87. Cartas e segredos

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Joon recebeu as cartas de Miguel, e a curiosidade no olhar do rapaz não passou despercebida. No entanto, ele não teve coragem de compartilhar o passado de Angelo com o filho dele pois não sabia como ele reagiria. Em vez disso, apenas agradeceu e seguiu para seu escritório, sentindo o peso das lembranças ressurgirem com o simples toque das cartas envelhecidas.

Sentado à sua escrivaninha, havia varias cartas de anos diferentes e decidiu começar das mais antigas e assim ele abriu a primeira delas, o tempo pareceu retroceder. No passado, Joon havia ensinado Angelo a ler e escrever. Não foi uma decisão aleatória ou desinteressada; foi um ato de carinho e cuidado. Explicar o motivo de tanta dedicação era complicado demais, então o aprendizado permaneceu como um segredo compartilhado entre os dois. Joon sabia que a leitura e a escrita ajudariam Angelo de inúmeras formas, mas a sociedade exigia que ele fingisse ignorância pois professores são caros e explciar esse conhecimento estava fora de questão. Assim, aquele conhecimento se tornou algo íntimo entre eles, um laço invisível, mas inquebrantável.

Enquanto lia as cartas, Joon percebeu que a maioria delas jamais havia sido finalizada. Angelo tentara, em palavras hesitantes, expressar a paixão que sentia por ele. No início, os textos tinham um tom sonhador, quase infantil. Falavam sobre fugir juntos, sobre viver no mar como piratas ou se esconder na floresta, sobrevivendo do que a terra lhes oferecesse. Mas essas cartas sempre terminavam com trechos riscados ou pedaços rasgados, como se Angelo, ao escrever, percebesse a impossibilidade daqueles sonhos e se frustrasse com a realidade.

Com o passar do tempo, o tom das cartas mudou. Deixaram de ser fantasias para se tornarem confissões mais sóbrias. Angelo aceitava que um relacionamento entre eles nunca poderia ser público, mas ainda assim desejava que, ao menos para os dois, fosse algo verdadeiro. No entanto, o desespero crescia em cada nova carta. As últimas eram carregadas de ressentimento e dor. Angelo questionava se algum dia havia sido importante para Joon ou se fora apenas mais um entre tantos outros. A mágoa transparecia nas palavras duras e a decisão final era clara: não queria mais aceitar os beijos ou os carinhos de Joon.

A última carta fez o coração de Joon apertar. Nela, Angelo falava sobre Maria, mencionando que uma jovem gentil havia se declarado a ele, e isso o abalara profundamente. Angelo dizia que não poderia mais continuar a visitar Joon, pois havia decidido se dedicar à moça que tocara seu coração de uma forma tão intensa. Mas, assim como as anteriores, essa carta também estava inacabada e jamais foi enviada. Joon, então, compreendeu o afastamento de Angelo, que no passado o havia ferido, mas ele não procurou saber os motivos. Em vez disso, escolheu uma vida cada vez mais libertina, tentando afastar a dor de perdê-lo nós braços de homens e mulheres.

Destiny - Vmin MinvOnde histórias criam vida. Descubra agora