Mais um velório. Mais uma vida perdida. Mais um peso nos ombros de todos em Green Valley. Minha mãe segura meu braço com tanta força que, se pudesse, arrancaria um pedaço de mim. "Não vá até ele, Anny. Esse garoto é problema." Ouvi isso tantas vezes que o aviso se tornou um ruído de fundo. Mal sabe ela que os maiores problemas que já enfrentei estão dentro de casa, e não fora dela.
Blake é diferente. Ele é bagunçado, intenso e, sim, perigoso, mas não como minha mãe pinta. Ele é o tipo de perigo que me faz sentir viva, o tipo de confusão que eu quero mergulhar. Quando o vi parado ali, de calça jeans rasgada e aquele ar de quem não dá a mínima, não consegui evitar. Nossos sinais já são automáticos: um olhar, um gesto, e pronto, já sei o que ele quer.
O banheiro era um risco, mas eu precisava sentir ele de novo. Faz dias que estamos afastados. Meus pais vigiam cada passo que dou como se eu fosse a próxima vítima desse assassino maluco. Eles não entendem que o que me assusta não é morrer, mas viver trancada, presa às expectativas deles.
Quando Blake me puxou para a cabine e começou a me beijar, por um momento, o mundo sumiu. Só existíamos nós dois. Não os mortos, não a igreja, nem mesmo as regras que pareciam gritar em todos os cantos daquele lugar sagrado. Mas, como sempre, nossa sorte dura pouco. A voz da Sra. Mendez cortou o momento como uma faca.
Saí dali com um sorriso no rosto, mas o coração apertado. Minha mãe vai surtar se descobrir que eu estava sozinha com Blake. Ela nunca gostou dele. Diz que ele tem cheiro de encrenca, mas nunca parou para olhar além do rótulo.
Quando voltei para o banco ao lado dela e do meu pai, senti o peso dos olhares. Todo mundo percebeu que saí. Talvez não saibam para onde fui, mas em Green Valley, tudo vira fofoca. A pequena cidade respira intrigas, e qualquer movimento fora do comum vira um escândalo.
Meu pai sussurra:
— Onde você estava, Anny?
— No banheiro. O senhor quer detalhes? — respondo, cruzando os braços.
Ele me lança um olhar duro, mas não insiste. Minha mãe, claro, não deixa passar.
— Espero que você não tenha ido atrás daquele garoto.
Reviro os olhos, mantendo a calma.
— Eu só queria respirar, mãe. Esse lugar é sufocante.
Ela suspira, mas não insiste mais. Às vezes, penso que ela tem medo de me perder, mas não no sentido literal. Medo de que eu vá embora de Green Valley, de que me torne alguém que ela não pode controlar.
De volta ao velório, minha mente vaga. Não consigo parar de pensar nas mortes. Três adolescentes. Três colegas nossos. O silêncio da polícia só piora as coisas. Será que eles estão perdidos? Será que sabem algo e não querem nos contar? Uma coisa é certa: ninguém está a salvo.
Depois do funeral, enquanto todos vão embora, meus pais decidem conversar com o pastor. Aproveito o momento para sair e mandar uma mensagem para Blake.
Eu: "Te vejo à meia-noite, no lugar de sempre. Dá um jeito de sair."
Blake: "Achei que não ia conseguir escapar. Mal posso esperar."
O lugar de sempre é uma velha fábrica abandonada na saída da cidade. É onde podemos ser nós mesmos, longe dos olhares julgadores e das regras idiotas.
Quando chego em casa, me tranco no quarto e finjo dormir cedo. Meu pai verifica o quarto antes de ir para a cama, como sempre. Assim que escuto os roncos dele, pego minha mochila e saio pela janela. É um pouco arriscado, mas a adrenalina me faz sorrir.
Caminhando pelas ruas desertas de Green Valley, sinto um arrepio que não tem nada a ver com o frio. Há algo estranho no ar, algo que não consigo explicar. Talvez sejam as mortes, talvez seja o silêncio das ruas, mas, por um momento, penso estar sendo observada. Olho para trás, mas não vejo nada.
Acelero o passo e, ao chegar à fábrica, vejo Blake encostado na parede, com aquele sorriso torto que me tira o fôlego.
— Pensei que não viria — ele diz, me puxando para perto.
— Eu sempre venho — respondo, e nos perdemos em um beijo.
Mas algo está diferente essa noite. O barulho do vento nas janelas quebradas da fábrica parece sussurrar nosso nome. Por um instante, sinto que não estamos sozinhos.
— Blake, você ouviu isso? — pergunto, afastando-me um pouco.
Ele olha ao redor, os olhos estreitos.
— Provavelmente só o vento.
Mas no fundo, ambos sabemos que não era só o vento.
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Silêncio Mortal
TerrorEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
