75. Desonra

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Pablo sentia falta de Mikha, mesmo que ela tivesse partido há menos de um dia. Ele se ocupava em consertar a bagunça que ela deixara no palácio durante sua fuga. A confusão não fora pequena: desacordar não era algo que pudesse passar despercebido. Durante a noite, Pablo se apressara para ajustar tudo, evitando que rumores se espalhassem. Até mesmo a cura do rei ele realizou contra a vontade, apenas para evitar consequências mais graves.

Enquanto Mikha planejava partir sozinha para o mar — após não encontrar Joon na vila de pescadores —, Pablo conseguiu convencê-la a adiar a decisão. Talvez Joon ainda pudesse aparecer. Ele a persuadira a permanecer por alguns dias na casa de Liliana, uma amiga que acolheria Mikha em troca de pérolas, como ele mesmo já fizera recentemente.

Mas algo em Pablo havia mudado. A raiva que sentia pelo rei agora era pessoal. Saber que aquele homem havia tratado sua irmã de forma tão abusiva inflamava sua indignação. Mesmo assim, ele lutava para controlar esse sentimento, tentando manter a mente clara para sua investigação.

Enquanto organizava os papéis espalhados pela mesa, sua mente fervilhava com perguntas. Por que o rei teria se interessado repentinamente por Mikha? Não havia lógica. Nada que explicasse aquele comportamento.

Sung Hoon parecia agir como um monarca errático, tomado por decisões impulsivas. Primeiro, ignorara Jimin por anos, apenas para começar a tratá-lo com uma atenção repentina. Quando o príncipe adoecera, fingira cuidar de sua saúde, mas a melhora só veio após o contato entre os dois ser barrado. Ao mesmo tempo, negligenciava sua concubina favorita, mesmo sabendo de sua gravidez. E como se isso não bastasse, Pablo ouvira rumores de que criados recebiam ordens para seguir todos os passos dentro do palácio.

Tudo parecia apontar para algo sombrio: talvez o rei realmente quisesse a morte de Jimin. Ainda assim, todas as evidências eram frágeis, nada sólido ou irrefutável.

Mas havia a questão mais perturbadora: por que alguém eliminaria o próprio herdeiro? Para um rei, herdeiros eram a garantia da continuidade dinástica. Destruí-los era como serrar os próprios alicerces.

Esses pensamentos o inquietavam profundamente, um quebra-cabeça com peças faltando. Ele já estava perdido nesses devaneios quando a porta rangeu, e Miguel entrou no cômodo.

— Ainda desconfia do rei? — perguntou Miguel, os olhos curiosos passando pelas folhas espalhadas sobre a mesa. Ele se aproximou devagar, fixando-se em alguns documentos. Apesar de estar em um estágio avançado de alfabetização, Miguel ainda demorava para interpretar o que lia.

— Sim, dele, de alguns nobres e até da concubina — respondeu Pablo, ajustando os papéis sobre a mesa. — Todos têm algo a ganhar. Alguns odeiam a rainha e Jimin; outros querem eliminar o príncipe e enfraquecer a influência da rainha.

Miguel estreitou os olhos, apontando para uma anotação.

— Esse último é sobre a concubina?

— Não necessariamente ela, mas a família dela — explicou Pablo.

Miguel suspirou, revirando os olhos com cansaço. Ele não entendia por que tanto Pablo quanto Mikha pareciam ignorar o perigo que a concubina representava.

— Por que você não gosta dela? — questionou Pablo ao notar a expressão de irritação no rosto do amigo.

— Porque ela fica competindo com a rainha e não sabe o lugar dela — respondeu Miguel, sem hesitar.

— E por que você gosta tanto da rainha? — Pablo provocou, arqueando uma sobrancelha com um leve sorriso.

Miguel cruzou os braços, mantendo a postura defensiva.

— Ela é uma boa rainha. Ajudou a estabilizar o reino. Minha mãe sempre dizia que, antes dela, isso aqui era um caos. Se ela perder o poder antes de Jimin ser rei, tudo pode voltar a ser como era antes.

— Isso não quer dizer que ela seja uma santa e que não tenha aprontado na juventude — retrucou Pablo, com um tom carregado de dúvida.

— Ah, para com isso! — bufou Miguel, claramente irritado. — Você não entende.

Pablo percebeu o desconforto de Miguel. O rapaz endireitou a postura, como quem queria encerrar a conversa, mas o silêncio que se seguiu só tornou a tensão mais palpável. Pablo sabia por que Miguel rejeitava qualquer suspeita sobre o rei com tanta veemência. A única explicação plausível para o monarca querer a morte de Jimin era a possibilidade de ele não ser seu filho legítimo. E isso, para Miguel, era uma ideia terrivelmente perturbadora.

Tentando mudar o foco, Pablo recostou-se na cadeira e ajeitou os papéis sobre a mesa.

— Vamos falar dos outros suspeitos. E o loiro que visitou Jimin? Soube que o pai dele tem uma fama nada confiável.

Miguel franziu o cenho.

— O Cristian? O pai dele usa a amizade do filho com o Jimin para ganhar influência no reino. Sempre que podia, deixava o garoto aqui para que os dois criassem vínculo. Você desconfia dele? Não faz sentido, se o Jimin morrer, ele perde a influência.

— Ele é irmão do pai da concubina — apontou Pablo. — A família tenta há anos se aproximar da realeza e a escolha dela como concubina foi o mais perto que chegaram. O que você disse só confirma como eles usam os próprios filhos para alcançar poder.

Miguel balançou a cabeça, impressionado e levemente inquieto.

— Como você descobre essas coisas? Dá até medo.

Pablo sorriu de canto, parecendo se divertir com a reação do amigo.

— É fácil. Suborno criados e plebeus com pérolas. As pessoas vendem informação bem rápido por umas bolinhas brilhantes.

Miguel soltou uma risada breve, mas havia admiração em seu olhar.

— Algumas dessas pérolas podem mudar a vida de uma pessoa.

— Sorte sua que tem um amigo que pode literalmente fazer elas, né? — provocou Pablo, com um sorriso mais largo.

— Você pode fazer pérolas? — Miguel arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Claro! Como você acha que tenho tantas?

O comentário de Pablo fez Miguel estreitar os olhos, desconfiado, mas ele logo riu, aliviando a tensão que pairava no ar. Ainda havia muito a investigar, mas, por um breve momento, a conversa entre os dois parecia trazer um sopro de leveza em meio ao caos que os cercava.

Destiny - Vmin MinvOnde histórias criam vida. Descubra agora