Jane, como ainda sente tudo isso... me mata saber que fui parte disso.
— Para com isso, Wheeler — falei, forçando um sorriso. — A gente tá aqui, tomando cerveja, falando de reencontros. Talvez seja uma chance de consertar as coisas. Não só com a Jane, mas com todos nós.
Ele assentiu, mas seus olhos ainda carregavam aquele peso. Eu sabia que ele sentia o mesmo por Chrissy – a culpa por ter quebrado algo que poderia ter sido eterno. Talvez fosse por isso que estávamos ali, tentando remendar o passado com cervejas e conversas.
— Você acha que ela vai aparecer? — Mike perguntou, a voz baixa. — No reencontro?
— Jane? — Dei de ombros, o coração apertando. — Não sei. Ela tá diferente. Mais fria, mais... protegida. Mas quando me olhou hoje, no banheiro... Não sei se era amor, raiva, ódio ou só saudade. Mas era algo.
Mike sorriu, um sorriso triste. — Espero que seja amor, Max. Você merece.
Eu ri, balançando a cabeça. — Desde quando você virou romântico?
—Eu sempre fui. — ele respondeu, meio brincando, meio sério.
O som da descarga veio do corredor, sinalizando que Chrissy estava voltando. Mas, por um momento, ficamos em silêncio, o peso do passado e a esperança do futuro pairando entre nós. Eu queria acreditar que Jane ainda sentia algo. Que os cadeados quebrados podiam ser remendados. Que, talvez, Denver ainda tivesse algo de bom pra me oferecer.