Desculpas

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  Tomei um banho para tirar aquele sangue de minhas mãos. Ataquei um homem, isso certamente me levaria ao apedrejamento, talvez até mesmo fogueira. Lance voltara, entretanto, não posso negar que me sinto magoada pelo seu perdoo de ausência. Se o mesmo estivesse presente, o Negociador jamais teria tomado aquela atitude.

  Com os pensamentos elevados, comecei a considerar não sair do conforto de minha cama. Até que um "toc, toc" me fez levantar e ir até a porta. Lance me esperava, segurando rosas-vermelhas mescladas por tulipas. Um buquê em cores quentes, as quais um dia me dissera combinar com meu tom de pele.

  O encarei.

— Eu não sou bom pedindo desculpas — confessou-se. — Mas, por você, eu tento infinitamente. Posso entrar para nos resolvermos?

— E isso importa? Me tratou como algo descartável, como uma mobilha impossível de se levar. O que acha que sou? Um acessório? Algo que pode recorrer quando precisa? — dei licença para que entrasse e depois fechei a porta. — Sabe quanto tempo fiquei pensando se fiz algo de errado? Sequer imagina o medo que senti há horas atrás?

— Selene, eu sinto muito. Quando a senhorita apareceu em meio a reunião, eu percebi os olhares do Negociador e previ que não a deixaria em paz — me entregou o buquê e agradeci, ainda furiosa. — Infelizmente, fui convocado para um... Serviço fora do reino e quando notei que não se passava de uma armadilha dele, voltei correndo. No final, minha tentativa de te proteger, de mantê-lo longe da senhorita, foi em vão. Fiquei com tanto medo dele ter te tocado...

  Seus olhos estavam agitados, apavorados. Lance estava com medo, mas o que me restava era saber quem era aquele homem que o amedrontava tanto?

— Selene, eu nunca mais te deixarei sozinha. Eu te prometo — tomou a liberdade de segurar minhas mãos. — Por favor, me perdoe.

— Eu te perdôo, meu Lorde.

  O mesmo sorriu e meu coração se aliviou.

— Estou tão aliviado, Náiade — soltou seu sorriso mais largo e passou a mão em meu rosto. — Estava com tanta saudade. Agora, por favor, me conte sobre suas aventuras em minha ausência. Magalhães comentou que Deimos te adorou!

  Sorri, mesmo ainda estando intrigada com a conversa passada. Quem era aquele homem? Tenho motivos óbvios para temê-lo, mas Lance... Quem seria maldoso o suficiente para amedrontá-lo daquela forma?

  Minhas espinhas se arrepiaram.

— Deimos é um cavalo magnífico! — respondi.

— Se o ama tanto assim, seja a nova dona dele — o encarei, esquecendo de respirar.

— Esta me dando um de seus cavalos?

— Sim — falou com naturalidade. — Náiade, tudo aqui é seu também. Desde cada prego no patrimônio dos Shelburne até a minha alma e coração. É tudo seu, para fazer o que bem entender. Mandar e desmandar.

Senti meu rosto arder, minha barriga esfriar e meu coração palpitar. Aquele tumulto de sentimentos e reações não se originavam do patrimônio extenso e rico ao meu dispôr, mas sim de Lance dizer abertamente que pertence a mim, de coração e alma. O Lorde de Shelburne me ama a este ponto?

𝚃𝙷𝙴 𝙰𝙱𝚂𝙾𝙻𝚄𝚃𝙴Onde histórias criam vida. Descubra agora