76. Amigas?

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Na vila dos pescadores, Mikha se adaptou rapidamente. Em poucos dias, conquistara a todos com o mesmo encanto que Pablo antes trouxera ao lugar. Os irmãos de Liliana, sempre prontos para atender a qualquer capricho, agora não o faziam mais em troca de pérolas, mas pelo simples prazer de arrancar um sorriso de Mikha — uma das jovens mais bonitas que já haviam visto.

Mikha, por sua vez, parecia confortável no papel de centro das atenções. Sempre bem-humorada e risonha, ela se distraía com a admiração dos rapazes, aproveitando a leveza de uma vida sem as preocupações que carregara até ali. No entanto, nesse processo, quase não sobrava espaço para dar atenção a Liliana.

Liliana, à primeira vista, parecia tranquila com a situação. Não era de guardar rancores e sabia que Mikha não fazia por mal. Porém, havia uma pequena complicação: a casa estava em reforma graças aos negócios que seus irmãos tinham feito com Pablo, o que obrigava Liliana e Mikha a compartilharem o mesmo quarto.

Dividir o espaço com Mikha era, no mínimo, desafiador. Não que Mikha fosse desagradável — pelo contrário, sua presença enchia o ambiente de energia. Mas Liliana sentia que, nos momentos de silêncio, quando estavam apenas as duas no quarto, um desconforto pairava no ar.

Liliana às vezes se perguntava se Mikha notava o quanto dependia da atenção alheia para se sentir confortável. E, embora a jovem parecesse se adaptar a tudo com facilidade, Liliana não conseguia ignorar a sensação de que Mikha mantinha as pessoas à sua volta a uma certa distância, mesmo em meio a todo o seu charme.

A convivência no quarto, somada à falta de atenção da nova hóspede, começava a provocar pequenos atritos invisíveis, como correntes subterrâneas em um rio aparentemente calmo. Liliana não tinha certeza de como abordar Mikha. Devia ela falar sobre o incômodo ou simplesmente esperar que as coisas se ajustassem sozinhas?

Com esses pensamentos rondando sua mente, Liliana tentava dormir, mas um som suave interrompeu seu devaneio. Um choramingo baixinho, quase sufocado, escapava da cama de Mikha. Era fraco, mas carregado de sofrimento.

Sentindo-se inquieta, Liliana se levantou, pegou uma vela e a acendeu, lançando um brilho trêmulo no quarto.

— Eu estou te incomodando? — perguntou em um sussurro.

O choro cessou imediatamente, e Mikha virou o rosto em direção à luz. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas e ela parecia surpresa por ter sido notada. Ao observar Liliana, com o rosto iluminado pela luz suave e os cabelos desgrenhados moldando suas feições, Mikha não pôde deixar de notar, o quanto ela era bonita. Pablo tinha razão sobre a beleza cativante da moça.

— Não — respondeu Mikha, sua voz embargada. — Eu só... estou esperando por alguém que acho que não vai vir.

Liliana arqueou as sobrancelhas, confusa.

— O Pablo? Ele vai voltar.

Mikha balançou a cabeça, negando, enquanto fungava discretamente.

— Não, não é ele. Eu estou esperando por outro rapaz... ou melhor, por um homem. Ele é mais velho... mas já faz tempo, e... — Ela respirou fundo, tentando conter um novo soluço. — Acho que ele não vai vir por mim.

Liliana ficou em silêncio por um momento, assimilando aquelas palavras. Ela não esperava ouvir algo assim. Mikha parecia uma mulher tão confiante, tão segura de si, que era difícil imaginar alguém rejeitando-a.

A surpresa logo deu lugar a outra emoção: desconfiança. Liliana fitou Mikha com olhos avaliadores, tentando decifrá-la. Que tipo de homem deixaria de lado alguém como Mikha? Talvez ele fosse casado, a moça disse que era mais velho. A suspeita se formou rapidamente em sua mente, e ela se viu pensando se Mikha era realmente tão inocente quanto parecia.

— E quem é esse homem? — perguntou Liliana, a curiosidade misturada com uma pitada de cautela.

Mikha hesitou, seus olhos vagando pelo pequeno quarto, como se buscasse uma resposta que estivesse escondida nas sombras.

— Alguém que eu achava que viria para mim. — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — Mas ele não veio. Acho que eu só queria me enganar.

Liliana inclinou a cabeça, observando o rosto da jovem à luz da vela. Ela podia ver a sinceridade na tristeza de Mikha, mas também uma camada de algo mais — talvez arrependimento ou dúvida. Apesar disso, Liliana não sabia exatamente como reagir. Uma parte dela queria questionar, mas outra entendia que havia momentos em que silêncio era a melhor resposta.

— Sinto muito — disse Liliana, com simplicidade.

A luz da vela oscilava entre as duas, lançando sombras suaves que dançavam nas paredes. O quarto, pequeno e ainda em reforma, parecia conter uma intimidade inesperada naquele instante. Algo na expressão de Mikha, tão vulnerável, tocou Liliana de uma maneira que ela não soube explicar.

Sem pensar muito, movida por um impulso que não conseguia nomear, Liliana levantou-se de sua cama e foi até Mikha. Ela hesitou por um breve momento, mas então se abaixou e a abraçou. Mikha enrijeceu por um instante, surpresa, mas logo relaxou, encostando a cabeça no ombro de Liliana.

Sem perceberem, as duas acabaram adormecendo assim, aninhadas na pequena cama de Mikha. Naquela noite, a distância que antes parecia separá-las deu lugar a uma conexão genuína, uma amizade entre duas moças de mundos tão distintos, mas que pareciam sempre querer se entrelaçar.

Destiny - Vmin MinvOnde histórias criam vida. Descubra agora