Não era difícil imaginar que Clarissa estava enlouquecendo por causa do acidente. E tinha também a história da amiga. Iris a encarou tentando parecer solícita para que ela se sentisse confortável, mas só fez surtir o efeito contrário ao desejado e Clarissa sentiu-se ainda mais pressionada.
— Olha é tanta coisa— continuou Clarissa— você deve saber que meu irmão tá em coma, que eu apareci surtando ensanguentada na TV e que a minha tia quebrou a cara de uma jornalista ao vivo. Mas é muito mais coisa ao mesmo tempo. Minha família é totalmente desequilibrada, eles tentam parecer maduros, alguns até são mais, mas é impossível não ser infectado por quem não é. Minha avó Elsa quer pular no pescoço da minha avó Sandra porque tá com ciúme de lavar a casa, e desconta em todo mundo que ela tem mais intimidade porque tem medo de se resolver com ela. Ela nunca se deu muito bem com meu pai ou com minha tia Alicia, no caso dele é que ela não o acha bom o bastante pra minha mãe, já a minha tia ela não acha boa o bastante pra nada, só acha boa de pressionar. Minha tia Bárbara tá desempregada e passa o dia inteiro enchendo a cara com meu pai e quebrando tudo de vidro que vê pela frente em acessos de raiva, não vejo nenhum dos dois sóbrios já tem dias e pode acreditar, eles são insuportáveis bêbados. Meus avós você conhece, ninguém nunca fica tranquilo do lado deles, então dispensa apresentações. Mas minha mãe é que tá pior. As vezes quando eu era criança eu flagrava ela se machucando com a ponta do brinco quando ela tava muito nervosa, mas agora com toda essa situação do meu irmão e o resto da minha família dando esse tanto de trabalho a mão dela tá virando uma peneira, ainda mais agora que ela parou de fazer terapia. Ela é psicóloga sabe, se nem ela tá aguentando o tranco não consigo imaginar quem aguentaria sem surtar.
—Nossa...
Iris assentiu e passou um braço ao redor dos ombros de Clarissa para consola-la, e o simples gesto amigável fez com que ela deslanchasse ainda mais a falar.
— Eu não tenho um segundo de paz. Ninguém me dá, nem eu mesma me dou. Eu não consigo entrar em um carro sem vomitar, não posso andar tranquila na rua sem me preocupar com a ex maluca do meu irmão me achar e começar a me implorar sem dó, nem piedade e muito menos dignidade pra levar ela pra ver ele no hospital, não consigo fazer mais que uma refeição por dia e quando não é a minha vó me perseguindo pra me obrigar a comer é alguém me acusando de tá deprimida— despejou Clarissa enquanto comia a batata frita e franzia tanto a testa que Iris só conseguia pensar nas rugas que se formariam nela antes mesmo de chegar aos quarenta— Olha, talvez eu esteja mesmo, mas ninguém da minha família tá bem da cabeça, isso eu garanto.
— Por isso que você passa o dia inteiro aqui?
— Também. Mas sabe, parece que a única coisa que eu tenho direito é de ser perfeita— resmungou Clarissa tomando um longo gole da lata de guaraná logo após, sua boca já estava ficando seca de tanto falar— e eu nem poderia tá reclamando da minha família tá tão preocupada, primeiro porque tem muita gente que não tem isso e segundo porque eu sempre fingi ser perfeita, a culpa disso é minha, aí quando eles me cobram de ser perfeita e compreensiva eu dou um show desses. Mas não sou perfeita porra nenhuma, a verdade é que eu sou uma idiota sem personalidade que deixa todo mundo me afetar. Eu me sinto como um acessório.
Após mais uma pausa, Clarissa começou a chorar. Ótimo, se Iris antes não tinha plena certeza que ela era maluca, agora ela tinha. Mas já que sua fama de descontrolada já estava feita, então agora já não seria mais necessário se preocupar em não falar mais que o necessário, então que se fodesse. Iris não queria saber o que estava lhe incomodando? Então que aguentasse.
É, Clarissa já tivera dias mais sãos.
—Eu roubei um diário de uns oitenta anos atrás da minha bisa avó, que tá quase morrendo de leucemia aliás— admitiu Clarissa com a voz embargada— se eu te dissesse o quanto ela parece comigo você ia achar que é mentira. Mas ao mesmo tempo não era tão igual, não tem como eu explicar de outro jeito se não me humilhando dizendo que ela era muito melhor que eu porque pelo menos tinha algum senso crítico. Ela também era uma garota que todos viam como uma tonta puxa saco da melhor amiga rica e bonita, e a melhor amiga dela também era outra inconsequente. A dela pelo menos tinha a decência de avisar antes de fazer merda, a minha sumiu em Aspen depois de me dizer que vai se encontrar com um cara de vinte e um anos que é pior que um animal no cio.
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O Verão dos Pace
Teen FictionAna Clementina Rinaldi Pace sempre sonhou em ter uma bela casa de férias na pequena cidade histórica de Ceuci, lar das mais diversas religiões e lendas tradicionais como sereias, bruxas, lobisomens e até mesmo das não tão tradicionais assim. Em seu...
