Jimin estava preso no quarto havia um dia. Sem muito o que fazer, se entregou à sua arte. Estudou seus desenhos antigos, observando cada detalhe, como se tentasse entender algo mais profundo sobre si mesmo. À medida que traçava, sua mente vagava para Taehyung, e foi assim que, quase sem perceber, criou um novo desenho — mais fiel, mais detalhado — retratando Taehyung em sua majestosa forma de tritão. Cada linha parecia carregar uma mistura de saudade, frustração e uma sensação crescente de impotência. A tarde se esvaiu sem que ele notasse, até o anoitecer, quando finalmente sentiu o peso do tempo e se deu conta de que alguém tinha entrado no quarto.
Pablo estava ali, sorrindo com um certo desdém, como se o quarto fosse um lugar comum.
— Como você conseguiu entrar? A porta estava trancada — Jimin perguntou, desconfiado, e, ao mesmo tempo, tentando esconder o incômodo que se formava em seu peito.
Pablo levantou uma chave e a balançou no ar com naturalidade, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Eu sou oficialmente seu médico, lembra? — disse, com um tom de quem já sabia o que viria. — Tenho as chaves. Além disso, sei que você queria falar comigo, então dei um jeito de entrar sem chamar muita atenção.
Jimin cruzou os braços e olhou para o tritão, claramente aborrecido. Sabia que sua atitude era irracional, mas não conseguia evitar. Havia algo profundamente irritante na ideia de que, em um mundo onde Taehyung era um tritão, um relacionamento entre tritões como Pablo e Taehyung seria aceito e até incentivado, enquanto o que ele sentia por Taehyung precisava ser escondido, tratado nas sombras. Esse pensamento o corroía. Sem perceber, direcionou sua frustração para Pablo.
— Então agora você é um especialista em saber o que eu quero? — disse Jimin, com um tom ácido. Suas palavras carregavam mais peso do que ele gostaria de admitir.
Pablo arqueou uma sobrancelha, surpreso com o tom de Jimin, mas não respondeu imediatamente. Ao invés disso, o observou, seus olhos curiosos notando o fogo por trás das palavras. O que quer que estivesse acontecendo no interior de Jimin, ele queria entender.
— Qual é, pequeno príncipe? — provocou Pablo, seu sorriso travesso não saindo de seu rosto. — Não está curioso sobre mim e minhas irmãs? Eu vi você fugir com nosso noivo, acho que mereço explicações. E, com todo respeito, considerando que fui eu quem salvou sua vida, seria bom um tom mais doce, não acha?
Jimin sentiu o rosto esquentar. O jeito como Pablo usou "nosso noivo" e o tom provocador apenas aumentaram seu desconforto. Ele sabia que Pablo estava jogando com ele, testando seus limites, mas a reação de Jimin era visceral, quase impossível de esconder.
Pablo se divertia claramente com a reação de Jimin e enquanto observava os traços delicados do humano, ele começou a entender uma parte do que estava acontecendo. Jimin era lindo, com uma androgenia tão perfeitamente equilibrada que tornava o olhar dele de raiva ainda mais cativante. Pablo, de alguma forma, agora compreendia em parte o comportamento de Taehyung.
— Sabe... — Pablo começou, ainda sorrindo com interesse, inclinando-se levemente para observar mais de perto Jimin. — Eu não o julgo. Olhando para você agora, acho que entendo uma parte do que se passa na cabeça do meu querido primo. — A palavra "primo" foi dita com ironia, mas sem malícia, como uma curiosidade genuína.
Jimin se encolheu um pouco com o tom condescendente de Pablo, o ciúme crescendo em seu peito, mas ele ainda tentava se manter firme.
— Ele não tem interesse em casamento, acha que casar com qualquer um de vocês iria condená-los ao ostracismo que ele sempre viveu. — Jimin disse, tentando manter a calma. — E como assim primo?
Pablo deu de ombros, como se o assunto fosse trivial.
— Ah, é uma expressão geral. Por causa da criação da nossa espécie, todos da realeza indenpendente do reino são descendentes do deus do mar, então, tecnicamente, primos em algum grau. — Ele fez uma pausa antes de continuar. — Sobre o ostracismo, minha irmã Mikha disse que tudo bem. Taehyung é jovem, bonito, poderia ser pior... e o pai dele gosta muito dela. Inclusive, ela foi para as terras da família do Taehyung há alguns dias para oficializar tudo.
Jimin apertou os lábios, o coração apertando ao ouvir sobre Mikha indo "oficializar tudo". A raiva e a confusão misturaram-se dentro dele, mas ele tentava não reagir impulsivamente. No entanto, não conseguiu segurar a frustração.
— Ela disse que tudo bem? — repetiu Jimin, sua voz carregada de incredulidade. — E isso é suficiente para vocês?
Pablo deu de ombros mais uma vez, como se tudo fosse simples demais para ser debatido.
— Olha, pequeno príncipe, não somos tão dramáticos quanto vocês em relação a isso. Casamentos também são alianças, laços políticos. E no caso da Mikha, ela sabe o que está ganhando. Além disso, o pai de Taehyung... — Pablo sorriu com um toque de ironia. — E ele tanto gosta dela. É um bom acordo para todos até a familia terrena dele aprova o casamento.
Jimin não conseguiu se conter mais. Ele avançou um passo à frente, os olhos faiscando de raiva.
— Para todos? E o que Taehyung quer? Ele não é uma ferramenta! — A raiva estava evidente agora, mas ele não podia deixar de se perguntar se Pablo e os outros realmente viam Taehyung dessa forma.
Pablo levantou as mãos em um gesto de calma.
— Não estou dizendo que concordo com isso, só explico como as coisas funcionam. E, sinceramente... — ele inclinou a cabeça, seus olhos fixos em Jimin, agora com mais intensidade. — Você parece saber muito bem o que ele quer, não é?
A nova provocação de Pablo pegou Jimin de surpresa, mas ao invés de se deixar dominar, ele respirou fundo, tentando controlar a intensidade das emoções que quase o consumiam.
— Ele me disse que não quer esse casamento, que não quer viver como viveu até agora. E se você ou qualquer outro não consegue enxergar isso, o problema não é dele. — Jimin respondeu, a voz firme, apesar da raiva ainda borbulhando dentro dele.
Pablo sorriu satisfeito, como se estivesse assistindo a uma peça que, apesar de sua intensidade, fosse de alguma forma reconfortante. Para ele, aquilo era quase como os contos de humanos e sirenes que ele tanto ouvia da sua mãe. Mikha estava certa; aqueles dois se gostavam muito, e agora, Pablo não precisava mais confiar apenas nas palavras da irmã; ele tinha certeza. Com isso, a provocação que ele estava fazendo já estava ficando sem graça.
Enquanto isso, Jimin se sentia agoniado e terrivelmente mal. Não conseguia entender as motivações da criatura à sua frente. O que ele queria? Tê-lo salvo apenas para depois provocá-lo até a exaustão? Pablo sabia exatamente o que falar para deixá-lo afetado, para aumentar os ciúmes que ele já sentia, agora voltados para a sereia ruiva que supostamente estava com Taehyung, alguém que poderia viver ao lado dele em qualquer um dos seus mundos, o que deixava Jimin frustrado a ponto de querer chorar. Cada palavra de Pablo o atingia em cheio, fazendo com que Jimin se sentisse ainda mais impotente e em conflito.
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Destiny - Vmin Minv
FanfictionNos confins do oceano e no coração de um reino terrestre, dois mundos colidem através de um amor proibido. Jimin, o príncipe herdeiro de um reino humano, luta contra a opressão de um rei cruel e os perigos de uma corte cheia de intrigas. Por outro l...
