II

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Eveline

Acordei antes mesmo do sol raiar, levantei e arrumei minha cama, saindo do quarto antes que minhas tias acordassem, tomei meu café da manhã e saí do pequeno cortiço onde moramos com outras duas famílias.

Ao chegar na fábrica, vou para o meu setor e assim se seguem as quinze ou dezesseis horas mais longas e entediantes da minha vida. É uma rotina à qual já estou acostumada, mas pelo menos tenho conseguido levar dinheiro para casa e é isso que me importa.

Mais ou menos uma hora depois de finalmente conseguir almoçar, me enviaram para entregar tecidos no teatro, uma das poucas tarefas que eu gostava de fazer naquele lugar, mas não porque era o meu trabalho dos sonhos, estava bem longe disso, mas porque me dava a oportunidade de ir a um lugar onde eu gostaria de estar.

O teatro é lindo e enorme, nunca pude entrar pela porta da frente, mas me contentava com a dos fundos, era lá onde a magia realmente acontecia.

Quando comecei a trabalhar na fábrica, agarrei-me a todas as oportunidades de vir aqui, agora, uma grande parte dos funcionários já me conheciam e eram bem simpáticos comigo.

— Eveline, que bom vê-la querida! — Senhora Jude abanava-se com um leque gigante e cheio de penas. — Esses são os novos tecidos para as bailarinas?

— Sim.

Deixei os rolos de tecido colorido sobre um caixote próximo enquanto ela averiguava de um por um. Atrás dela, outras pessoas passeavam para lá e para cá, ensaiando, costurando ou consertando coisas, alguns dos que me conheciam acenavam gentilmente.

— JONES! — ela gritou. Prontamente, um senhor baixo e gorducho apareceu. — Leve isto à sala de figurinos, está bem? Preciso resolver uma outra coisa agora. — Jones apenas assentiu e saiu carregando os tecidos.

Estava prestes a me despedir e voltar à fábrica quando ela me pegou pela mão para que eu a seguisse e saiu andando. A senhora Jude levou-me até seu camarim e sentou-se dramaticamente em seu divã amarelo, enquanto eu continuei de pé, esperando a história mirabolante da vez.

— Ah querida, eu não me conformo!

— Com o que senhora Jude?

— Eveline, já disse para chamar-me somente de Abigail! "Senhora Jude" faz parecer que tenho mais de quarenta anos. — Ela tem bem mais de quarenta anos, mas foi com a própria que aprendi que não se discute a idade de uma dama. — Consegue imaginar que coisa horrorosa? Ainda sou jovem demais para ser chamada de senhora.

— Perdoe-me é a força do hábito. — Dei de ombros e sentei-me em uma poltrona próxima.

— Tudo bem. Voltando a sua pergunta, eu não me conformo que uma jovem tão bonita e talentosa como você fique trancada naquela fábrica o dia inteiro.

— Bem, é o meu emprego, Abigail, não há muita coisa que eu possa fazer para mudar minha situação de vida.

Pessoas pobres não têm muitas chances de ascender socialmente, mas pessoas que são pobres e órfãs têm menos ainda. Eu nunca conheci os meus pais, talvez tenham morrido ou só não tinham condições de me criar, de qualquer forma, tia Josephine e tia Jennifer me acolheram como se fosse delas e serei eternamente grata por isso.

— Mas eu tenho meus meios, criança.

Ela levantou-se e começou a procurar algo em seu armário, aliás, não faço ideia de como ela consegue encontrar qualquer coisa ali dentro, está abarrotado de vestidos, sapatos e acessórios de apresentação, afinal, Abigail é uma grande cantora de ópera.

Lembro-me de quando era pequena e minhas tias me levaram para uma apresentação de primavera que ela fez na praça da cidade, foi um momento mágico.

— Ah, aqui estão.

Abigail tirou uma bolsa de tecido de dentro da bagunça e voltou ao divã, ela passou a bolsa para mim e pediu que eu a abrisse, questioná-la é uma das últimas coisas que eu pensaria em fazer, então apenas obedeci.

Tirei dois pares de sapatilhas de dentro do embrulho, ambos eram quase do tom da minha pele e sem detalhes, mas conseguia diferenciá-los porque um dos pares possuía pontas e o outro não.

Me permiti esquecer tudo que me separava do mundo que gostaria de fazer parte e encarei as sapatilhas em minhas mãos com completo encanto.

— Vejo que gostou do presente. — a voz da senhora Jude despertou-me para a realidade.

— Presente? Quer dizer que elas são minhas? — Ela sorriu em confirmação e não pude me conter ao abraçá-la. — Obrigada, obrigada, obrigada!

— Ora acalme-se querida, ainda não terminei. — Abigail deu tapinhas nas minhas costas para que eu voltasse a me sentar. — Tenho mais uma coisa para você, mas esta exige segredo completo, está bem? — Assenti, mesmo ainda um pouco confusa.

Ao lado do divã onde ela estava sentada havia um mesinha de apoio com um abajur, uma caixinha e algumas flores quase mortas em um vaso. Observei enquanto ela mexia no fundo da caixinha, tentando arrancar algo de lá com a ponta da unha, quando finalmente conseguiu puxar a ponta da fita, ela a arrancou por completo e uma chave pequena e fina caiu em seu colo.

— Finalmente consegui, estava mais bem preso do que imaginei. — Ela sorriu e me entregou a chave. — Isto é uma cópia da chave daquela porta que você usa para entrar aqui quando vem trazer os tecidos, pode vir treinar à noite desde que não haja espetáculos.

Senti minha vista embaçar enquanto segurava os presentes em minhas mãos, talvez receber isso seja o sinal que tanto pedi, o sinal de que não devo desistir de tentar por mais impossíveis que as coisas pareçam.

— Eu nem sei como agradecer, Abigail.

— Lembrar de mim com carinho quando você for uma bailarina famosa já é o suficiente. — Sorri para a senhora à minha frente e senti vontade de abraçá-la outra vez, mas me contive. — Bem, já te segurei aqui por tempo demais e, infelizmente, você precisa voltar àquela fábrica cinza e sem graça.

Despedi-me dela e voltei à fábrica com meu pequeno segredo. Fui ao teatro durante a semana, tomando cuidado ao entrar somente quando todos já tivessem ido embora, para evitar ser vista, o que funcionou muito bem... Até a véspera de ano novo.

A Bailarina de NeveOnde histórias criam vida. Descubra agora