37. Aliados

41 22 52
                                        

Taehyung seguiu as instruções da jovem e se acomodou à mesa para o jantar. Sentado, ele observava tudo ao redor. Mikan estava bem à sua frente, mas ao lado de seu tio, o padre, e ele percebia que ela desviava o olhar para o tio de tempos em tempos. No fim do jantar, o pai de Taehyung anunciou que precisava ir embora para resolver algumas pendências, deixando-o irritado, embora ele disfarçasse bem. Após a refeição, ele convidou Mikan para dar uma volta, e ela aceitou de imediato.

Enquanto caminhavam pelas terras sob o céu escuro da noite, Taehyung finalmente encontrou o momento para se abrir. Ele parou e sinalizou para Mikan, com um tom gentil, tentando não ser abrupto:

— [Me desculpe, mas eu não posso arcar com o compromisso que meu pai quer. Não posso ser seu noivo, nem fazer de você minha rainha no futuro.]

Taehyung a encarou, querendo que ela soubesse que não era nada pessoal; ele reconhecia que ela não tinha culpa em toda aquela situação. Mikan riu, mas não de um jeito zombeteiro; era uma risada leve, como alguém que achava toda a situação divertida.

— Não quero ser sua rainha — disse ela, descontraída. — Eu só vim porque queria passear pelo mundo humano. Seu pai me deu uma oportunidade de ouro para isso então enganei ele fingindo interesse. E relaxe, eu gosto de caras mais velhos — acrescentou, tentando tranquilizá-lo. — Posso acabar com o noivado rapidamente, se você quiser, mas, para isso, teria que voltar. E... bem, tem algo na terra que chamou minha atenção, então, se não se importa, acho que podemos continuar com essa farsa por mais um tempo.

Ela o encarou com um brilho amistoso nos olhos.

— E, se precisar de ajuda com alguma coisa, é só falar.

Taehyung absorveu as palavras de Mikan, surpreso e aliviado ao mesmo tempo. Ele lançou-lhe um olhar cúmplice, intrigado pela postura dela em relação a todo o arranjo.

— [Mas e a guerra? Não tem problema não ter casamento?] — perguntou, ainda cético.

Mikan deu um sorriso, sacudindo a cabeça.

— Não, na verdade, isso foi ideia do seu pai. Ele que quis fazer do casamento uma condição para manter o acordo de paz. Mas sua tia já deixou claro que não entrará em guerra, e disse que, se algo fosse acontecer entre nós, teria que ser porque nós dois quisemos — explicou ela com tranquilidade. — E, na verdade, foi ela quem ajudou a mim e ao meu irmão a enganarmos seu pai fingindo apoio e subirmos para a superfície. Ela acha que você tem direito de escolher o seu futuro e disse que vai te apoiar.

Surpreso e grato, Taehyung assentiu, sentindo-se mais leve ao saber que não estava preso a um destino imposto. A notícia sobre a posição de sua tia trouxe-lhe ainda mais alívio. Ela sempre fora avessa à política — um dos motivos que a levaram a abdicar do trono em favor de seu pai, não o principal, mesmo sendo a primeira na linha de sucessão na época da morte do seu avó. Esse detalhe sempre o incomodara; ele também não tinha a menor vontade de assumir o reino no futuro, mas entendia por que a tia havia tomado aquela decisão. No fundo, ele sabia que, quando tivesse a oportunidade, fará o mesmo passando o trono para sua prima.

Enquanto Taehyung e Mikha caminhavam juntos pelos corredores da casa grande, o ambiente vibrava com uma alegria contagiante. O retorno de Taehyung, acompanhado de sua suposta "noiva", trouxe uma onda de animação para a família. Mikha, com seu charme natural e postura graciosa, tinha rapidamente conquistado a todos, criando a ideia de que o jovem havia feito uma escolha digna.

O padre, sempre cheio de entusiasmo e de uma inocência da real situação, chegou a sugerir que poderia realizar a cerimônia de casamento ali mesmo, sem mais demora. A matriarca, radiante, não escondia sua satisfação com o arranjo. Para ela, aquilo parecia um conto de fadas se tornando realidade.

O pai de Taehyung, porém, havia contado apenas meias verdades. Escondendo certos detalhes mais sensíveis, ele justificara a longa ausência de ambos com histórias cuidadosamente elaboradas. Assim, a família acreditava que o casamento entre Taehyung e Mikha era fruto de um amor sincero, um romance abençoado que todos estavam dispostos a celebrar.

Nos dias que se seguiram, Mikha observava com atenção a dinâmica entre Taehyung e sua família, enquanto se adaptava à nova realidade. Havia momentos em que ambos exibiam a mesma curiosidade incansável, mergulhando em aprendizados diversos, desde a cultura humana até os costumes da familia. Em outros, Taehyung assumia o papel de guia para Mikha, ajudando-a a compreender melhor o mundo à sua volta pois já tinha uma experiencia previa dele.

No entanto, quando o assunto era magia, a relação se invertia. Mikha se tornava a professora, guiando Taehyung em sessões de estudo realizadas em sigilo. Nessas ocasiões, longe dos olhos atentos da família, os dois estabeleciam uma conexão leve e despreocupada, marcada por risadas e a construção de uma amizade genuína.

Mas ao retornar à presença da família, a necessidade de atuar como um casal apaixonado fazia o peso da mentira recair sobre Taehyung. Por trás de seus sorrisos largos e brincadeiras ensaiadas, Mikha começou a perceber os sinais de que ele detestava aquela encenação.

A água ao redor dele, sempre levemente agitada, era o reflexo de sua tensão interna. A cada interação forçada, a inquietação aumentava, como se o oceano dentro dele não pudesse mais ser contido. Mikha notava esse detalhe com crescente frequência, e com isso, passou a entender mais sobre o potencial oculto de Taehyung. Ele não era apenas forte — havia algo profundo e indomável nele, algo que parecia à beira de transbordar.

E, ao ver esse lado de Taehyung, Mikha começou a se perguntar até onde ele seria capaz de ir para proteger não apenas a si mesmo, mas também aqueles que amava — e o que poderia acontecer quando finalmente deixasse suas emoções fluírem sem restrições. Essa ideia a assustou um pouco, mas não o suficiente para impedi-la de continuar ensinando magia da água ao rapaz.

Mikha entendia que, por mais perigoso que o poder de Taehyung pudesse parecer, seria ainda mais arriscado deixá-lo sem orientação. A magia, especialmente aquela ligada à água, era intrinsecamente ligada às emoções do conjurador. Sem controle, ela responderia às flutuações de seu humor — e com o temperamento impulsivo de Taehyung, o risco de algo sair do controle era iminente.

Assim, mesmo com a inquietação em seu peito, Mikha dedicava-se a ajudá-lo a canalizar suas habilidades. Ensinava-o a reconhecer seus limites, a compreender a conexão entre a magia e seus sentimentos, e, acima de tudo, a encontrar equilíbrio.

Destiny - Vmin MinvOnde histórias criam vida. Descubra agora