Mikha foi novamente à capela para se confessar. Geralmente, quando ia, fazia questão de atiçar o juizo do padre, fingindo-se inocente e preocupada com a noite de núpcias. Mas, desta vez, havia algo mais sério em sua mente. Decidira arriscar; se fosse rejeitada, tudo bem, mas não conseguiria partir sem tentar.
No caminho, as senhoras da vila a cumprimentavam, admirando sua "devoção" enquanto caminhava até a capela. Mal sabiam elas que, atrás do semblante puro, escondia-se uma determinação fria. O padre já a aguardava, sentado no confessionário, ciente de que ela sempre ia em dias alternados e naquele horário.
Ao vê-la se aproximar, ele desviou o olhar por um momento, ajeitando-se em seu assento. Sua mão descansava no rosário, mas os nós dos dedos estavam brancos. Mikha percebeu o leve rubor em seu rosto, um detalhe que a fez sorrir com o canto dos lábios. Ele já imaginava o tipo de confissão que viria.
Entrando no confessionário, ela fez o sinal da cruz.
— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Abençoe-me, padre, porque pequei. Faz dois dias desde minha última confissão.
— Pode começar, minha filha — respondeu ele, mantendo o tom calmo, embora sua voz já tremesse ligeiramente.
O sorriso de Mikha desapareceu. Quando falou, sua voz estava carregada de seriedade.
— Eu não sou quem digo ser, nem acredito no seu Deus.
Do outro lado, o padre se mexeu, surpreso. Ela continuou, sem lhe dar tempo de processar.
— Não quero ser noiva de Taehyung. Não o amo, meus pensamentos estão em outro homem.
Houve um silêncio. O padre respirou fundo, tentando absorver as palavras.
— Ele não será feliz comigo, padre. — A interrupção foi firme. — Principalmente porque o senhor... o senhor é o dono de todos os meus pensamentos.
O padre, pego completamente de surpresa, engasgou com o próprio ar, iniciando uma crise de tosse. Mikha, de onde estava, observava com um sorriso contido, satisfeita por ter abalado o homem tão controlado.
— Talvez esteja apenas com medo do matrimônio. É normal. Taehyung é um bom rapaz, e com o tempo —
— Sei o quanto é devoto à sua fé e às suas escolhas — continuou ela, sua voz firme e direta, mas com um leve toque de vulnerabilidade. — Mas não posso mais carregar essa mentira. Outras eu posso suportar, mas não esta. Não posso fingir que amo Taehyung, e muito menos que pertenço a esse lugar.
Do outro lado do confessionário, o padre lutava para recobrar a compostura.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Mikha podia ouvir a respiração acelerada do homem. Ele sabia que algo havia mudado entre eles nas últimas semanas. Reconhecia os olhares da moça, mas sempre tentou atribuí-los à curiosidade ou até à semelhança que ele compartilhava com Taehyung. Agora, porém, a confissão dela o colocava diante de um dilema que ele havia feito de tudo para evitar.
— Isso é... impensável, Mikha — disse ele, a voz falhando no meio da frase. — Eu fiz votos.
— Talvez seja apenas atração, talvez eu seja o seu amor verdadeiro, mas nunca saberemos sem tentar.
As palavras dela cortaram fundo, derrubando qualquer defesa que ele ainda tentava manter.
— Hoje — continuou Mikha, suavizando o tom —, terminarei meu noivado com Taehyung e partirei. Se o senhor quiser me dar uma chance, me encontre na vila dos pescadores dentro de duas semanas no maximo.
Ela fez uma pausa, esperando qualquer reação, qualquer palavra. Mas o padre continuava em silêncio, as mãos trêmulas segurando o queixo enquanto sua mente girava em um turbilhão de emoções. Ele havia desejado secretamente o casamento dela com Taehyung, acreditando que isso afastaria a tentação e restauraria sua paz. Mas agora Mikha tinha virado tudo de cabeça para baixo.
— Pense no que eu disse, padre — completou ela. — Mas não demore a decidir.
Sem esperar resposta, Mikha se levantou e saiu do confessionário, deixando-o perdido em pensamentos. Ela saiu da capela sem olhar para trás, movendo-se com passos decididos. O plano estava apenas começando, e a próxima etapa a aguardava na casa grande.
Ao chegar à casa grande, Mikha seguiu direto até o quarto de Taehyung. Fechando a porta atrás de si, ela se sentou ao seu lado na cama e usou a linguagem de sinais para que pudessem conversar em silêncio, sem que ninguém pudesse ouvi-los.
— [Eu me declarei para o seu tio.] — sinalizou Mikha com rapidez, mas mantendo um semblante sério.
Os olhos de Taehyung se arregalaram.
— [O quê? E agora?] — perguntou, ainda tentando processar o que acabara de "ouvir."
— [Vamos jantar e ficar de cara feia um para o outro, depois vou rejeitar seu convite para o passeio noturno e subir para o quarto. Mais tarde, encenamos uma briga, eu saio daqui em um cavalo e vou embora. Você precisa parecer abatido, como se estivesse de coração partido, para ninguém desconfiar.]
Taehyung ficou em silêncio por um momento, assimilando o plano. Por fim, assentiu, sinalizando que entendia.
Mikha se levantou e saiu do quarto, deixando-o sozinho com seus pensamentos.
Taehyung respirou fundo e se sentiu aliviado com o fim daquela farsa, mas o alívio vinha acompanhado de um desconforto profundo. Aquele fingimento, a encenação de um amor que não existia, parecia uma traição a Jimin. Cada momento ao lado de Mikha, cada gesto de carinho falso, só reforçava essa sensação. O que ele tinha com Jimin era genuíno, e apesar de nunca ter sido expresso em público na superficie, era algo que ele valorizava profundamente. Cada toque, olhar e cada palavra trocada entre eles, estavam longe dos olhares curiosos, mas eram reais mas só tinham que acontecer nas sombras e isso o deixava muito triste e frustrado.
O jantar seguiu como Mikha havia planejado, e Taehyung se entregou ao papel que lhe fora designado com uma precisão quase impecável. Ele estava acostumado a antigamente a esconder seus sentimentos, a agir de maneira que os outros acreditassem no que ele queria que acreditassem e naquela noite voltou aos velhos habitos. O clima no jantar estava desconfrotavel e as pessoas ao redor dela percebiam o desconforto no ar principalmente na expressão facial de Mikha, especialmente o pequeno Sungjae, o garotinho fazia o possível para animá-la, mas Mikha se mostrava distante, respondendo a ele com pouco interesse, até que, por fim, o menino desistiu e ficou amuado. Taehyung, embora estivesse em seu papel, não podia deixar de sentir uma pontada de desconforto, principalmente ao ver o olhar desapontado de Sungjae com aquela encenação, ele sabia do carinho do rapaz com Mikha.
No fim do jantar, Taehyung seguiu Mikha, chamando-a para o passeio noturno como sempre fazia. Ela, com uma irritação calculada, negou, subindo para seu quarto sem olhar para ele. Ele fez o que pôde para aparentar estar aflito para a familia e logo a seguiu.
Ao chegar no quarto, Mikha já havia começado a derrubar algumas coisas, simulando um colapso emocional. Ela estava tão boa em fingir que alguns membros da família ouviram o barulho e se aproximaram, tentando abrir a porta, mas sem sucesso. O drama estava sendo executado com maestria.
— Eu não consigo mais! — Mikha gritou, sua voz alta o suficiente para ser ouvida do lado de fora. — Você mudou, depois do acidente você nem parece a mesma pessoa e nem parece se lembrar de mim!
Mikha deu uma pausa para parecer que Taehyung tinha a respondido usando a lingua de sinais e depois disso volta para a sua atuação
— Não posso me casar com alguém que não me ama! Você não me ama mais! Eu vou embora!
Internamente, Taehyung sentia que aquilo tudo estava distante, sem a menor conexão romantica com a mulher na sua frente. No entanto, ele manteve o disfarce, porque sabia que, ao fim daquele jogo, ele seria finalmente livre para seguir o que realmente queria. Quando Mikha finalmente saiu pela porta, levando seus pertences, Taehyung a seguiu, fazendo o possível para parecer desesperado aos olhos de sua familia. Ela, no entanto, correu até os estábulos e partiu em um cavalo, sumindo na escuridão da noite.
Taehyung voltou para a casa, tentando parecer abatido, mesmo que fosse difícil esconder a indiferença que sentia com a partida da moça. Ele se aproximou dos parentes, que o olharam com uma mistura de preocupação e surpresa do que acabara de acontecer. Ele forçou algumas lágrimas, sentindo o peso da encenação pesar sobre seus ombros, antes de finalmente se trancar no quarto.
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Destiny - Vmin Minv
FanfictionNos confins do oceano e no coração de um reino terrestre, dois mundos colidem através de um amor proibido. Jimin, o príncipe herdeiro de um reino humano, luta contra a opressão de um rei cruel e os perigos de uma corte cheia de intrigas. Por outro l...
