Capítulo Vinte e Nove: Alguma Ligação
Ponto de vista de Sophia Hummel Mezzolo
A tensão no ar é palpável, quase densa o suficiente para tocá-la. Eu observo em silêncio, sem conseguir afastar o peso de olhares carregados. Juliana e Lenos, que momentos atrás estavam próximos, agora parecem estar em uma guerra interna. A amizade que antes fluía com facilidade, como uma corrente tranquila de compreensão mútua, agora está tomada por um silêncio pesado, por palavras não ditas e olhares que evitam o encontro. Tudo mudou de repente, como se um muro invisível tivesse se erguido entre eles, separando-os de uma forma que não consigo mais entender.
Eu vejo Juliana, pouquíssima melhor em sua saúde, mas com sua expressão dura, os olhos cheios de frustração, mas também de uma tristeza profunda. Algo nela parece ter se quebrado. Ela parece fechada, retraída, como se estivesse guardando algo que, ao ser liberado, destruiria tudo. E Lenos, ao lado, parece estar igualmente distante, como se uma parte dele estivesse ausente, como se a dor dele fosse transformada em raiva, em defesa. Ele não olha para Juliana da mesma maneira. Antes havia cumplicidade, mas agora há uma parede, uma distância que ele tenta, sem sucesso, disfarçar.
É estranho, porque, quando nos aproximamos demais de alguém ou de algo, achamos que a conexão será simples, que será fácil de entender, como se a proximidade fosse sinônimo de harmonia. Mas aqui, neste momento, a aproximação se torna desconfortável. Talvez porque, ao nos aproximarmos tanto, o que se revela não é a paz, mas as tensões, as diferenças ocultas, que estavam ali o tempo todo, esperando a oportunidade de surgir. Eu vejo esses dois, que antes estavam em equilíbrio, agora se chocando, lutando por espaço, por definição.
E o mais curioso é que essa guerra não é uma luta de poder ou de dominância, mas como mágoas antigas um pelo outro. Não há uma guerra declarada, mas um atrito sutil que vai se ampliando. É uma guerra silenciosa, feita de gestos minimamente irritados. Algo aconteceu entre eles, algo que não foi dito, que não foi resolvido. O que era uma relação de proximidade, de confiança, agora parece uma batalha de egos, de desentendimentos que cresceram tanto que não há mais espaço para a compreensão mútua. Eles estão em lados opostos de algo que ainda não sei definir, mas que sei que está corroendo o que havia de bom.
Eu observo, sem saber como intervir ou até mesmo se devo, se nem ao menos eu possuo as respostas corretas sobre esta aproximação, tentando ao menos entender essa disputa. Eu ainda não entendo o suficiente. As peças começam a se mover, mas elas estão desconectadas, flutuando em minha mente como fragmentos de um quebra-cabeça que não sei como montar. Talvez a guerra não seja algo a ser resolvido, mas sim algo a ser compreendido. Mas a tensão está lá, e de alguma forma, ela precisa ser enfrentada. Eu me vejo consumida pela curiosidade e pela crescente sensação de que algo está prestes a ser revelado. Sem dúvidas algumas, ambos já possuem um longa história no passado.
Meu olhar vai de Lenos para Juliana. No momento atual, os dois parecem estar em um jogo silencioso, cada um tentando esconder algo que o outro já sabe, eu posso ver que há algo mais entre eles, algo profundo, uma história de um passado que nunca foi contado.
Mas, ao mesmo tempo, há uma dor em Juliana que não posso ignorar. Ela está mais fraca do que deveria, mas essa força interior, essa confiança quase incomum, ela ainda resiste. E me pergunto: o que ela sabe que nós não sabemos? O que ela viu, ou o que ela experimentou, que a faz manter o controle, mesmo diante de tanto sofrimento?
Enquanto observo o silêncio, percebo que Lenos, ao contrário de Juliana, tenta esconder suas emoções. Ele recua, tentando desviar da pressão crescente que Juliana coloca sobre ele. E, por um momento, me pego refletindo sobre ele. Lenos não é quem eu pensava. A máscara que ele usa, de autossuficiência e controle, está começando a rachar. Mas o que isso significa? O que ele realmente esconde?
Eu dou um passo à frente, o meu coração acelerado, e me volto para Juliana. A voz dela, agora mais firme, mais clara, me chama de volta à realidade.
Não minto que é curioso a sensação de estar tão próxima de uma cópia minha. Eu, que sempre me enxerguei como única, agora me vejo frente a uma versão de mim mesma que não é exatamente eu, mas poderia ser. Essa proximidade com a gêmea, com o reflexo do que sou, me desconcerta de uma maneira que não consigo explicar direito. É como se houvesse uma estranha familiaridade entre nós, mas também uma distância que me faz questionar o que realmente me define.
Sinto que, por mais que sejamos iguais, ainda há algo de diferente, algo que não consigo identificar com clareza. Ela é como se fosse uma versão paralela que existe por si mesma, mas ao mesmo tempo, sinto também como se fosse uma extensão de mim.
— Sophia, você está entendendo o que está acontecendo? — Ela pergunta, com um sorriso enigmático, mas com os olhos que ainda brilham com uma luz que eu não compreendo totalmente.
Eu olho para ela, sentindo o peso de suas palavras, e respondo, mesmo que eu não tenha todas as respostas.
— Não... Mas estou começando a entender. Algo grande está vindo, não é? — Minha voz sai mais suave do que eu gostaria, mas há uma sensação estranha de que, de algum modo, ela já sabe o que está por vir.
Juliana sorri novamente, um sorriso que não parece ser apenas de confiança, mas de uma compreensão profunda. Ela sabe mais do que eu. Eu a questionaria sobre isto, porém, vozes chamam a nossa atenção.
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Asas Mortais
TerrorSinopse: Depois que cada partícula de seus corpos e almas foram transportados para a mais sombria e perigosa dimensão, Nicholas e Sophia passarão por diversas situações insanas e macabras para retirar as Pedras de Prim do domínio da Coroa Negra, res...
