81. Lagrimas do passado

28 14 38
                                        

Depois de se acomodar e repassar para Taehyung os assuntos comerciais que deveriam ser tratados para o bem da família, Joon deitou-se na cama, sentindo-se nostálgico. Lembrou-se de sua juventude imprudente, das travessuras que aprontou tanto no palácio quanto no castelo e sorriu. Não que tudo tivesse sido perfeito naquela época, mas, mesmo com os momentos difíceis, eram boas lembranças. Era um tempo mais simples. Ele era amigo dos príncipes, tinha sua irmã por perto, conseguia conversar de verdade com Miran... e, claro, havia ele.

O pensamento o trouxe de volta à realidade. Suspirou, lembrando-se de que ainda precisava entregar os presentes que trouxera. Sentia que aquele gesto seria o ponto final em um sentimento antigo. Levantou-se, foi até sua mala e retirou três terços: um de ouro, outro de prata e um de ouro rosé—este último ganhava sua tonalidade devido à pequena porcentagem de cobre em sua composição. Com os presentes em mãos, saiu da ala do sobrinho à procura de alguém.

Procurou em diversos cantos do palácio, frustrando-se cada vez mais. Finalmente, ao sair para o pátio externo, encontrou quem buscava.

Miguel.

Ele já não era mais o bebê de colo de anos atrás, mas ainda era pequeno para a idade, o que fez Joon sorrir. Ele puxou isso de Angelo, pensou. Caminhou na direção do rapaz, segurando os presentes. Trazia três, afinal, seria descortês dar algo apenas para Angelo. Por um instante, recordou-se de como Angelo sempre fora bem-apessoado e gentil. Queria saber como ele estava, mas adiou esse reencontro por anos... por medo. Agora, porém, as coisas eram diferentes. Seu coração estava curado e ele podia, ao menos por um dia, retomar aquela velha amizade.

Quando finalmente parou diante de Miguel, abriu um sorriso.

Miguel, por sua vez, estava ocupado se organizando para ir até a vila. Ganhara uma folga inesperada e desta vez, não pretendia passar o dia na biblioteca estudando. Queria ver Liliana, contar-lhe tudo ou pelo menos a parte que podia. Perdido em seus pensamentos, não percebeu a aproximação de Joon até que uma voz grave o despertou.

— Oi, Miguel. Sei que você não se lembra de mim — disse Joon, observando o jovem. — Quando era pequeno, seu pai o trouxe ao castelo e eu o peguei no colo. Você era tão fofo...

Miguel piscou, confuso. A frase soava como algo que um parente distante diria, mas... Joon não poderia ser um parente distante. Ele não parecia apenas vagamente familiar, ele era assustadoramente parecido com Taehyung.

— Como está seu pai? — perguntou Joon, com um sorriso nostálgico. — Sinto muita saudade dele. Inclusive, trouxe algumas lembranças para vocês.

Ele abriu a mão, revelando os terços.

— Mandei fazer há anos. O de prata é seu, porque, quando era pequeno, você quebrou um colar de prata meu e ficou agarrado a ele com força com suas mãozinhas de bebê. Isso ficou na minha cabeça — riu, balançando a peça. — O de ouro é para Angelo e este aqui... — levantou o terço de tonalidade rosada — é especialmente para sua mãe.

Somente após dizer isso, Joon percebeu a expressão de Miguel. O sorriso do jovem sumira, e seus olhos estavam marejados. E Miguel entendeu, naquele momento, que o homem à sua frente era um antigo amigo de seu pai. Mas... ele não sabia. Não sabia o que tinha acontecido com Angelo e isso o atingiu com força.

Era muita coisa para assimilar.

Seu pai era amigo de um nobre? E não de qualquer nobre, mas de alguém da família de Taehyung? Isso explicava a semelhança, os traços e ambos eram ruivos. Mas o que mais o inquietava era a proximidade que haviam tido... O suficiente para que Angelo recebesse joias de presente de um aristocrata. Isso não era comum. Era uma amizade como a que ele tinha com Jimin?

A angústia tomou conta de Miguel antes que ele pudesse controlar suas emoções. Ele sentiu os olhos arderem e de repente, as lágrimas escorreram pelo rosto.

Joon arregalou os olhos, surpreso com a súbita reação do rapaz.

— Miguel...?

"Meu Deus", pensou Joon, apavorado. Ele havia feito o filho de sua antiga paixão chorar. Será que Miguel sabia de algo e o odiava em segredo por anos? Angelo com certeza ficara furioso ao saber que ele havia feito seu filho derramar lágrimas, ele amava aquele menino. Seu plano estava dando terrivelmente errado.

Miguel secou os olhos com a manga da roupa, tentando recuperar o controle da própria voz. Quando finalmente conseguiu falar, sua voz saiu entrecortada:

— O pai... se foi faz alguns anos...

Ele soluçou e Joon sentiu um impacto devastador. De todas as reações que esperava, essa nunca passou por sua cabeça. Estava preparado até mesmo para o ódio de Angelo, mas não para isso. Por instinto, ele abraçou Miguel, sem saber se tinha intimidade para tanto, mas incapaz de agir de outra forma. O rapaz enrijeceu por um segundo antes de ceder ao gesto.

Joon sentiu a própria garganta apertar. As lágrimas ameaçavam vir, mas ele as conteve. Chorar por um homem que não era da família poderia parecer estranho e Miguel certamente ficaria desconfiado.

— Me desculpe — murmurou Joon, apertando o abraço por um instante antes de soltar o rapaz. — Eu não sabia... Eu deveria ter me informado antes de falar com você.

Miguel balançou a cabeça, enxugando as últimas lágrimas rapidamente.

— Não, você não tem culpa — disse ele, com um sorriso trêmulo. — É só que... eu ainda sinto muita falta dele. Me desculpa por essa cena que estou fazendo.

Joon se controlou ao máximo e tentou consolar o rapaz, que permaneceu instável por um bom tempo. Diante disso, Miguel desistiu de visitar Liliana. A saudade do pai ainda era uma ferida aberta, e ele sabia que não seria boa companhia naquele estado. Quando Joon o guiou para dentro do palacio e lhe ofereceu consolo, Miguel não rejeitou.

Aquele homem deveria ser bom, se era tão amigo de seu pai.

Com isso, Miguel aceitou os presentes, ouviu algumas histórias de quando era apenas um bebê, aparentemente muito amado e, por fim, recolheu-se ao quarto para organizar seus pensamentos. Agora, algumas coisas estavam mais claras. Entre elas, o motivo de Miran tê-lo escolhido como escudeiro no lugar de outra promoção mais modesta. Com certeza, devia estar ligado ao passado de seu pai com aqueles nobres na juventude além do seu ato heroico.

Destiny - Vmin MinvHistórias para pegar e não largar. Descubra agora